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Sem dados oficiais recentes, economistas e investidores reclamam da dificuldade de planejar sem informações

Brasil Econômico

Responsável por 67% da circulação de dinheiro internamente, o setor de serviços é ainda uma incógnita para economistas e investidores. Não há estatísticas oficiais de análise do seu desempenho no curto prazo, ao contrário da indústria e do comércio, acompanhados mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com dados insuficientes para trabalhar, economistas reclamam da dificuldade de compreender o cenário atual e projetar variáveis prioritárias para prever os rumos do país - como inflação e mercado de trabalho. Por meses, os serviços foram os principais responsáveis pela variação dos preços e ainda hoje são os principais geradores de postos de trabalho.

Falta de dados oficiais sobre o setor de serviços dificulta planejamento de investidores
Digulgação
Falta de dados oficiais sobre o setor de serviços dificulta planejamento de investidores

Mesmo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), com lançamento previsto para agosto pelo instituto — uma promessa de alívio para profissionais que se debruçam sobre os números para avaliar o desenrolar da economia ou para decidir investimentos — deixará de fora uma parcela significativa do setor: os segmentos financeiros e de educação e saúde públicas.

Atualmente, o único dado oficial é o Produto Interno Bruto (PIB) de Serviços, divulgado trimestralmente, porém, alvo de críticas quanto à defasagem das informações e precisão. Há dúvidas sobre a capacidade do IBGE de calcular o valor adicionado dessa parcela majoritária da economia, cujos meandros, muitas vezes, esbarram na informalidade.

“Nossas previsões do PIB de Serviços acabam sendo muito focadas no comércio. Utilizamos também estatísticas de outros setores, desenhando associações, como os dados divulgados pelo Banco Central e os de transporte e armazenagem na indústria, para tentar chegar a uma projeção. Mas são modelos que poderiam ser bem melhores”, relata Alessandra Ribeiro, economista da consultoria Tendências. “O setor de serviços é o mais sensível ao mercado de trabalho e à inflação. É imprescindível ter um conhecimento mais atento sobre ele”, ressalta o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio Leal.

Do lado das empresas, a ausência de estatística prejudica o investimento, segundo o economista da Confederação Nacional do Comércio, de Bens, Serviços e Turismo (CNC) Bruno Fernandes. “Sem estatísticas, o empresário não consegue enxergar um cenário do mercado no qual está inserido. E, sem enxergar o seu próprio nicho de atuação, fica indeciso em investir”, afirma.

O grande desafio em conhecer o setor de serviços está na sua dimensão, porque ele abrange desde um pequeno estabelecimento voltado à estética até as grandes empresas de telecomunicações. Além disso, no segmento varejista, há uma expressiva dose de informalidade de economia que foge ao controle público. “A parcela que não é capturada pelas estatísticas tem a dimensão de um setor industrial, por exemplo. Não é pouca coisa, faz toda diferença no cálculo das contas nacionais. Talvez, se houvesse uma PMS anteriormente, o governo não tivesse insistido tanto no fator consumo para sustentar a economia por tanto tempo”, avalia Leal, do ABC Brasil.

Na tentativa de facilitar a compreensão do setor, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) está trabalhando no aprofundamento dos dados da sua Sondagem de Serviços, a única disponível atualmente. A intenção é utilizar os dados produzidos internamente e somar com a PMS para gerar, além das estatísticas mensais, projeções para os meses seguintes.

O esforço do Ibre/FGV, na verdade, vai além do setor de serviços. Os dados recolhidos serão agregados aos da indústria e do comércio da economia, como um todo, próximo ao PIB, só que de forma mensal e com projeções. “Daqui a pouco, será possível cruzar os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) com a PMS para tirar informação sobre a informalidade”, exemplifica Silvio Sales, economista do Ibre/FGV.

A PMS que será divulgada em agosto será referente ao período de janeiro de 2012, início da série histórica, até junho de 2013. Nos meses seguintes, será divulgada com defasagem de dois meses. O formato será o mesmo utilizado na Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), que traz estatísticas de volume de venda e receita gerada, comparada ao mês imediatamente anterior e a igual mês do ano anterior. E ainda trará o desempenho de serviços em 12 estados.

A pesquisa, no entanto, pouco deve ajudar na compreensão do subsetor “Outros serviços”, a grande incógnita do cálculo do PIB de Serviços, por incluir tudo o que não está inserido nos demais segmentos . Apesar do nome indefinido, esse subsetor responde por 22% dos serviços e 14% do PIB nacional. “A PMS não resolve todo o problema. E esse não é um desafio só do Brasil. Ocorre no mundo todo. De qualquer forma, a PMS vai ajudar a formar um cenário. Não resolve, mas é um avanço”, diz Leal.