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Documento, que liberou 19 bebidas importadas, não trouxe qualquer conclusão sobre as amostras da bebida brasileira

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A indústria brasileira de suco de laranja ficou decepcionada com o relatório da Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) sobre a análise de resíduos de carbendazim no produto, divulgado hoje. O documento não trouxe qualquer conclusão sobre as amostras da bebida brasileira. A FDA liberou 19 amostras, de um total de 45 avaliadas desde 4 de janeiro, mas nenhuma delas é de bebida importada do Brasil.

As 26 amostras restantes ainda estão em análise ou sob revisão de conformidade e o órgão admitiu que algumas delas são de cargas de suco brasileiro. Segundo fontes da Agência Estado, a indústria torcia por uma conclusão de exames em amostras brasileiras, mesmo que eles apontassem taxas de carbendazim acima do tolerável para o mercado americano, o que traria a retenção e até mesmo o refugo do suco de laranja.

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"Foi melancólico, pois achávamos que teríamos algo concreto para que ao menos pudéssemos discutir e argumentar; com isso, possivelmente, teremos de esperar mais uma semana para um novo relatório", disse uma fonte. A Associação Nacional de Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR) chegou preparar jornalistas para participarem de uma conferência de imprensa hoje, na expectativa de que a FDA divulgasse a rejeição ou mesmo a improvável aprovação da bebida brasileira avaliada.

Sem nada concreto, a entidade que representa a indústria processadora manteve o silêncio adotado dos últimos dez dias. O único alento para as processadoras foi a confirmação, no comunicado da FDA, de que oito das 19 amostras de cargas liberadas eram do suco de laranja exportado pelo Canadá para os Estados Unidos.

O Canadá não produz suco e nem a fruta em escala comercial. O País importa bebida do Brasil e reexporta o excedente para os Estados Unidos, aproveitando de acordos de livre comércio. Por isso, a indústria avalia que essas amostras liberadas são brasileiras. Mas o Canadá compra e exporta para os Estados Unidos o suco de laranja não concentrado e não congelado (NFC), o qual, por suas características, tem resíduos de carbendazim abaixo das 10 partes por bilhão (ppb), teor máximo permitido pelos Estados Unidos.

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Já a maioria do suco brasileiro que entra diretamente no mercado norte-americano é do concentrado e congelado (FCOJ), cujo processamento para a retirada de água faz com que os resíduos de carbendazim superem 10 ppb no volume final. O impasse da FDA pode travar toda a indústria local de suco de laranja dos Estados Unidos, maior consumidor mundial da bebida.

O Brasil responde por 16% da demanda interna e por 56% das importações da bebida americana, segundo dados do mapeamento do setor feito pelo Centro de Pesquisa e Projetos em Marketing e Estratégia (Markestrat). Sem o suco brasileiro e sem outro fornecedor para supri-lo, a oferta da bebida nos Estados Unidos deve despencar e os preços, subir.

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As fontes da indústria suspeitam que a demora da FDA para dar um veredicto sobre as amostras ocorre justamente porque o órgão teme contribuir para o colapso da indústria local da bebida. "Eles estão confusos porque têm a função de defender a saúde do americano e a decisão correta seria vetar a bebida, não por questão sanitária, já que o suco não faz mal à saúde, mas por uma questão legal, porque o carbendazim é proibido lá desde 2009", disse uma fonte.

"Mas as consequências de uma decisão como essa serão piores para os americanos", completou. Enquanto isso, já há relatos de cargas de suco de laranja brasileiro paradas em tanques de armazenamento da bebida nos principais terminais portuários de escoamento de suco na Florida e em Delaware. Como novos navios com suco devem chegar na próxima semana, a expectativa é que eles fiquem atracados à espera do fim do impasse.

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