Tamanho do texto

Brasileiro afirmou que a agência deve melhorar seu apoio aos países dentro e fora da África

selo

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) deve promover uma ampla reforma para enfrentar o crescente desafio da insegurança alimentar mundial, disse nesta segunda-feira o novo diretor-geral da agência, José Graziano da Silva.

Após vencer uma eleição muito disputada neste fim de semana, o brasileiro disse que a entidade deve se empenhar para superar a divisão cada vez maior entre países desenvolvidos - que fornecem a maior parte do orçamento bianual de US$ 2,2 bilhões da FAO - e nações emergentes, que têm sido gravemente afetadas pela alta dos preços dos alimentos.

Especificamente, Graziano afirmou que a agência deve melhorar seu apoio aos países dentro e fora da África, ampliar os esforços de alívio dos impactos de desastres, aumentar seu papel de conselheira em setores como biocombustíveis e trabalhar para eliminar barreiras comerciais.

"A demanda por suporte da FAO está crescendo mais rápido do que nossas reservas e nossa capacidade de lidar com elas, mas há demandas especialmente em novas áreas que são cruciais", afirmou. Durante anos, a FAO foi uma das agências de menor destaque da ONU. Agora, contudo, a segunda alta recorde dos preços dos alimentos em quatro anos a colocou em evidência no cenário internacional.

Na semana passada, a organização recebeu uma missão fundamental na implementação dos planos das 20 maiores economias do mundo (G-20) para melhorar a transparência no mercado mundial de alimentos. Estados Unidos, União Europeia e outros doadores, como o Japão, esperam que o ex-coordenador do programa brasileiro "Fome Zero" consiga trazer a tão necessária reforma à agência. As nações que financiam os projetos da FAO apoiavam, em grande parte, o espanhol Miguel Ángel Moratinos, ex-ministro de Relações Exteriores, que perdeu a disputa.

O brasileiro José Graziano, durante votação para a direção-geral da FAO, na Itália
AFP
O brasileiro José Graziano, durante votação para a direção-geral da FAO, na Itália
Apesar dos limitados recursos financeiros, Graziano pretende expandir o papel da entidade para ajudar os países a desenvolver e executar planos de erradicação da fome. Os fundos da FAO caíram 31% entre 1994 e 2005, e o número de funcionários recuou 25%. "Nós temos que trabalhar com um mínimo de consenso para que esta organização não seja paralisada por essas divisões", afirmou ele. "Eu espero poder firmar acordos para ter um mínimo de consenso."

A segurança alimentar subiu para o topo da agenda política neste ano, depois que o índice de preços dos alimentos medido pela FAO alcançou um patamar recorde no mês de fevereiro. Graziano disse ser impossível prever por quanto tempo mais os preços ficarão elevados, mas apoiou as acusações da França - que preside o G-20 neste ano - de que boa parte da recente volatilidade foi provocada pela "contaminação" dos mercados de commodities.

"Isso não é um desequilíbrio temporário, está ligado aos mercados financeiros", afirmou o novo diretor-geral da FAO. "Enquanto não houver uma situação financeira mais estável em todo o mundo, as commodities refletirão isso."

Particularmente pessimista para a UE, ele afirmou que o aumento de regras privadas para padrões de qualidade e de produção em algumas partes do mundo é um sério problema enfrentado pelos mercados globais. "Eu acho que a FAO precisa desempenhar um papel efetivo nisso, para apoiar padrões públicos e regras democráticas, ou surgirão novas barreiras ao comércio num futuro próximo", disse o brasileiro.

Quanto aos biocombustíveis, que foram parcialmente culpados pela alta dos preços dos alimentos, Graziano afirmou que os efeitos são muitas vezes determinados pela região. Ele apontou a Ásia como uma área que sofreu altas de preço por causa do desvio das safras para fabricação de combustível, mas disse que outras partes do mundo, como a América Latina, foram beneficiadas.

Embora tenha tido uma postura contida com relação à biotecnologia - outro tópico controverso -, Graziano poupou sua crítica mais veemente sobre o papel de grandes companhias no monopólio do comércio de sementes. "Eu não concordo que um elemento básico da produção agrícola e pecuária possa ser objeto de monopólio", disse. As informações são da Dow Jones.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.