Tamanho do texto

Maior corretora independente também prevê oferecer serviços bancários aos investidores

Patricia Santos
"Banco vai complementar modelo de negócio da XP", diz Guilherme Benchimol

A maior corretora brasileira independente no varejo pretende virar banco ainda nesse ano. A intenção é entrar com o pedido de autorização no Banco Central até meados de 2014.

Para isso, o presidente da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, passou as últimas semanas em Nova Iorque em busca de um profissional para comandar a nova instituição, cujo modelo de negócio, segundo ele, "é diferenciado".

-Leia também: consultoria utiliza Clarice Lispector para indicar como ficar rico na bolsa

O parâmetro visado é o de um banco virtual, seguindo o perfil do TD Bank, instituição norte-americana que se diz entre as dez mais extensas nos EUA, com mais de 1.300 lojas do Maine à Flórida.

"Não estou com pressa para dar esse passo", afirmou Benchimol. "Quero estar com as pessoas certas, para crescer com segurança". Ele contou que o modelo de banco virtual que busca tem como objetivo oferecer mais comodidade aos clientes que operam com a XP.

"Hoje, se um cliente meu quer pagar uma conta, tem que sacar os recursos de seus investimentos e efetuar essa operação em outra instituição. Além disso, eu não posso oferecer a ele um empréstimo para evitar que ele resgate a aplicação e perca o rendimento", disse.

Por isso, explicou Benchimol, o banco não oferecerá todos os serviços que as demais instituições comerciais já têm em seus portfólios, como cartões de crédito, por exemplo. "O banco será um complemento ao modelo de negócio da XP, que é o de ser uma casa de investimentos. Quero poder conceder empréstimo, receber os pagamentos dos clientes, tudo sem que ele saia daqui para operar com outro banco".

Depois de absorver quatro outras corretoras nos últimos sete anos — Americainvest, Senso, Prime e Interfloat — e de chamar a atenção de dois grandes fundos de investimento no exterior — o inglês Actis e o americano General Atlantic — a XP agora busca o crescimento orgânico.

Hoje, se um cliente meu quer pagar uma conta, tem que sacar os recursos de seus investimentos e efetuar essa operação em outra instituição

"No momento, não estamos comprando. Não há necessidade de novas aquisições", assegurou o executivo. Ele explicou que a absorção das quatro corretoras decorreu de oportunidades do momento.

"Não queremos competir com as corretoras. Nosso alvo são os bancos comerciais, que estão repletos de pessoas que investem mal seus recursos. Queremos ajudá-los a investir melhor, mostrar a eles que existem aplicações diferentes. Somos hoje uma instituição para multi-investimento, pois nosso foco não está mais apenas no mercado de ações".

Bem diferente de quando tudo começou, em uma salinha de Porto Alegre, em abril de 2001. Ele conta que tinha 24 anos, R$ 1 mil no banco e um ambiente de insegurança, com a Argentina mergulhada em uma crise cambial profunda decorrente do atrelamento de sua moeda ao dólar, e o Brasil enfrentando uma crise de energia.

"A economia já estava desacelerando", lembrou ele. E piorou com a decretação do racionamento dois meses depois, em junho. Nesse clima, ele se juntou a Marcelo Maisonnave, então com 25 anos, e começaram a orientar os investimentos dos amigos.

"Era difícil. As pessoas estavam acostumadas a aplicar na poupança. Para mudar essa mentalidade, o caminho seria pela educação e aí passamos a visitar as pessoas para ensiná-las e convencê-las", disse ele. Mas não deu certo. Aí, o jeito foi mudar a estratégia e fazer com que os interessados viessem até eles.

Para isso, marcaram uma palestra para falarem sobre alternativas de investimento e cenários econômicos. Já era início de 2002, depois da moratória da dívida argentina. "Era um risco. A gente não tinha dinheiro e não tinha cliente", contou. Mas deu certo e foi assim que começaram a conquistar clientes e ganhar as primeiras contas para administrar.

Aos críticos de que a XP usa a educação financeira para levar os pequenos investidores a comprar "micos", Benchimol responde surpreso: "Não sabia que me acusavam disso. O que posso dizer é que a XP tem uma equipe de 10 a 12 analistas, que estudam as empresas e fazem suas análises.

Queremos ser uma estrutura que se contraponha ao banco comercial, ajudando o brasileiro a investir melhor por meio de afiliados no local onde está

Todas as operações são construídas pela equipe e são fundamentadas. Não há incentivo para empurrar a compra de qualquer papel. Creio que essas críticas vêm da concorrência, que fala isso para desmerecer nosso trabalho", rebateu Benchimol.

A possível dor de cotovelo da concorrência pode ser devido ao desempenho da instituição, que ainda não parou de crescer. Agora, a XP está estendendo suas operações a Miami, nos Estados Unidos.

"Temos operação em Nova Iorque há quase três anos voltada para o atendimento ao investidor institucional principalmente", disse o presidente da XP. "Agora contratamos gente nova para abrirmos em Miami, visando atender pessoas físicas, pois há muitos brasileiros na região. Então trouxemos esse pessoal para Nova Iorque para conhecer nossa forma de trabalhar", explicou.
Crescer ainda está nos planos de Benchimol.

"Queremos ser uma estrutura que se contraponha ao banco comercial, ajudando o brasileiro a investir melhor por meio de afiliados no local onde a pessoa está e com estrutura de internet eficiente para os mais independentes". Por isso, a XP estimula a constituição de companhias de agentes autônomos, como foi o início da própria instituição. "Buscamos um caminho diferente e vamos continuar por aí".

Leia mais notícias de economia, política e negócios no jornal Brasil Econômico .

    Notícias Recomendadas

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.