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Crise no setor já atinge toda a cadeia produtiva. Cálculos apontam que cada vaga formal fechada resulte na demissão de quatro trabalhadores indiretos na indústria automotiva

Pátio lotado é tromômetro para crise do setor automotivo; estoques chega a 51 dias
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Pátio lotado é tromômetro para crise do setor automotivo; estoques chega a 51 dias

O recuo nas vendas de automóveis, altos estoques e as previsões de que a atividade econômica continue fria no segundo semestre de 2015 fazem aumentar o receio de uma onda de desemprego no setor automotivo. Estima-se que 5 mil trabalhadores sejam demitidos neste ano apenas no Estado de São Paulo. O último dado da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) aponta para um excedente no número de trabalhadores da ordem de 30 mil no Brasil.

Além de férias coletivas, as empresas estão utilizando amplamente o mecanismo de lay off (suspensão de contratos de trabalho). O lay off tem duração de 5 meses e pode ser renovado. Ele é utilizado para que as empresas dividam o pagamento do salário com o governo – via recursos do Fundo de Amparo (FAT) ao Trabalhador – e assim evitem as demissões.

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Donas da Brastemp, da Friboi e montadoras dão férias coletivas

Os estoques da indústria no País chegam a 361,1 mil unidades e 51 dias. Essa medida de estoques em dias significa que toda a indústria tem veículos para vender, sem ter de produzir, por 51 dias, segundo a Anfavea. Em janeiro deste ano, a indústria empregava 144,2 mil pessoas, número reduzido para 138,2 mil, em maio. Em maio do ano passado, eram 152,3 mil empregados. Dados da Anfavea, do fim de maio, contavam 25 mil trabalhadores em regime de férias coletivas ou lay off.

Na quarta-feira (24), a General Motors e o Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul (no ABC paulista)  fecharam acordo para o pagamento de R$ 6 mil  a todos os funcionários da unidade, cerca de 10.500. A primeira parcela será depositada em 8 de julho, segundo informou o vice-presidente do sindicato, Francisco Nunes. A GM informou que não comenta o caso. O pagamento de R$ 6 mil acordados entre o sindicato de São Caetano e a GM é referente ao pagamento da primeira parcela da participação nos lucros de 2015. A segunda, tradicionalmente, é paga em janeiro do ano seguinte.

"Estamos apreensivos. Não vemos perspectivas de melhora no cenário. Em 8 de julho acaba o lay off de 819 trabalhadores da unidade e a empresa vem dizendo que essas pessoas não terão como retornar ao trabalho", explica Nunes.

No interior paulista, na unidade da montadora de São José dos Campos (5,2 mil funcionários), o Sindicato dos Metalúrgicos negocia uma primeira parcela de R$ 9,5 mil. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região há 1.700 trabalhadores em férias coletivas, o que levou a fábrica a parar 100% da produção dos veículos (S10 e Traillblazer, únicos modelos produzidos na planta). Além disso, há 778 trabalhadores em layoff desde março, com volta prevista para agosto.

Oficialmente, a “General Motors do Brasil informa que, em acordo com os respectivos sindicatos, irá conceder a empregados da linha de produção nos complexos industriais de São Caetano do Sul (SP), São José dos Campos (SP) e Gravataí (RS) e das fábricas de Mogi das Cruzes (SP) e de Joinville (SC) férias coletivas e days off. A medita tem como objetivo ajustar o volume de produção à atual demanda do mercado.”

A Volkswagen de Taubaté (SP) suspendeu em 27 de abril, os contratos de trabalho de 120 trabalhadores da linha de produção por até cinco meses. Com a medida, a montadora passou a ter 370 operários em layoff, segundo o Sindicato dos Metalurgicos de Taubaté e Região (Sindmetau). A unidade tem 4,9 mil trabalhadores e produz 850 veículos por dia, dos modelos Gol, Voyage e Up.

Veja as mobilizações de trabalhadores de montadoras neste ano:




ABC

Na região do ABC paulista a situação se complica a cada dia, com a iminência de demissões. Segundo trabalhadores e sindicalistas da região, as empresas já não escondem que devem cortar pessoal em julho. 

Na Volkswagen de São Bernardo, o ano começou com greve – de 5 a 16 de janeiro – após anúncio de demissão de 800 trabalhadores. A empresa revogou os cortes e assinou acordo que prevê estabilidade para o trabalhador até 2019, além de abrir um Plano de Demissão Voluntária (PDV), aceito por 800. A montadora alemã concedeu férias coletivas para toda produção de 4 a 14 de maio e iniciou um lay off (suspensão dos contratos de trabalho) para 220 trabalhadores, a partir de 1º de junho. A produção está parada desde o dia 12 deste mês, para ajuste de estoques. Na unidade trabalham 8 mil. Em junho do ano passado eram produzidos 1.400 veículos por dia. Hoje esse número baixou para 711 automóveis/dia. Segundo os dados são do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a Volkswagen está encerrando o terceiro turno na unidade. A empresa não comenta a atual situação, mas admite oficialmente que “tem feito uso de ferramentas de flexibilização para adequar o volume de produção à demanda do mercado”.

A Mercedes-Benz também começou o ano informando a demissão de 500 trabalhadores (do grupo de 715 que está em layoff desde julho de 2014), o que motivou uma greve de 22 a 27 de abril. A montadora abriu férias coletivas para toda a fábrica de 1º a 15 de junho. E também conseguiu a adesão de 192 trabalhadores em PDV realizado em maio. O SMABC está realizando uma série de mobilizações na tentativa de reverter as demissões dos outros cerca de 300. Trabalhadores estão acampados em frente à fábrica desde 8 de junho em protesto. Atualmente a empresa tem 7 mil  trabalhadores na linha e produção mensal de 3 mil veículos (caminhões e ônibus). Em 2014 produzia 5 mil/mês.

A Mercedes-Benz informou que tem hoje cerca de 250 colaboradores da fábrica de São Bernardo do Campo, São Paulo, em lay-off até 30 de setembro.   A Empresa anunciou o encerramento de cerca de 500 contratos de trabalho este ano, decisão efetivada.Segundo Mercedes há hoje em seu quadro, um excedente de cerca de 1.750 colaboradores na planta de São Bernardo do Campo devido à forte queda de vendas de veículos comerciais no mercado brasileiro.

Na Ford, também em São Bernardo na unidade com 3 mil trabalhadores, a produção ficou parada de 1 a 5 de junho (banco de horas), fez uma parada parcial de produção em 12 de junho (apenas 30% da produção trabalhou) e parou a produção de automóveis na sexta-feira (26). De 22 de junho a 1º de julho, está programada parada com desconto em banco de horas da produção de caminhões (900 trabalhadores). A unidade tem cerca de 200 trabalhadores em lay off, desde de 11 de maio. A montadora dos EUA iniciou um período de férias coletivas que terminou em 22 de maio. A produção por hora era de 55 carros e 17 caminhões, em 2014. Atualmente produz 44 carros e 14 caminhões por hora.

Na Scania, os cerca de 2 mil trabalhadores terão férias coletivas de 29 de junho a 8 de julho. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, tradicionalmente a empresa realiza férias nesta data). A unidade fez em maio uma semana de quatro dias, com paradas de produção todas as segundas-feiras do mês. A produção ficou parada por folgas de 1º a 5 de junho (emenda do feriado de Corpus Christi) e em 12 de junho. A produção diária era de 52 caminhões e 15 ônibus por dia em 2014. Em maio de 2015 (trabalhando quatro dias por semana, foi de 50 caminhões e 14 ônibus por dia.

2015 deve ser um dos piores anos da indústria automotiva

A crise no setor já atinge toda a cadeia produtiva. Cálculos apontam que cada vaga formal fechada resulte demissão de mais quatro na indústria automotiva. Nesta semana, a Gerdau anunciou lay off para 100 trabalhadores de Charqueadas (RS) a partir de 13 de julho. A decisão, informou a empresa, é para que a produção seja reduzida em 20%. A unidade fabrica açõs especiais para a indústria automotiva.

A estimativa é de que este ano seja o pior da indústria brasileira, acentuando os dados ruins da produção industrial de 2014, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quando as montadoras registraram o pior resultado  dos segmentos industriais, queda de 16,8%.

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