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O inverno mais severo dos últimos 15 anos pode prejudicar a produção nacional de commodities. Mas a preocupação maior dos produtores é com as hortaliças e legumes

Brasil Econômico

A pior frente fria enfrentada pelo país nos últimos 15 anos já é motivo de preocupação entre pequenos produtores rurais do Sul. Tradicionais no cultivo de itens de hortifrúti, componentes importantes na mesa do brasileiro, os agricultores da região se apressam em projetar as perdas com a geada que tende a se intensificar ao longo da semana. Entre os produtos com potencial de prejuízo estão a cebola, as hortaliças e o tomate. Em menor escala, a produção de batata e cenoura também pode sofrer com o clima.

Geada atinge a cidade de Curitiba (PR), nesta quarta-feira (24).
Vagner Rosario/Futura Press
Geada atinge a cidade de Curitiba (PR), nesta quarta-feira (24).

No Paraná, particularmente, estão expostos à geada o trigo e o café. Segundo o Departamento de Agricultura Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do estado, mais de 52% do cultivo de trigo pode ter problema caso o frio intenso se estenda por mais dias. Na cultura cafeeira, quase 40% da produção pode estar comprometida.Com menor impacto, o milho também está na lista de riscos do Deral. Resta colher 30% da lavoura. 

No entanto, diferentemente dos artigos de hortifrúti, a queda da produção dessas commodities pode ser compensada por importação. Por isso, não há previsão de reflexo nos preços, principalmente do café. A produção do grão no Sul do país é irrelevante, comparada a outras regiões.

“O pior dos cenários para esses grãos é um impacto direto nas importações. Mas como já importamos muito trigo, por exemplo, isso não deve causar muito problema ao mercado interno”, avalia o consultor gaúcho Flávio França.

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Ele destaca que as commodities já estavam com os preços elevados, especialmente, o trigo. A cotação no mercado internacional aumentou por conta de perdas de safra na Argentina, decorrentes de um inverno rigoroso. “Já é sabido que houve redução na área de plantio e problemas climáticos na Argentina. O Brasil influencia pouco no âmbito internacional do trigo”, diz França.

No caso do milho, a geada do Sul é ainda menos preocupante, porque, embora a produção brasileira tenha importância no mercado internacional, a previsão é de recorde de produtividade na colheita deste meio de ano.

Já no caso das hortaliças, leguminosas e frutas, pouco pode ser feito para evitar prejuízos com a redução da oferta na região Sul. As baixas temperaturas, que ontem ocasionaram a precipitação de neve em Curitiba — desde 1975 o fenômeno não era presenciado na capital paranaense —, criam a expectativa de geada negra. Naquele ano, também ocorreu o fenômeno, que queima as plantas por dentro e compromete a lavoura.

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Em Santa Catarina, a maior preocupação é com a perda da cultura por conta do chamado “cinturão verde”, diz Francisco Heiden, técnico da Empresa de Pesquisas Agropecuárias. Até o momento, diz ele, não é possível prever se haverá quebra ou não da safra. Heiden lembra, no entanto, que, em frentes frias passadas, muitos agricultores conseguiram evitar as perdas. “Normalmente, acontece o retardamento da colheita. Mas como este ano o frio está mais intenso, pode ser diferente”, acredita o pesquisador.

É possível que também a criação de gado no estado seja afetada. Heiden afirma que muitas pastagens na região são típicas de verão e não aguentarão muitos dias de frio. Com isso, o custo da pecuária pode aumentar. “Essas plantas (de pastagem) podem até morrer”. 

Mesmo com tanto frio, há um lado positivo na ocorrência de geada em julho. No último ano, esse fenômeno aconteceu entre agosto e setembro, pegando agricultores desprevenidos. Muitos estavam plantando a safra de verão e tiveram queda de produtividade.

O tomate foi um dos produtos que sofreram com a “geada tardia”. Somado à redução da área de plantio no restante do país, o fenômeno foi um dos responsáveis pelo aumento do preço da cesta básica no ano passado. “A geada é sempre prejudicial. Mas, nesta época do ano, algumas frutas são até beneficiadas. As uvas e as bananas, por exemplo, estão em uma época de dormência, esperando a primavera”, conta Heiden. A expectativa do técnico é que o frio passe e que, no início da primavera, contribua para melhorar a produtividade.