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Empresário parte para o “all-in” contra Casino, mesmo com cartas ruins nas mãos

Quem acompanha o mercado empresarial sabe que um rompimento societário não é muito diferente do fim de um casamento. Após anos de convivência, os dois lados, desgastados e incomodados com a presença do outro, buscam uma saída rápida, porém, nem sempre honrosa. A crise entre Abilio Diniz e Jean Charles Naouri, por exemplo, já chegou a capítulos folhetinescos, ao ponto de o empresário brasileiro ser impedido de entrar em uma reunião operacional do Grupo Pão de Açúcar na França. E, apesar do constrangimento, não ter problema de anunciar que foi, literalmente, barrado na porta.

Há até quem possa acreditar que o brasileiro deu azar na escolha do sócio. Mas Diniz não sofre dos males de um principiante. Ele já adiantou que deve partir para as vias judiciais contra a empresa francesa por conta do episódio. Diniz alega que, como presidente do conselho de administração do Pão de Açúcar, é responsável pelo desempenho da empresa, por isso, deve participar de todas as reuniões estratégicas, mesmo as de caráter operacional, como foi o caso. Vale lembrar que as estratégias definidas na França ainda vão passar pelo crivo do conselho de administração do Pão de Açúcar, logo, pela aprovação do empresário brasileiro.

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Diniz não esconde que está partindo para o “all-in” — termo comum no pôquer, onde o jogador aposta todas as suas fichas em uma cartada final —, frente ao empresário francês. O prêmio, claro, é a porta de saída da sociedade.

O mais novo argumento da disputa — ser barrado na porta ao tentar participar de uma reunião —, pode não convencer nem dar grande caldo jurídico, mas ganhou repercussão, criando um novo desconforto para um francês, que, como se sabe, também é pavio curto quando o assunto são seus negócios. “Diniz está criando dificuldade para vender facilidade, o que é muito comum em crise de relacionamento”, conta uma fonte do setor.

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Por meio de sua assessoria de imprensa, Diniz reafirma que “sempre cumpriu os contratos firmados e continuará cumprindo”. E que não há qualquer intenção de reescrever a história. Só lamenta a atitude insensata do Casino de impedi-lo de participar, como presidente do conselho de administração, da reunião de planejamento estratégico do Grupo Pão de Açúcar, realizada na segunda-feira na sede do Casino, em Paris.

Diniz mostra, assim, que mesmo com cartas ruins é capaz de forçar jogadas inteligentes. Afinal, Naouri não escondeu que a opção por deixar o sócio fora da reunião era simples falta de confiança. “Ele se posiciona como concorrente, ora dizendo que quer comprar o Carrefour, ora que quer ficar com a Viavarejo. O que ele quer?”, diz um executivo do Casino. O curioso é que esse mesmo argumento é a mesma usado contra a família Klein, fundadora da Casas Bahia, pelo Pão de Açúcar. “Michel Klein diz que não está satisfeito com o negócio, depois que o negócio foi bom para sua família, depois que quer comprar a Viavarejo. Ele não sabe o que quer”, disse uma fonte ligada ao supermercadista.

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E afinal, o que querem os sócios insatisfeitos? “Eles estão criando zonas de desconforto para elevar seu passe na saída”, conta um executivo de fusões e aquisições. “O resto — tentar recomprar empresa, rediscutir contratos, sofrer assédio do sócio —, é blefe.” Até mesmo porque o Casino já deixou claro que, além de não ter recebido nenhuma proposta para a venda da Viavarejo, não tem intenção de se desfazer do ativo.

Enquanto as zonas de desconforto aumentam, a crise institucional da empresa é observada pelo mercado financeiro. “Geralmente, é o grupo internacional que sofre mais com ruídos em seus mercados de atuação”. Resta saber quanto tempo Naouri está disposto a aguentar os ruídos. Façam suas apostas!

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