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ABB, Siemens e Alstom vão disputar contratos de R$ 5 bilhões; chineses podem mudar panorama do mercado

Leilão de linhas de transmissão da Aneel neste ano vai gerar cerca de R$ 10 bilhões em contratos de equipamentos elétricos neste ano, o dobro do ano passado.
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Leilão de linhas de transmissão da Aneel neste ano vai gerar cerca de R$ 10 bilhões em contratos de equipamentos elétricos neste ano, o dobro do ano passado.

O mercado brasileiro de fabricantes de equipamentos para o setor elétrico pode sofrer uma reviravolta neste ano. Com o leilão de mais de 8 mil quilômetros em linhas de transmissão que o governo brasileiro planeja licitar, o volume de contratos em disputa será o dobro do normal. Só em subestações de energia, serão entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões. O valor estimado pelo mercado para cabos e torres de transmissão é equivalente.

Tradicionalmente, a disputa ficaria entre multinacionais com fábricas no Brasil, como Siemens, Alstom, ABB, GE e Toshiba. Ou companhias nacionais de porte, caso da WEG, em subestações. O mercado de cabos tem como concorrentes nomes como Furukawa, Pirelli e Nexans. Mais de uma dúzia de empresas fabricam torres de energia. Mas há um fator novo que agora pode desestabilizar a competição: a participação chinesa.

Investidoras como a State Grid, que já está no Brasil como concessionária de linhas de transmissão, anunciaram que vão participar dos leilões. Além de dinheiro no bolso, outra vantagem que têm é a possibilidade de apresentar propostas agressivas, que levem em conta a aquisição de equipamentos na China, onde a escala de produção torna os preços muito inferiores aos encontrados no Brasil, há uma política industrial voltada para a exportação e financiamento farto para a fabricação local, avalia Nivalde de Castro, professor e coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os projetos que serão oferecidos nos próximos leilões, ainda sem data definida, fazem parte, em sua maioria, dos sistemas de transmissão e integração dos complexos de usinas hidrelétricas dos rios Teles Pires, na divisa de Pará e Mato Grosso, e Xingu (Belo Monte), no Pará. O vencedor da disputa pelo fornecimento de equipamentos para qualquer um dos grandes lotes que serão licitados aumenta significativamente sua participação de mercado. Além disso, garante a ocupação das linhas de produção por dois ou três anos. Quem já está no país sabe disso.

“Esses projetos são fundamentais para os planos de expansão da Siemens nos próximos cinco anos”, afirma Carlos Adolfo Pereira, diretor de vendas do setor de energia da companhia alemã no país. Roberto Matsushima, diretor de desenvolvimento de negócios da ABB Brasil, diz que a companhia suíça também está ansiosa pela realização dos leilões.

Nova tecnologia

Um os motivos é que a disputa justificaria a importação de tecnologias que a empresa só tem lá fora, como a de transmissão pelo sistema de corrente contínua em tensões de até 800 KW. Nenhuma linha do gênero no país tem tensão tão alta. Mas se cogita a possibilidade de que a Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE) faça a especificação para o linhão de Belo Monte. Hoje, a ABB fabrica no país equipamentos de corrente contínua de até 600 KW.

Como preparação para os leilões deste ano, porém, a ABB tem outros investimentos caminhando, parte de um plano de aportes de US$ 200 milhões, até 2014. No orçamento estão contemplados projetos como a ampliação da unidade em Guarulhos (SP), onde são fabricados disjuntores e transformadores de alta tensão, e a construção de uma nova unidade em Sorocaba (SP), já iniciada. Nos próximos três anos, a previsão é de que o quadro de funcionários no país aumente de cerca de 4 mil para 7 mil.

Desafio duplo

Na Siemens os contratos também são encarados como oportunidade de nacionalização de novos itens do portfólio. Mas bem mais que isso. “Temos um desafio duplo, porque no Madeira não tivemos sucesso. Temos que compensar”, afirma Carlos Adolfo Pereira, referindo-se as linhas de transmissão de Jirau e Santo Antônio. “Ampliamos nossas operações em Jundiaí (SP) justamente para poder dar conta de projetos como esses (as linhas de transmissão de Teles Pires e Belo Monte). Fabricamos hoje praticamente todos os equipamentos usados em sistema de transmissão e distribuição, menos cabos e torres”.

Em setembro do ano passado, a companhia alemã anunciou a duplicação da capacidade da fábrica que tem em Jundiaí. Foram adicionados à unidade 12 mil metros quadrados de instalações. Em seu último ano fiscal, encerrado em setembro, a Siemens contava aumento de cerca de 30% na carteira de pedidos do setor de energia no país. Mas o crescimento foi puxado por turbinas para geração de energia eólica e equipamentos para distribuição. Por isso, a disputa pelos contratos de agora é tão importante.

Leia ainda: EPE prevê R$ 1,019 trilhão de investimentos em energia até 2020

A Alstom, por sua vez, investiu cerca de R$ 70 milhões no ano passado, como parte dos preparativos para atender ao mercado após os leilões deste e nos próximos anos. Inaugurou em Itajubá (MG) uma nova linha para a fabricação de capacitores de potência, fundamentais em sistemas de transmissão, e preparou sua fábrica em Canoas (RS), para fabricar, testar e desenvolver os transformadores de 800 KV para linhas de corrente contínua, que poderão ser especificados para o linhão de Belo Monte.

Linhas de transmissão

Expansão da rede do Sistema Integrado Nacional (em km)

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Fonte: Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2011 - EPE

Por ora, em compasso de espera, as empresas se dedicam a subsidiar o governo com informações técnicas sobre as tecnologias e soluções em transmissão disponíveis. Quando saírem os editais dos leilões – a publicação dos primeiros é esperada para as próximas semanas –, começa a discussão de projetos com investidores que vão participar. Há concessionárias que preferem ir para a disputa com orçamentos dos projetos que terão que construir na mão. Com outras, a negociação é feita depois, caso vençam.

Sergio Gomes, vice-presidente da área de transmissão (grid) para a região América Latina da Alstom, diz que para novos entrantes ou empresas menores, os contratos em disputa neste ano podem ser a diferença entre se estabelecer ou não no país, entre ampliar investimentos ou botar o pé no freio. Mas que, para a Alstom, se não são dispensáveis, podem ao menos ser substituídos por outros no futuro. “Nossa visão é de longo prazo”, afirma o executivo.

A entrada dos chineses no jogo, diz ele, também não assusta. Com fábricas aqui e lá, a companhia francesa teria condições de fornecer a partir de qualquer um dos dois países, caso fosse do interesse do cliente. Mas, para quem investe tempo e dinheiro no Brasil, seria somente um consolo.