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Unos, que nega ser pirâmide, prevê captar até R$ 1,9 milhão com operação "impossível" para o setor e sem aval da CVM

Logotipo inicial Unos, lançada no Senado
Reprodução
Logotipo inicial Unos, lançada no Senado

Com pagamentos suspensos após captar recursos de milhares de pessoas com a promessa de lucros expressivos, a Unos decidiu vender posições na sua rede de associados, inclusive ao "mercado de capitais"- nas palavras de seu presidente, Regino Barros .

O iG mostrou que a empresa, que se apresenta como negócio de marketing multinível , tem usado o Senado e a Câmara Municipal de São Paulo para se promover num mercado tomado de suspeitas de pirâmide financeira .  A Unos nega ser pirâmide.

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A ideia da operação é que interessados paguem de R$ 2,5 mil a R$ 80 mil por uma posição no topo da rede de associados da Unos e, assim, lucrar com os recursos gerados por quem estiver mais abaixo.

Posição
Número de cotas à venda
Valor da cota
Prêmio sobre o total da operação

Presidente
8
R$ 80 mil
10%

Ministro
16
R$ 20 mil
5%

Marechal
32
R$ 10 mil
5%

General
64
R$ 5 mil
5%

Coronel
128
R$ 2,5 mil
5%

Foram colocadas à venda 248 posições, com as quais a empresa espera arrecadar entre R$ 960 mil e R$ 1,9 milhão. Num primeiro momento, ela foi aberta apenas a associados da Unos, que pagarão 50% do valor de face. A partir da próxima segunda-feira (22), as posições restantes estarão disponíveis para compra pelo público em geral.

"Nós teremos uma equipe vendendo uma posição - não a sua, que você comprou, mas aquelas que faltarem ser vendidas", disse Barros numa conferência em 12 de novembro com associados. "Nós venderemos pelo dobro [ do preço ], para o mercado legal."

O vídeo da conferência foi disponibilizado no Youtube por um dos associados que o presidente da Unos considera um dos membros do "conselho superior" da empresa.

"Aquele que estiver investindo numa cota da empresa será beneficiado", afirma Barros no vídeo. "[ O sistema permitirá gerar ao cotista ] o resultado financeiro da futura rede, que será espetacular."

Procurado pela reportagem, Barros não atendeu aos contatos no horário combinado nem retornou as ligações e o e-mail. No vídeo, ele diz que a operação é regular.

"Antes de gravar este vídeo para vocês eu consultei Brasília. Consultei as alterações ou os apensos da nova regulamentação [ do marketing multinível, ainda em fase de projeto na Câmara dos Deputados ]. Eu sei que hoje, tudo o que você está vendo, está criteriosamente legal", diz o presidente da Unos.

A garantia não convenceu todos os associados.

"Comprar cotas com que dinheiro? Eu só vi R$ 500 na minha conta o ano inteiro. Mas mesmo que tivesse o capital não investiria numa empresa que não honra contratos", diz, sob condição de anonimato com medo de represália, um integrante da Unos que afirma ter colocado R$ 100 mil no negócio.

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Barros mostra estrutura da empresa após a operação e usa
Reprodução/Youtube - 15.12.14
Barros mostra estrutura da empresa após a operação e usa "triângulo" em vez de "pirâmide"

Venda de redes é impossível, diz ABEVD

Marketing multinível é um sistema de vendas diretas em que uma empresa conta com redes de distribuidores autônomos para chegar ao consumidor final.

Esses distribuidores são premiados pelas vendas feitas pelos integrantes de sua rede, e quem está mais acima na hierarquia lucra mais.

Para a Associação Brasileira de Vendas Diretas (ABEVD), entretanto, não é possível que alguém no topo venda sua posição - e muito menos que uma empresa venda a posição de seu distribuidor autônomo.

Roberta: 'não existe compra de posição'
Divulgação/ABEVD
Roberta: 'não existe compra de posição'

"Não existe compra de posições. As posições você vai ganhando a partir do volume [ de vendas de produtos ou serviços ] que sua rede gera", diz Roberta Kuruzu, diretora-executiva da ABEVD. "E não existe a possibilidade de a empresa oferecer isso, porque a empresa não tem rede."

Oferta de títulos precisa ser registrada
No vídeo, Barros se refere às posições como "cotas" e as compara a títulos mobiliários, como ações - sugerindo que se trata de uma operação de investimento financeiro.

"Terceirizada está uma empresa que vende ações, que vende participações e essa empresa vai vender as nossas cotas. A partir da 2º fase [ que começa na próxima segunda-feira (22) ], quem vai comprar as nossas cotas é o mercado de capitais, é o investidor e vai pagar o dobro do que você."

Acontece que ofertas públicas de valores mobiliários precisam passar pelo crivo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ressalta Claudia de Azeredo Santos, do Azeredo Santos, Cirne Lima & Herlin Advogados - a profissional fala em tese, e esclarece que não analisou o caso Unos.

"Fundos de Investimento não registrados e ofertas públicas feitas em desacordo com a ICVM 400 são irregulares, estando sujeitos a sanções (cíveis, administrativas e criminais, por se enquadrarem em crime contra a economia popular)", diz Claudia. "O órgão regulador [ CVM ] atua tanto na oferta / material publicitário como na venda.

A Unos não tem registro na CVM, informou a comissão, que fez um alerta indireto ao público.

"Sem tratar especificamente do caso concreto, ocorre que, por vezes, golpes financeiros são anunciadas ao público como a possibilidade de participação em empresas de venda direta com estrutura de remuneração multinível, principalmente pelo fato de que a remuneração do participante, no MMN [ marketing multinível ], envolve a formação de níveis inferiores, com novos integrantes, assim como ocorre nas pirâmides financeiras."