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Empresários do setor dizem que a falta de regulamentação atrapalha os negócios; governo busca incentivar hospedagens alternativas

Velhos conhecidos de turistas estrangeiros e mais populares entre brasileiros, os hostels – albergues que oferecem hospedagem em quartos coletivos a preços econômicos – vêm chamando a atenção de empreendedores no Brasil. Apesar de ainda ocupar uma pequena fatia do mercado hoteleiro, o setor cresce e, ao mesmo tempo, preocupa os pequenos empresários.

Os donos de hostels temem que o segmento tenha caído em um modismo. Com maior oferta, e sem incentivos e regulamentação, o segmento encara uma concorrência por vezes desleal.

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De acordo com a Pesquisa de Serviços de Hospedagem, realizada pelo Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) a pedido do Ministério do Turismo, são, no total, 3.804 leitos oferecidos por albergues nas 12 cidades-sedes da Copa do Mundo, o que corresponde a 6,37% da oferta de hospedagem alternativa, dominada por motéis e aluguel de imóveis para temporada.

As vagas em hostels são opção em apenas cinco cidades das 12 que irão sediar os jogos do Mundial – mais concentradas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

A estudante baiana Juliana Magalhães, 19 anos, optou por se hospedar em um hostel após recomendação de estrangeira pela internet
Marília Almeida/iG
A estudante baiana Juliana Magalhães, 19 anos, optou por se hospedar em um hostel após recomendação de estrangeira pela internet


Foi apenas nos últimos dois anos que muitos leitos foram criados. A presidente da Associação de Hostels de São Paulo (AHostelsSP), Marina Moretti, proprietária do Ô de Casa, na Vila Madalena (zona oeste da capital paulista), estima que, no período, foram abertos 40 hostels na capital paulista, mais que dobrando a oferta. No Rio de Janeiro, a estimativa é de que o número de albergues chegue a 200 – para uma população de 6,4 milhões.

Na cidade de Berlim, por exemplo, há pelo menos 85 hospedagens do tipo no Hostel World – em uma cidade com 3,5 milhões de habitantes. Em Barcelona, são 89 estabelecimentos para uma população de 1,6 milhão de pessoas.

Diante de preços mais altos cobrados pelo setor hoteleiro, o Ministério do Turismo realizou recentemente ações para incentivar a hospedagem alternativa em ano de Copa do Mundo. Mas, segundo os empreendedores, elas são, até agora, insuficientes.

Mais do que estudantes e jovens, os hostels atraem um público diversificado, de olho no baixo custo das acomodações.

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O Okupe, na região da Bela Vista (área central da capital paulista), recebe estudantes em época de vestibular, que vêm de diversos Estados do País; brasileiros e estrangeiros que buscam local para alugar na cidade; grupos de estudantes que fazem intercâmbio; executivos em viagem e até mesmo pacientes do Hospital das Clínicas, devido à proximidade do local.

A estudante baiana Juliana Magalhães, de 19 anos, prestou vestibular em São Paulo no final do ano passado e ficou em um hostel pela primeira vez, por indicação de uma estrangeira durante uma conversa pela internet. Ela precisava ficar cinco dias na cidade. "Paguei R$ 40 por noite. Um hotel bem localizado sairia por, no mínimo, R$ 300".

Hostel ainda não possui classificação

O meio de hospedagem não tem ainda uma classificação própria no Sistema Nacional de Classificação do Ministério do Turismo, ficando atrás, neste quesito, de países como Uruguai e Argentina, diz Maria José Giaretta, presidente da Federação Brasileira de Albergues da Juventude.

Maria José é associada à rede Hostelling International, que concede um selo aos estabelecimentos que oferecem o padrão requisitado globalmente. A rede tem 108 estabelecimentos no País. Foram inaugurados oito no ano passado e dez estão em implantação.

Quando estabelecimentos irregulares recebem críticas, toda a categoria sofre" (Maria José Giaretta, presidente da Federação Brasileira de Albergues da Juventude)

A classificação própria para os hostels serviria para filtrar os bons dos maus empreendimentos, como já aconteceu com as pousadas. "Hoje muitos se apropriam do modelo dos hostels aproveitando a facilidade das reservas feitas pela internet, mas faltam padrões de segurança e atendimento", diz Maria José.

Há quem faça pequenas adaptações em casas para abrigar hóspedes no modelo. "Quando este tipo de estabelecimento recebe críticas, todo o segmento sofre, pois ele utiliza o nome de forma indevida", diz Maria José.

Muitos não têm alvará, ou não seguem regras definidas pela Vigilância Sanitária.

O coordenador-geral de competitividade e inovação do Ministério do Turismo, Jair Galvão, porém, promete que os hostels serão os primeiros a entrar no sistema de classificação após o término de aprimoramentos. "Estamos passando por uma reestruturação", conta.

Galvão confessa que a hospedagem alternativa vinha sendo pouco incentivada. "Agora, acreditamos que ela seja estratégica para o turismo". O representante do Ministério evita dar estimativa de quando o meio de hospedagem deve ganhar a classificação.

A falta de padrão faz com que cada estabelecimento ganhe diferentes alvarás nas Prefeituras, entre elas até de pousada e, de forma mais comum, como albergue não assistencial, o que, para Maria José, gera preconceito e confusão.

O Ministério do Turismo terá pela primeira vez uma rede nacional de fiscalização até o final do ano. Agora, está em fase de treinamento dos agentes. O objetivo é, no início, sensibilizar empreendedores para realizarem o cadastro obrigatório. Posteriormente, eles poderão ser penalizados com multas e até interdição do meio de hospedagem.

A classificação ajuda a não ter dor de cabeça com fiscalizações. "Às vezes, nosso bar é classificado como hotel, que tem privilégios para ficar aberto até tarde. Outras vezes, como um bar tradicional", diz Mariana, do Ô de Casa.

Marina Moretti, proprietária do hostel Ô de Casa, na Vila Madalena, em São Paulo: maior oferta é desafio para segmento
Marília Almeida/iG
Marina Moretti, proprietária do hostel Ô de Casa, na Vila Madalena, em São Paulo: maior oferta é desafio para segmento


Falta competitividade e padronização de preços

O custo e falta de incentivos impedem que os hostels nacionais tenham preço tão competitivo quanto os estabelecimentos na Europa e até existentes em outros países na América Latina. Muitas vezes, o quarto privado chega a ser mais caro do que o oferecido por rede de hotéis econômicos.

Levantamento feito no site comparador de preços de hotéis Hotelscombined aponta que a média de diárias, considerando tanto quartos coletivos como privados nos hostels, gira em torno de R$ 100 tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo.

O menor preço verificado entre 21 hostels em São Paulo é de R$ 23 a diária em quarto com oito camas. O maior, R$ 597 a diária em quarto duplo. Em 74 hostels no Rio de Janeiro, a menor diária é de R$ 25 em quarto com oito camas, e, a maior R$ 2,5 mil em quarto duplo. 

O músico indiano Abraham India, de 25 anos, encontrou um preço adequado para seu bolso em São Paulo após muita pesquisa. Ele já se hospedou em hostels nos Estados Unidos e na Índia. "Na pesquisa, cheguei a encontrar o triplo do preço", conta.

Por outro lado, se hospedar em um hostel foi providencial para a veterinária Priscila Brandão, que mora em Brasília e irá estudar em São Paulo. Ela precisava ficar hospedada na cidade durante um período até encontrar um cômodo para alugar.

Não temos incentivos tributários. Fica difícil ter diferencial. Ninguém faz milagre" (Maria José Giaretta, presidente da Associação Brasileira de Albergues da Juventude)

"Estou pagando R$ 39 por dia. O mais barato que tinha conseguido encontrar era um motel de R$ 150", conta. Um amigo que viajou para o exterior recomendou o meio de hospedagem. "Rola uma interação entre os hóspedes. Gostei".

Segundo Maria José, é injusto comparar os hostels no País com a oferta existente na Europa. "Na Alemanha, ela faz parte de uma política pública. O hostel é aberto em prédios desocupados, e conta com apoio governamental". Isso permite praticar preços mais competitivos, que acabam sendo seguidos pela concorrência privada. 

"No Brasil, o IPTU e o aluguel ficaram mais caros. Pagamos os mesmos impostos que um hotel cinco estrelas. Fica difícil ter diferencial. Ninguém faz milagre. No livre mercado, rege a lei da oferta e demanda".

Mão-de-obra também é um custo extra. Isso porque, geralmente, são necessários recepcionistas bilíngues para atender estrangeiros – que respondem por cerca de 60% dos hóspedes – bem como alguém que atue como guia turístico e saiba dar informações sobre a cidade.

Os hostels reclamam de falta de incentivos para viabilizar e manter o negócio. Apenas nos últimos três anos o segmento conseguiu uma linha de financiamento na Caixa Econômica Federal. "A taxa é interessante, mas são necessárias garantias, como outro imóvel", diz Maria José. 

Galvão, do Ministério do Turismo, lembra que há hoje uma linha de financiamento oferecida para todos os meios de hospedagem no Cadastur.

Reclama-se, ainda, de falta de divulgação do meio de hospedagem. Nesta seara, o setor também espera pelo programa do governo Viaja Mais Jovem, cujo decreto já foi publicado no ano passado, com previsão de lançamento para o segundo semestre. Galvão aponta que os hostels devem ser incluídos.

Além disso, a hospedagem alternativa, incluíndo os hostels, deve ganhar uma campanha nacional até a realização da Copa, em junho, segundo o governo. 

Um acordo de cooperação com o Sebrae, que prevê ações para promover a competividade do segmento, como qualificação profissional e inclusão em guias, deve sair em março. 

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