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Chris Anderson, líder da organização e curador dos eventos, refuta acusações de que as famosas palestras são mecanismos de desinformação a serviço de empresas

NYT

Chris Anderson estava sentando numa pose demonstrando pouco poder. Em uma reunião de todo o pessoal da sede da TED de Nova York em janeiro, ele estava dobrado para frente com a mão na nuca, postura que expressa autoproteção segundo uma conferência TED, de 2012, sobre linguagem corporal dada pela psicóloga social Amy Cuddy (15,7 milhões de visualizações).

Ao deixar os empregados darem pequenas palestras TED sobre aquilo com que estão trabalhando, Anderson abriu caminho para o que Alain de Botton, em sua palestra TED, de 2009, com 2,9 milhões de visualizações, chamou de "filosofia do sucesso mais amável e gentil".

Quando Anderson finalmente tomou a palavra, de cabelo despenteado, camisa preta de colarinho abotoado para fora da calça e jeans, ele apelou à virtude ao fazer a pergunta: "O que estamos construindo hoje que sinceramente irá impressionar historiadores daqui a dois mil anos?". Ela poderia ter saído diretamente do livro de instruções sobre "sabedoria prática", esboçada em uma palestra TED, de 2009, do psicólogo Barry Schwartz (1,9 milhão de visualizações).

Com 57 anos, Anderson é de muitas formas a personificação de sua organização de ideias famosas. Britânico, ex-editor de revistas e empreendedor da internet, assumiu a organização em 2001 e a transformou em um colosso multimídia.

Mas à medida que o 30º aniversário da Conferência da TED, em março, em Vancouver, Colúmbia Britânica, se aproxima, Anderson, sempre amável, celebra discretamente tudo que ele conquistou com essas três letras vermelhas. Ainda que alguns achem que a organização se tornou o Starbucks dos conglomerados intelectuais.

Começou de forma modesta, hoje já tem 1,2 mil participantes de 42 países

O que começou de uma forma modesta em 1984, quando o arquiteto e designer Richard Saul Wurman convidou 300 amigos e colegas a Monterey, Califórnia, para discutir Tecnologia, Entretenimento e Design, agora tem mais vieses do que um conjunto de Mandelbrot. Integrante da Fundação Sapling, sem fins lucrativos, de Anderson, a organização realiza duas conferências anuais – a de março conta com 1,2 mil participantes de 42 países.

Além disso também há a coleção gratuita online com mais de 1,6 mil palestras visualizadas quase dois bilhões de vezes, o prêmio TED, no valor de US$ 100 mil, o programa TED Fellows e uma iniciativa de educação global, livros digitais da TED, a TED Radio Hour e milhares de eventos TEDx em mais de 150 países (as palestras são traduzidas em mais de cem idiomas).

É imitada por muitos, até mesmo o retiro anual em Maryland para deputados republicanos norte-americanos deste ano contou com palestrantes ao estilo da TED. Ao ajudar a divulgar "líderes do pensamento" como Salman Khan, Daniel Gilbert, Brené Brown e Sir Ken Robinson os transforma em autores de best-sellers. O palco da TED tomou o lugar do sofá de Oprah Winfrey como plataforma mais provável para emocionar um jornalista, editor, contador e a sogra.

Entre os 65 palestrantes do palco principal de março estão Bill e Melinda Gates, Nicholas Negroponte, visionário da tecnologia, o astronauta Chris Hadfield e Sting, além de ilusionistas, mágicos e um especialista em vaga-lume. Todos falarão sobre uma gama de tópicos durante 18 minutos ou menos, conforme as diretrizes determinadas por Anderson. Al Gore, que falou pela primeira vez na TED em 1996, declarou: "Sempre que acho que a TED foi longe demais e está a ponto de exagerar na dose, isso não acontece. Pelo contrário, ela se renova."

Nem todo mundo pensa assim. Ultimamente, Anderson tem passado quase tanto tempo defendendo sua organização quanto a comandando. Uma reação negativa escaldante que começou de forma hilária anos atrás com a paródia da internet "Onion Talks" (palestras da cebola, em tradução literal), oferecendo vídeos como "Qual é a maior pedra" e "Um futuro no qual todos os robôs terão pênis". Virou maldade pura e simples quando um artigo da "New Republic", de dois anos atrás, do crítico Evgeny Morozov, que chamou a TED de um "chefe insaciável de uma lavandeira internacional de memes, lugar onde ideias, mesmo sem qualidade, vão em busca da celebridade".

Então, em dezembro, um evento TEDx organizado de forma independente, em San Diego, Benjamin H. Bratton, professor assistente de Artes Visuais da Universidade da Califórnia, campus de San Diego, usou seu momento no tapete vermelho redondo da TED para criticar a própria organização.

Em uma apresentação ao mesmo tempo serena e incendiária, Bratton qualificou a TED de "receita para o desastre internacional", criticando a natureza de encontro religioso das palestras, a fé inquestionável na tecnologia e aquilo que ele chamou de "emburrecimento" da Ciência e dos conhecimentos complexos. Embora o vídeo da fala de Bratton não deva encontrar abrigo em TED.com, ele foi visualizado mais de 250 mil vezes no YouTube.

"Era um ponto sensível à espera de ser espetado", disse Bratton por telefone.

Construindo e defendendo uma marca

Um mês depois, em Nova York, Anderson se sentou em uma sala de reuniões com paredes de vidro após uma reunião de pessoal. Pessoalmente, ele é menos imponente e certamente mais tímido do que a figura de Yoda com paletó de Nehru no palco da TED.

"Sou péssimo com as conversas geralmente esperadas em um ambiente social", ele disse. (Susan Cain, cuja palestra em 2012 na TED sobre introversão foi vista quase oito milhões de vezes, disse que Anderson "é um introvertido, com certeza".)

Ele também parecia cansado.

"O número e diversidade de projetos acontecendo ao mesmo tempo podem abalar o organismo", afirmou Anderson.

Montar o saguão de convenções da TED em Vancouver está entre eles. O anfiteatro projetado por David Rockwell foi construído com milhares de peças cortadas a laser entregues por 50 caminhões e encaixadas durante quatro dias em março.

Nas últimas semanas, Anderson tem refutado as críticas. Ele comenta assuntos críticos sobre a TED no Reddit e Gizmodo e escreveu um artigo no jornal "The Guardian", em janeiro, explicando por que a maioria das queixas sobre a organização são baseadas em conceitos equivocados. Segundo ele, a TED não é propaganda esquerdista nem desinformação patrocinada por empresas. E como a TED não tem fins lucrativos, ninguém está ficando rico com o cachê de US$ 6 mil que muitos gostam de citar. Quanto a emburrecer o conteúdo da internet, Anderson sorriu ironicamente e disse: "Comparando com o quê? Vídeos divertidos de gatos?"

Filho de missionários médicos britânicos que cresceu no Afeganistão, Índia e Paquistão, Anderson contou ter passado boa parte da infância "lendo, observando e deitando, para observar as estrelas e pensar sobre ideias". Depois de estudar Filosofia em Oxford, ele se voltou para o jornalismo, escrevendo sobre a convergência de videogames e a computação, antes de trabalhar com editoras, onde ele tentou levar a impressão ao futuro. Suas revistas como "Business 2.0" vinham embaladas com CDs para dar aos leitores uma experiência interativa antes da internet tomar conta.

Com fortunas ganhas, perdidas e ganhas novamente com editoras, Anderson adquiriu a TED com a ideia que esta "mudaria mentes e, quem sabe, o mundo". A compra exigiu um ato que Anderson gosta de chamar de "abertura radical" ao permitir acesso público à confabulação antes fechada.

"Dar acesso livre às palestras multiplicou imensamente o impacto da TED", disse Anderson. "De repente, todo mundo era seu amigo de marketing, e o Facebook e o Twitter se tornaram extensões do que estávamos fazendo."

O educador Robinson disse que "teria usado uma camisa diferente" caso soubesse que seu vídeo se tornaria o mais popular da TED. Em uma manhã de sábado na TED, em 2006, ele trocou a hora de falar com o reverendo Rick Warren para dar uma conferência de 19 minutos – "Está bem, eu me demorei um pouco", disse Robinson – sobre como as escolas estão matando a criatividade. A apresentação foi aceitável.

"Depois minha esposa disse que foi boa, mas não a melhor." Meses depois, Anderson colocou um vídeo da palestra no site da TED; mais de 25 milhões de pessoas o viram desde que entrou no ar em junho de 2006.

"Nós pensamos, muito bem, os vídeos podem encontrar um público cê-dê-efe pequeno", disse June Cohen, produtora executiva da TED Media. Hoje em dia, a ampla biblioteca de palestra é vista em média 19 milhão de vezes por dia.

"Boa parte das guerras por atenção em que todos nós estamos imersos são dominadas pela estupidez, trivialidade e gritaria", afirmou Anderson. "Assim, encontrar alguém que possa defender uma tese de forma clara, de um jeito empolgante e com a chance de ser ouvido, divulgado e colocado em ação, é uma grande vitória."

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