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Líder da entidade que representa usineiros pede demissão

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Mudanças na estrutura do setor sucroalcooleiro e o menor diálogo com o governo teriam sido algumas das razões que levaram o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, a pedir demissão do cargo, anunciada nesta terça-feira pela entidade. 

Acostumado a ter acesso ao governo, Jank perdeu espaço para representantes dos grandes grupos formados após a consolidação do setor sucroalcooleiro, que passaram a ter contato direto com o governo. A crise econômica que levou à quebra da safra de cana-de-açúcar e, em consequência, à menor produção de etanol também provocou estresse entre produtores e o governo. 

A necessidade de um interlocutor de maior trânsito político levou a Unica a criar o cargo de presidente do conselho deliberativo e indicar Pedro Parente para ocupá-lo. Ex-chefe da Casa Civil do governo Fernando Henrique Cardoso, Pedro Parente não apenas é próximo da presidente Dilma Rousseff como também representa um dos principais grupos sucroalcooleiros do País, a Bunge, do qual é presidente. 

Segundo fontes do setor, a proximidade entre Dilma e Pedro Parente se deu durante o apagão do setor energético, no início da década passada, quando a presidente era secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. No auge da crise do etanol, por exemplo, em agosto de 2011, quando a Unica não conseguia dialogar com o governo, Parente reuniu-se por mais de cinco horas com a presidente Dilma em São Paulo. 

Grande negociador em questões regulatórias e em comércio internacional, Jank sempre se sentiu mais à vontade no ambiente técnico, o que o fazia se afastar de Brasília. Ele é tido, pelos associados, como um executivo de importância fundamental para divulgação e expansão do açúcar e etanol no mercado externo. Segundo fontes, o executivo foi escolhido em um período em que a internacionalização era o grande gargalo, e cumpriu de forma exemplar o papel. Porém, a mudança de cenário pede um articulador mais político, e muitos produtores passaram a criticá-lo. 

Nos cinco anos em que está na presidência da Unica, a entidade conseguiu ampliar sua atuação e obteve resultados concretos nas áreas fiscal, econômica, comercial, trabalhista, ambiental e regulatória. Em sua carta de demissão, Jank ressalta que, durante sua gestão, o número de empresas associadas à Unica cresceu 50%. Esse crescimento levou a um maior acesso a empresas fora do setor sucroalcooleiro ao conselho da entidade, o que desagradou a parte dos produtores. 

Na carta, Jank lembra que as recentes mudanças estatutárias, com a criação do cargo de Parente, tiveram relação direta com a nova realidade do setor, com aumento expressivo de participação de empresas petrolíferas, tradings e multinacionais, o que faz com que "os variados interesses dos associados demandem hoje novas formas de governança". 

Com a saída de Jank, a Unica deve repensar sua atuação. Segundo fontes, uma reunião na próxima semana discutirá qual o perfil do novo presidente. Uma parcela da entidade quer um negociador político, com trânsito em Brasília. Outro grupo defende a contratação de um profissional com larga experiência à frente de entidades de classe.

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