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Quantidade de informações tira a atenção dos motoristas e pode causar acidentes

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Os engenheiros responsáveis pelo novo veículo utilitário esportivo Acura MDX, da Honda, estavam obcecados em dar mais aos clientes – mais espaço no banco traseiro, mais economia de combustível com um motor de alta tecnologia e, principalmente, mais aplicativos, mapas e conectividade.

As montadoras começam a se preocupar em tornar os painéis menos poluídos
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As montadoras começam a se preocupar em tornar os painéis menos poluídos

Porém, esses especialistas queriam ter menos botões. Em uma tentativa de simplificar o modelo mais recente da Honda, lançado em junho, a equipe de produto estava determinada a racionalizar o painel de instrumentos. No caso do novo MDX, cerca de 30 botões foram eliminados. A mudança é emblemática em termos dos desafios, porque confronta as montadoras na era do automóvel conectado. Como uma fabricante dá aos consumidores a tecnologia desejada sem afogá-los em controles complicados que podem prejudicar sua capacidade de dirigir com segurança?

"Tentamos dar aos nossos consumidores o que eles desejam de um jeito que será seguro e sensato", diz Steven Feit, engenheiro sênior da Honda no projeto. "É esse o equilíbrio que estamos tentando obter."

Do cinto de segurança ao computador

A evolução do automóvel foi marcada por muitos momentos importantes, do advento de características que hoje são comuns, como o cinto de segurança, ao desenvolvimento de modelos híbridos que alternam sem problemas entre o uso da gasolina e de energia elétrica.

Agora o carro se tornou um computador portátil com novas opções de entretenimento, acesso à internet e a um conjunto impressionante de aplicativos que ajudam os motoristas a evitar congestionamentos, encontrar vagas de estacionamento e a lanchonete mais próxima.

Os órgãos reguladores estão sofrendo para acompanhar o ritmo de mudanças. A Agência Nacional de Segurança no Trânsito dos Estados Unidos divulgou recentemente diretrizes voluntárias para as montadoras limitarem as distrações visuais e mentais que a nova tecnologia pode criar.

A indústria automotiva tem grande interesse pelo assunto. "Nós sabemos o que está em jogo", afirma Gloria Bergquist, vice-presidente de relações públicas da Aliança de Fabricantes de Automóveis, de Washington. "Não podemos brecar o que o consumidor quer no seu carro, então temos de tornar a tecnologia menos arriscada ao ser utilizada."

A tecnologia de última geração antes estava limitada a montadoras de luxo como BMW e Mercedes-Benz. Agora, porém, a conectividade básica – como ligar o celular ao sistema de som do veículo – pode ser encontrada em alguns dos modelos mais baratos.

As montadoras aprenderam lições duras sobre lançar tecnologias novas e não comprovadas. Por exemplo, a Ford Motor teve de revisar repetidas vezes seu popular sistema Sync para atenuar as distrações e facilitar seu uso pelos consumidores. Na mais recente remodelagem do Sync, a Ford decidiu inserir botões, revertendo o foco em telas sensíveis ao toque, ressaltando o desafio enfrentado pelos fabricantes para achar o equilíbrio correto para o motorista.

Cada nova versão de um carro oferece a oportunidade para corrigir enganos anteriores. O novo Acura MDX representa o que, no entender da Honda, é uma tentativa de criar "sinergia entre homem e máquina".

Segundo Feit, da Honda, "os consumidores querem fazer outras coisas enquanto guiam, pois estão acostumados ao fato de aparelhos eletrônicos, como telefones e tablets, atenderem seus desejos".

O Acura MDX novo, feito pela Honda, conta com tecnologia celular embutida que não apenas oferece uma grande quantidade de funções de internet e entretenimento como também conecta o motorista diretamente a um recepcionista da Acura que pode localizar um restaurante próximo e fazer reservas para o jantar.

Um recurso de reconhecimento de voz permite ao motorista selecionar um destino no sistema de navegação ou escolher um número telefônico a ser discado sem tirar os olhos da rua ou as mãos do volante.

Eliminar botões físicos no painel do carro era crucial para melhorar a segurança. Botões em demasia criavam decisões em excesso para o motorista tomar com o automóvel em movimento. O novo modelo limita os botões a funções principais, como controlar a temperatura.

Outros recursos estão disponíveis em uma tela sensível ao toque. A intenção é permitir aos motoristas a personalização do carro por meio da seleção de opções de entretenimento na tela enquanto o veículo está parado e depois ganhar acesso sobre elas pressionando um só botão enquanto guiam.

Uma segunda tela é dedicada à navegação. O sistema pode ser controlado por comandos de voz ou os destinos podem ser selecionados manualmente. Contudo, como muitas outras montadoras, a Honda impede que os motoristas mudem o destino à mão com o automóvel em movimento. O MDX necessita estar completamente parado ou estacionado antes que isso seja possível.

"Nós queríamos restringir o acesso à inserção do endereço até você parar", conta Feit. "Entretanto, dá para controlá-lo por voz enquanto se está rodando."

Enquanto cresce a variedade de dados e opções de entretenimento no carro, os fabricantes aumentam os recursos de segurança que ajudam os motoristas a evitar acidentes. Como existem mais distrações instaladas no veículo, o carro tem de ajudar mais no ato de guiar.

O MDX, por exemplo, tem sensores que avisam o motorista de colisões potenciais, alertam quando saem da pista na estrada e acionam os freios para reduzir a velocidade quando um acidente parece iminente. Um pacote de opções avançadas inclui o piloto automático, que pode parar automaticamente se o veículo da frente parar de repente.

Onde isso vai terminar? As montadoras e empresas de tecnologia estão trabalhando para aperfeiçoar o automóvel que se dirige sozinho, no qual sistemas computadorizados controlam a operação do veículo.

Para os órgãos reguladores, a condução automatizada poderia criar tantos problemas quanto os que resolve. Alertar motoristas que saem da pista ou que se aproximam demais de outro veículo ajuda a evitar acidentes. Porém, deixar um computador pilotar o carro é um limite que a indústria automobilística hesita em cruzar.

"Os consumidores ainda têm dúvidas quanto à condução totalmente automatizada", afirma Gloria, da Aliança de Fabricantes de Automóveis, de Washington. "Nós acreditamos que eles ainda querem se sentar no banco do motorista."

Porém, estar no banco do motorista muda a cada novo modelo. Os consumidores esperam cada vez mais ficarem conectados ao veículo da mesma forma que com o celular enquanto caminham pela rua.

Em uma conferência recente em um subúrbio de Detroit, dezenas de fornecedores exibiam as últimas engenhocas para automóveis. Quer fossem novos sistemas sem fio, funções de mapeamento ou aplicativos para encontrar vagas, as empresas correm para acrescentar novos recursos e serviços aos carros.

Uma das empresas, a Here, está aperfeiçoando os mapas que são atualizados com informações do tráfico e opções de navegação. "O que estamos testemunhando é o desenvolvimento de um carro consciente e que compreende a rua e o ambiente ao seu redor", comenta Dean VonBank, vice-presidente da companhia.

As montadoras analisam cuidadosamente as opções que as empresas de tecnologia estão ávidas para instalar nos veículos. Porém, mais dados para os motoristas poderiam elevar o nível de distração. E as montadoras estão mais e mais cientes desse risco.

"O que o consumidor quer de verdade?", pergunta Jim Keller, engenheiro da Honda que estuda distrações ao volante. "Ele quer fazer mais coisas no carro com menos esforço e complexidade."

E em uma máquina tão complexa quanto o Acura MDX, um de seus principais argumentos de venda é bastante simples. O motorista pode estar mais conectado do que nunca, mas com menos botões para apertar.