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Funcionária de carreira da Petrobras, Graça foi atropelada pela pressão política e do mercado e apresentou a carta de demissão nesta quarta-feira (4)

Graça Foster ficou na presidência da Petrobras por quase três anos
Agência Brasil/Antônio Cruz
Graça Foster ficou na presidência da Petrobras por quase três anos

A Petrobras comunicou a renúncia da presidente Maria das Graças Foster nesta quarta-feira (4). A executiva, além de ter muita proximidade com a presidente Dilma Rousseff tem uma longa carreira de bons resultados na estatal. São 37 anos com o nome da maior petroleira do Brasil na carteira de trabalho.

Graça teria colocado o cargo à disposição do Planalto por duas vezes anteriormente, mas Dilma decidiu mantê-la no cargo, já que não haveria indícios de envolvimento da principal executiva da empresa no esquema de corrupção investigado pela Operação Lava Jato .

Tudo mudou na semana passada quando a Petrobras divulgou o balanço não auditado do terceiro trimestre. O principal destaque negativo veio das incertezas em relação ao critérios que deveriam ser empregados nas revisões dos ativos (impairment) impossibilitaram a divulgação do documento auditado. O documento informa que os ativos teriam sido superavaliado em cerca de R$ 88 bilhões. Essa declaração teria estragado o humor do Planalto. 

A relação com Lula e Dilma

Antes de assumir a presidência da empresa, ela foi diretora de Gás e Energia, até 2012, quando substituiu José Sergio Gabrielli, homem próximo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No final de 2010, seu nome já estava sob os holofotes da mídia, quando começou a ser cotada a um cargo de relevância no Planalto para o início do governo de Dilma Rousseff.

Graça teria conhecido Dilma há 14 anos, em uma visita ao Rio Grande do Sul. Dilma era secretária de Energia do Estado. Filiada ao PT (Graça tem uma estrela tatuada no pulso), a afinidade com Dilma vai além do perfil parecido, do temperamento forte. "Elas pensam com a mesma cabeça", opina uma outra fonte que conhece as duas.

Uma característica de Graça, herança de sua trajetória profissional, é sua habilidade em lidar tanto com o Estado como com o setor produtivo, diz um executivo que a conhece há muitos anos. 

Começo difícil e a paixão pela Petrobras

Maria das Graças Foster, de 61 anos, nasceu em Caratinga, interior de Minas Gerais, e se mudou com a família para o Rio de Janeiro quando ainda era criança. O endereço era a comunidade Morro do Adeus, no Complexo do Alemão. Quando ela tinha 12 anos, todos passaram a viver na Ilha do Governador. Foi um período difícil. Para ajudar a família a comprar seu material escolar e lembrancinhas, Graça catava papel, latinhas e garrafas de plástico. O investimento em educação deu certo. A menina se apaixonou pelos estudos, formou-se em engenharia, fez mestrado em engenharia nuclear e MBA em economia.


A relação com a Petrobras começou quando Graça ainda era estagiária na empresa. Ela passou por algumas departamentos, cresceu na empresa, foi a primeira mulher a ocupar uma diretoria da estatal em 2007. Graça ficou na diretoria de Gás e Energia de setembro de 2007 até assumir a presidência em 13 de fevereiro de 2012, tendo pela frente o desafio de acalmar os ânimos entre a estatal a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Faltava gás natural para atender a todos os segmentos do País e as térmicas não recebiam o insumo contratado para gerar eletricidade. Quase três anos depois, ela apresentou a carta de renúncia.

De janeiro de 2003 a setembro de 2005, Graça foi secretaria de Petróleo e Gás Natural e Biocombustíveis, cargo que ocupou a convite de Dilma, que era ministra de Minas e Energia. Fontes que acompanharam sua trajetória na época contam que as duas se aproximaram durante este período, juntas em Brasília.

De volta ao Rio em 2005, cidade onde vive com a família, Graça presidiu a Petroquisa – braço da Petrobras para o segmento de petroquímica – e, em seguida, a BR Distribuidora. Passou antes pela Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia – Brasil (TBG), após anos de carreira na Petrobras, onde ingressou em 1978 como estagiária, quando ainda estudava engenharia Química pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Alguns colegas apreciam a determinação de Graça. A executiva persegue metas e visita pessoalmente os projetos que dirige. Segundo uma fonte do setor petroquímico, Graça sempre deixou a marca de uma pessoa positiva e engajada por onde passou.

A executiva foi eleita em 2013, pela Forbes, a 18º mulher mais poderosa do planeta. Em outubro de 2013, foi classificada pela revista "Fortune" a mulher mais poderosa do mundo fora dos Estados Unidos (a revista faz dois rankings).

Apaixonada pelo trabalho, Graça causou polêmica em algumas declarações públicas nas quais afirmava que a Petrobras vinha em primeiro lugar na sua vida, antes mesmo da família. Agora, resta a executiva da companhia se afastar dos problemas revelados pela Operação Lava Jato e aproveitar o carnaval. Graça é apaixonada pela escola União da Ilha e sempre que pode participa dos desfiles no Rio de Janeiro.

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