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Nova classe C, principal responsável pela recente alta do consumo, sente o peso da economia e tem dificuldade de continuar comprando na proporção de seus desejos

Brasil Econômico

A baixa classe média — segundo classificação da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) do governo federal, popularmente batizada como nova classe C — não conseguirá substituir os aparelhos eletrodomésticos e eletroeletrônicos adquiridos em anos anteriores por outros de melhor qualidade. Diante de uma economia enfraquecida, essa fatia da população, com renda familiar média de R$ 1.540, distanciou-se em capacidade de consumo dos grupos mais favorecidos, revela o instituto Data Popular.

Especializado na análise do perfil de consumo das classes C, D e E, o instituto concluiu — em pesquisa qualitativa realizada no primeiro semestre deste ano, na qual questionou os estrevistados sobre as condições de consumo no período presente — que a nova classe média perdeu capacidade de reposição de bens duráveis. Foi interrompido o ciclo de acesso a produtos de qualidade cada vez melhor, o que seria natural em uma situação de normalidade econômica.

Inflação é um dos principais fatores a comprometer o poder de compra da baixa classe média
AE
Inflação é um dos principais fatores a comprometer o poder de compra da baixa classe média

“O impacto da desaceleração do crescimento é perceptível na qualidade do consumo. A nova classe C continua comprando, mas já não sonha em ampliar o número de aparelhos televisores em suas casas ou em trocar a geladeira por outra de última linha, como faria, caso a economia mantivesse o ritmo de anos anteriores”, destaca o presidente do Data Popular, Renato Meirelles.

Além de desistir de comprar aparelhos melhores, essa fatia da população também passou a pesquisar mais os preços dos produtos que adquire. Segundo o instituto, cresceu em 44% o número de pessoas que informou recorrer à pesquisa de preços antes de ir às compras, no primeiro semestre deste ano, em comparação com igual período do ano passado.

A intenção é manter as conquistas adquiridas, sem reduzir o universo de produtos e serviços consumidos. Porém, essa fatia da população opta por pagar mais apenas pelo que considera essencial, como a alimentação básica e produtos de limpeza. Os demais itens são selecionados pelo menor preço.

A inflação (que corroi o poder de compra de todos os consumidores), o aumento da dificuldade de ter acesso a crédito, o aumento do endividamento e o enfraquecimento da renda real, que já não cresce como nos últimos tempos, são apontados pelo Data Popular como os principais fatores a comprometer a capacidade da baixa classe média de continuar aparelhando suas casas com produtos de qualidade cada vez melhor.

Ao fim de 2012, havia uma grande expectativa da classe média como um todo de que este ano seria melhor do que o anterior, segundo o Data Popular. Essa foi a perspectiva de 81% dos entrevistados. Mas, diante de um cenário menos positivo do que o esperado, o percentual de otimistas na mesma faixa de renda deve ter caído, segundo Meirelles. Ele ressalta que, além da conjuntura econômica, outro fator limita a continuidade de aquisição de duráveis pela classe C. Há uma saturação da demanda, já que a reposição de bens não é infinita.

“É claro que a tendência é as pessoas sempre desejarem produtos melhores, o que levaria a uma movimentação permanente do mercado. Só que esse é um segundo ciclo, que já não diz respeito ao acesso de bens básicos, como aconteceu até então. É possível que essa primeira fase, de compra da primeira geladeira, do primeiro fogão, tenha se exaurido”, ressalta Meirelles.

Orçamento é corroído por gastos com comida e moradia

As despesas com alimentos e habitação estão comprometendo a renda da nova classe C. Para esse grupo de pessoas, a inflação em 12 meses até julho deteriorou mais o poder de compra do que o da média dos brasileiros.

O Índice de Preços ao Consumidor - Classe 1 (IPC-C1) — que mede a variação dos preços de produtos consumidos pelas famílias com renda mensal de até dois salários mínimos e meio — subiu 6,34%, no período, enquanto para a média da população, a alta foi de 6,22%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor-Brasil (IPC-Br). Os dois indicadores são calculados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Isso ocorre porque os alimentos, item que mais pressionou a inflação nos últimos 12 meses, pesam mais no orçamento dessas famílias do que no das demais. Já os gastos com habitação estão subindo por causa do aumento do custo da mão de obra utilizada nos condomínios residenciais, como porteiros e faxineiros. Os salários desses profissionais têm crescido acima da média da inflação, informou o economista do Ibre/FGV André Braz.