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Mesmo com intervenção do governo, que estabeleceu valor mínimo, preço do grão arábica está abaixo do custo de produção

Brasil Econômico

Do sonho ao pesadelo. A grande safra de café, que mesmo em um ano de baixa produtividade manteve uma produção quase idêntica ao ano de alta, pode se transformar em um enorme prejuízo. As perdas podem chegar a R$ 130 a saca, dependendo da região de produção, apesar da fixação do preço mínimo de R$ 307,00 a saca de café.

Brasil responde por 33% da exportação mundial de café
Divulgação
Brasil responde por 33% da exportação mundial de café

Somente em Minas Gerais, Paraná e São Paulo, caso toda a produção do grão arábica deste ano fosse vendida pelo preço sugerido pelo governo federal, o prejuízo somaria R$ 1,5 bilhão. Com isso, especialistas do setor sugerem que a expectativa de um crescimento excepcional da produção em 2013 não deve mais se concretizar. No total, a Companhia Nacional do Abastecimento (Conab) espera uma safra de 36,2 milhões de sacas de arábica e de 12,3 milhões de sacas de robusta.

“A lei da oferta e da procura é terrível”, diz Nathan Herzskowicz, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Para ele, há um descasamento entre a oferta do grão arábica — o de maior qualidade — e o efetivo consumo, o que está deprimindo o preço do café no mercado internacional. “As cotações voltaram para o patamar de cinco anos atrás. Enquanto deveríamos estar comemorando uma redução de apenas 5% na produção este ano, estamos preocupados com as finanças dos produtores”, afirma.

Como o Brasil responde por 33% da exportação mundial de café, uma “supersafra” influencia negativamente os preços. “A expectativa no mundo é de que sobrará café. Em 2011, a demanda estava maior e os preços explodiram. Agora, em 2013, está acontecendo o contrário”, argumenta Herzskowicz.

O presidente da Abic teme que os produtores reduzam os investimentos na próxima safra, de alta bienalidade. “Toda vez que o preço cai, produtores reduzem seus custos com fertilização, maquinário, entre outras coisas. No final do processo, a produtividade cai e os preços se reequilibram”, afirma. “Não dá para prever se cairá a produção, mas não será tão grande quanto imaginávamos”, conclui Herszkowicz.

Para a Conab, os preços dos grãos estão fora de equilíbrio. Enquanto o de melhor qualidade não alcança nem o custo de produção, o de pior tem um prêmio de até 60%. Segundo Jorge Queiroz, analista da Companhia, empresas americanas e europeias estão aproveitando a diferença entre os preços dos grãos, que hoje é de 20%, para baratear a mistura de suas bebidas e assim aumentar as margens. “Eles estão aumentando o percentual de robusta no produto. Isso está provocando um desequilíbrio”, diz. 

Queiroz afirma que, atualmente, existem mais fatores que favoreceriam uma valorização dos grãos do que o contrário. Além das novas misturas com maior teor de robusta e menor de arábica, especuladores estariam se aproveitando da queda de preço da commodity. “Não há fundamentos de mercado que sustentem um valor tão baixo para o café. No médio prazo, imagino que os preços, principalmente os de arábica, terão uma reação”, diz.

Para evitar o prejuízo, os cafeeicultores devem segurar a produção, diz Diogo Metzdorff, analista da Safras e Mercados. Após conversar com produtores, Metzdorff acredita que eles estocarão o possível para esperar uma alta nos preços. “Eles estão aproveitando algumas variações no mercado. Se o preço sobe um pouco, vendem. Mesmo com preço mínimo, eles vão segurar as vendas”, afirma.

Com uma previsão de exportação de 31 milhões de sacas este ano, o mercado internacional deve ajudar os cafeicultores a empatar o jogo, ao menos. Com preços mais próximos ao custo de produção, embora agricultores de São Paulo e Paraná continuem perdendo nessa equação, as vendas para o exterior devem ganhar a preferência dos produtores.

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