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Participação pessoal do empresário na EBX diminuiu em mais de US$ 20 bi no último ano

Reuters

O grupo EBX de Eike Batista, que já foi um conglomerado industrial com grandes ambições, começou a desmoronar na quinta-feira (4), sendo a mais nova vítima do boom de uma década do setor de commodities a sofrer uma parada brusca.

Eike, fundador e força vital por traz do grupo de petróleo, energia, portos, navios e mineração, que nomeou todas as suas companhias com um "X" para simbolizar "multiplicação de riqueza", saiu da presidência do Conselho de Administração da MPX, empresa de energia e a mais promissora do grupo.

A companhia de geração de eletricidade também será renomeada até outubro para se posicionar como fora do grupo EBX, disseram executivos da MPX em teleconferência nesta quinta-feira (4).

Eike Batista
Getty Images
Eike Batista

O movimento tira Eike da MPX num momento em que o valor do seu império, que já foi avaliado em cerca de US$ 60 bilhões, desintegra-se.

Uma vez considerado o homem mais rico do Brasil, a participação pessoal de Eike na EBX diminuiu em mais de US$ 20 bilhões no último ano, enquanto as promessas de poços de petróleo, portos, plantas de geração de energia e navios falharam em se materializar.

A maior parte das ações das empresas do EBX está agora quase sem valor, a dívida é negociada a níveis que sugerem default e investidores líderes questionam a promessa de Eike de investir mais.

Com a economia do Brasil em dificuldade, a fraqueza da moeda e a demanda chinesa —força condutora por traz do boom do Brasil na última década— diminuindo, investidores têm pouco apetite por novos investimentos.

"O apuro de Eike é como o do Brasil, um sinal de que não podemos mais ignorar o apuro do Brasil", disse Alexandre Barros, fundador da Early Warning, uma consultoria de risco político baseada em Brasília. "Eike deixou investidores animados sobre o potencial do Brasil, que era real, mas como o Brasil, Eike falhou em entregar."

A saída de Batista ocorre depois que a MPX cancelou uma oferta de ações de cerca de US$ 1,2 bilhão.

A oferta se tornou insustentável com a deterioração das condições de mercado, disse a companhia em documento arquivado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A recomendação para o cancelamento da oferta pública partiu do banco BTG Pactual, que tem atuado como assessor financeiro do grupo EBX, de Eike.

Em vez disso, a MPX vai promover um aumento de capital de R$ 800 milhões com ações ao preço de R$ 6,45 por papel, em uma operação privada na qual Eike, parceiro da alemã E.ON, e o BTG Pactual poderão participar.

"Isso é muito bom para a MPX", disse Ricardo Correa, analista do setor de energia da Ativa Corretora. "A MPX é a melhor empresa do grupo e eles estão trabalhando rápido para isolar a companhia e separá-la do risco associado com o grupo EBX de Eike", disse.

A ação da MPX, que tinha caído 42% neste ano, subia mais de 10% às 16h55 desta quinta-feira (4), na Bovespa.

Para Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), a saída de Eike da MPX e ganhos de ações de várias empresas do grupo EBX nesta quinta-feira (4) mostram que investidores consideram que a ruptura da EBX pode ser a melhor forma de proteger os investimentos.

"Eles têm que fazer alguma coisa e fazer algo rápido para isolar as diferentes partes do grupo da reação contra Eike, de forma que Eike e a EBX possam ter espaço para cessar a deterioração e reestruturar o grupo", disse Pires.

E.ON assume

A ação da MPX, que tinha caído 42% neste ano, subia mais de 10% às 16h55 desta quinta-feira (4)
Divulgação
A ação da MPX, que tinha caído 42% neste ano, subia mais de 10% às 16h55 desta quinta-feira (4)

De acordo com o antigo plano de venda, as ações seriam vendidas a R$ 10 cada, como parte da compra de participação na MPX pela E.ON, em março, de US$ 1 bilhão. Agora, no novo plano, a E.ON concordou em comprar até R$ 367 milhões em ações no aumento de capital, com garantia do BTG Pactual na operação.

A E.ON detém 36% na MPX, uma participação que poderá aumentar para até 38% na operação privada, disseram executivos da MPX.

Eike deixará o conselho de administração, mas ainda tem 29% da MPX e controle em conjunto com a alemã E.ON por meio de um acordo de acionistas, disse a MPX na teleconferência, adicionando que não há garantia que o empresário irá comprar novas ações no aumento de capital.

A participação de Eike será reduzida para 24% se ele não comprar nenhuma ação da MPX no aumento de capital, segundo a empresa. Representantes na EBX não responderam imediatamente por comentários pedidos por telefone e e-mail.

"Nós vemos uma ampla gama de oportunidades como resultado dessa capitalização", disse o presidente-executivo da MPX, Eduardo Karrer, na teleconferência de quinta-feira (4). "Isso é parte do processo de evolução da MPX como uma entidade independente".

Necessidade de recursos

Os recursos do aumento de capital serão usados para "fortalecer o balanço da companhia e prepará-la para o crescimento". A empresa quer participar de diversos leilões do governo para venda de energia térmica e eólica ao longo do ano, segundo Karrer.

A MPX precisa de novo capital para financiar cerca de R$ 600 milhões em usinas de geração de energia que irá transformá-la em uma empresa totalmente operacional.

O aumento de capital da empresa deverá ser concluído em 40 dias, disseram executivos da companhia.

Jorgen Kildahl, membro do conselho pela E.ON, irá substituir Eike, que fundou a MPX em 2001, disse um porta-voz da E.ON. A decisão de Eike de deixar a empresa foi "pessoal", disseram representantes da MPX.