Tamanho do texto

Anualmente, elevadores de todo o mundo ficam indisponíveis por 190 milhões de horas. Parceria entre Microsoft e ThyssenKrupp pretende acabar com o desperdício de tempo

“Não se esqueça de levar o saco de vômito.” Quem dá o conselho é um dos vários oficiais de imigração do Aeroporto John F. Kennedy, em Nova York, nos Estados Unidos. Ao saber que um dos objetivos da visita ao país é subir no novo One World Trade Center, o oficial afirma que trabalhou nas antigas Torres Gêmeas e diz não ter boas lembranças dos elevadores dos arranha-céus que eram a marca registrada da cidade até setembro de 2001.

“Com certeza ele falava do antigo World Trade Center. O elevador agora está extremamente confortável, mas ele é rápido, então você sente que está acelerando. Nós poderíamos reduzir essa aceleração, mas levaria mais tempo para chegar ao topo, e o cliente não quer isso”, diz Fábio Speggiorin, vice-presidente executivo de P&D da ThyssenKrupp, empresa responsável pelos 71 elevadores e 12 escadas rolantes do prédio mais alto dos EUA.

O engenheiro brasileiro esteve diretamente envolvido na criação do “active roller guide”, tecnologia desenvolvida nos anos 2000 em Guaíba, no Rio Grande do Sul, que evita oscilações dentro da cabine em edifícios altos e livra seus passageiros de precisarem levar sacos de vômitos. “São corrediças com motores que conseguem prever a vibração, absorvê-la e não passá-la para a cabine. Em elevadores que vibram, as pessoas têm até certa náusea. Não é um sistema barato”, explica Fábio. “Quanto mais rápido, mais ele vibra”, completa.

One World Trade Center, em Nova York
Brunno Kono/iG São Paulo
One World Trade Center, em Nova York

No caso do novo WTC, falamos de elevadores que chegam a 37 km/h, ou um pouco abaixo da aceleração máxima do velocista jamaicano Usain Bolt. Para ir do subsolo ao 102° andar, onde fica o observatório a uma altura de 381 metros, não são precisos nem 60 segundos para subir ou descer (assista aos vídeos abaixo e comprove), embora a descida seja capaz de entupir os ouvidos e provocar uma sensação de vertigem por conta das animações nas telas.

Assista como é a subida no One World Trade Center: 

Assista como é a descida no One World Trade Center:

allowfullscreen

Elevador parado é dinheiro jogado fora

Apesar de se orgulhar dos poucos segundos que o passageiro leva para subir um prédio, seja ele residência ou um arranha-céu de 102 andares, são os preciosos segundos que o passageiro leva para pegar o elevador que preocupam a ThyssenKrupp. “Ninguém deveria esperar mais do que 30 segundos”, diz Patrick Bass, CEO da empresa para a América do Norte.

De acordo com um levantamento da empresa, o planeta conta hoje com 12 milhões de elevadores – o Brasil é o 5° país com mais equipamentos desse tipo, atrás de Espanha, Alemanha, EUA e China –, que fazem, diariamente, 7 bilhões de viagens.

E se tempo é dinheiro, como reza o ditado, fortunas foram perdidas. No Reino Unido, 49 minutos perdidos por dia representam um prejuízo de 26 bilhões de libras esterlinas para a economia no ano, enquanto em Nova York, um estudo conduzido por estudantes da Universidade Columbia mostrou que o tempo desperdiçado por trabalhadores à espera de um elevador foi de 16,6 anos em 2010.

No total, calcula-se que, em um ano, os 12 milhões de elevadores ao redor do mundo tenham ficado indisponíveis para manutenção por 190 milhões de horas, o equivalente a 108 séculos.

Por isso empresas do setor têm investido para aumentar o tempo de utilização. 

Ligados à nuvem e inteligentes

Desenvolvido em parceria com a Microsoft, MAX (o nome vem de “maximizar” o uso dos elevadores) é uma tecnologia que coleta dados dos elevadores por meio de sensores de movimento e alinhamento, os envia para a nuvem da gigante norte-americana, onde o algoritmo desenvolvido por engenheiros das duas companhias analisa as informações e prevê quanto resta de vida útil em cada componente e quando será necessária a manutenção preventiva antes de uma eventual falha.

Kevin Turner, COO da Microsoft
Divulgação/Frank Elschner
Kevin Turner, COO da Microsoft

“Passei boa parte da minha carreira trabalhando para saber quando exceções acontecem, mas agora não queremos apenas saber quando elas acontecem, queremos evitar que elas aconteçam, eliminando-as”, afirma Kevin Turner, COO da Microsoft. “E a nuvem permite esse tipo de oportunidade, é a espinha dorsal. Quanto mais eu vejo o que a nuvem pode fazer, mais oportunidades eu vejo em todos os modelos de negócio.”

Em um segmento no qual a manutenção pouco mudou nos últimos 50 anos, executivos das duas empresas não se intimidam ao citar uma “revolução” no mercado e nas ambiciosas metas traçadas para o MAX nos próximos anos.

“Nosso objetivo é revolucionar uma indústria que não apresentou tecnologias capazes de virar o jogo em mais de um século”, diz Andreas Schierenbeck, CEO da ThyssenKrupp.

Schierenbeck revela que já há prédios nos EUA, Alemanha, Espanha e Suíça equipados com a nova tecnologia, e que espera ter 180 mil unidades instaladas na América do Norte e na Europa até o final de 2017. O Brasil e outros países da América do Sul e da Ásia fazem parte do estágio seguinte, no qual o objetivo é oferecer o software para 80% dos elevadores do mundo, sejam eles da ThyssenKrupp ou não.

A instalação do aparelho que coleta os dados leva entre 12 e 15 minutos, e o tempo necessário para o que o algoritmo seja capaz de analisar e enviar informações sobre os componentes é de seis meses, segundo a empresa.

Ao ser questionado sobre as receitas que a ThyssenKrupp espera ter com seu novo programa, Shierenbeck prefere não falar em números e explica que o investimento para a instalação do MAX não é grande. Em 2013-2014, a empresa alemã registrou um faturamento de € 6,4 bilhões (cerca de R$ 27,2 bilhões) apenas com elevadores.

Shierenbeck também comenta a possibilidade dos elevadores caírem nas mãos de hackers, algo que vem causando dores de cabeça às montadoras de carros inteligentes: “Tudo que se vê nos filmes está errado, asseguramos de que isso não acontecerá. Nós não controlamos o elevador, apenas coletamos os dados”.

Mas, em um ramo tão conservador, como o próprio Shierenbeck explicita, ter um equipamento que coleta dados não será um problema para os concorrentes? Os executivos acreditam que não e que, inclusive, as demais empresas irão desenvolver seus próprios softwares em algum momento. O importante, no entanto, era ser o primeiro. “Os dados te dão poder para continuar construindo outros equipamentos. Você é o primeiro, você pode manter a liderança ao desenvolver essas tecnologias”, declara Bass.


* O jornalista viajou a convite da ThyssenKrupp
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.