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Com a aquisição de seu maior concorrente em mapas, empresa escapa de ações antitruste

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A empresa de aplicativos Waze, com apenas 110 funcionários, foi a aquisição mais recente do Google
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A empresa de aplicativos Waze, com apenas 110 funcionários, foi a aquisição mais recente do Google

O lema do Google é "não seja malvado". No entanto, sua recente aquisição da Waze, supostamente por US$ 1 bilhão em dinheiro, mostra que não ser malvado não significa que você não possa ser agressivo dando um empurrãozinho nas fronteiras da lei.

Agora, a questão é se o governo americano irá empurrar de volta —e obrigar o Google a devolver seu novo brinquedo.

A Waze é mais uma daquelas transações gigantescas para uma empresa de tecnologia com pouca ou nenhuma receita que te deixa com inveja.

Com cinco anos em funcionamento, a Waze tem apenas 110 funcionários  —assim, o Google parece estar pagando quase US$10 milhões por funcionário. Quanto aos lucros, o presidente da Waze, Noam Bardin, declarou: "Este é o Vale do Silício. Não falamos sobre essas coisas por aqui". Certo.

O Google está pagando caro pela Waze porque ela está no cruzamento de dois campos promissores: busca em mapas e mídia social. Os usuários baixam o aplicativo da Waze em seu celular e , então, fornecem informações sobre localização, rotas e tráfego, tornando os mapas mais inteligentes. E a Waze possui o habitual fenômeno de crescimento em usuários, com 50 milhões mundialmente. Este é um campo onde se acredita haver montanhas de dinheiro em publicidade relacionada.

Desse ponto de vista, a aquisição possui diversas justificativas comerciais "imprescindíveis" para o Google. O Google é cachorro grande, dominando os mapas móveis usados em smartphones, e a Waze faz do Google um cachorro ainda maior. Os números exatos não estão disponíveis, mas estima-se que o Google tenha a maioria desse mercado – à frente de players respeitáveis como Apple, Microsoft e a própria Waze.

Talvez mais importante, a compra da Waze mantém a tecnologia fora das mãos do Facebook, que teria oferecido cerca de US$ 1 bilhão pela empresa, e da Microsoft e Apple, que teriam oferecido US$ 400 milhões no início deste ano.

Um bilhão de dólares não só consolida a liderança do Google na busca em mapas, mas o faz em grande estilo. O Google pagou grandes somas para colocar carros no mundo todo e dar conteúdo de informação para seus mapas. Porém, a Waze está fazendo o mesmo sem gastar muito, fazendo seus próprios usuários realizarem o trabalho.

Os dois tipos de sistema são difíceis de construir, significando que não há grandes probabilidades de novos entrantes. Veja as dificuldades da Apple com a controvérsia sobre a precisão de seu aplicativo de mapas. Se a Apple não consegue fazer isso com facilidade, com sua base de 400 milhões de usuários de iPhones, não há muitos outros que conseguiriam.

Problemas antitruste

Assim, pode-se pensar que haveria problemas antitruste com a aquisição. O Google, já o participante dominante, está comprando o que parece ser seu maior concorrente —e o faz de uma forma que priva outros participantes de uma maneira mais simples de concorrer.

É aqui que o Google está empurrando a lei o máximo possível.

Normalmente, para adquirir uma empresa nos Estados Unidos, o comprador precisa entregar ao Departamento de Justiça ou a Comissão Federal de Comércio (FTC, da sigla em inglês) o que é conhecido como pedido Hart-Scott-Rodino. Isso notifica as agências sobre a transação, para que elas possam analisar sua conformidade às leis antitruste.

O pedido também gera um período de espera, durante o qual o governo pode adiar a aquisição para iniciar uma investigação detalhada e determinar se existe algum problema antitruste. Esse é um motivo pelo qual as aquisições públicas são concluídas meses após serem anunciadas: as empresas envolvidas estão esperando uma análise antitruste nos Estados Unidos ou em outro país.

Esse é o processo normal. Entretanto, o anúncio da compra pelo Google parece dizer que as empresas assinaram e fecharam o acordo no mesmo dia, deixando o Google como o feliz proprietário da Waze.

Segundo uma pessoa próxima do Google, a empresa contornou o pedido Hart-Scott-Rodino apoiando-se em uma isenção. Esse pedido não é obrigatório se a aquisição for de uma empresa estrangeira que tenha vendas e ativos de menos de US$71 milhões nos Estados Unidos. A Waze é uma empresa israelense com sede no Vale do Silício, e assim se encaixa nesse critério.

A Waze provavelmente não tem US$ 50 milhões em receita no mundo todo, mas o critério também analisa os ativos. Dado que a Waze está avaliada em US$ 1 bilhão, é difícil alegar que o valor de sua propriedade intelectual nos EUA não ultrapassa o limite. E a FTC já assumiu anteriormente a posição de que as empresas devem incluir esse tipo de propriedade intelectual na orientação informal.

No entanto, o Google parece ter tomado essa postura agressiva e está abrindo mão de qualquer revisão antitruste, em vez de mergulhar de cabeça na aquisição.

Então por que o Google fez isso?

Um representante da empresa preferiu não comentar.

O Google pode estar jogando duro com o governo dos EUA. Psicologicamente, pode ser mais difícil para o governo desfazer algo que está feito. E uma vez que o Google adquirir esta empresa, ficará mais difícil desfazer qualquer integração que eles possam ter realizado com seus próprios serviços (por enquanto, o Google declarou que manterá a Waze separada).

Não apenas isso, mas os donos da Waze podem ter decidido vender precisamente por esse motivo, evitando a grande possibilidade de que o governo americano rejeitaria o acordo —um risco que o Google poderia estar disposto a correr com Facebook e Apple rondando.

No entanto, considerando a publicidade sobre a compra, o governo quase certamente fará uma revisão. Grupos de consumidores estão por perto, e o Consumer Watchdog Group escreveu ao governo para solicitar uma análise detalhada. Esse grupo apontou que a compra do Doubleclick e do AdMob pelo Google levou a 93% de participação no mercado de anúncios móveis.

Assim como em transações anteriores, o governo pode obrigar o Google a vender a Waze, ou colocar outras restrições em vigor, se houver algum problema.

Concorrência

O padrão foi estabelecido em uma lei aprovada há um século: a aquisição irá "diminuir substancialmente a concorrência"? Em parte, isso virá de como o mercado for definido —se forem apenas mapas, bem, será preciso incluir empresas como a Rand McNally.

Em aplicativos móveis, de acordo com a Berg Insight, a Telenav possui 33% de participação, enquanto Google e Waze somados teriam 28% do mercado americano. Todavia, se definirmos o mercado como indicações em mapas para smartphones, o promissor mercado que o Google está tentando dominar, então a participação do Google provavelmente ficará muito maior com a compra da Waze.

Tudo pode se resumir em quão fácil seria para outra empresa replicar o que a Waze está fazendo —a empresa construiu uma enorme base de usuários que a fez valer um bilhão de dólares.

Mesmo se o Google mostrar que esta compra não diminui a concorrência, a aquisição pode ser desfeita se a Waze entrar na classificação do Departamento de Justiça como uma "empresa que desempenha um papel disruptivo no mercado, para benefício dos clientes". A Waze está sacudindo o mercado dos EUA, então as autoridades irão buscar essa linha de investigação.

Seja como for, os comentários de Bardin não devem ajudar —mas servem como um lembrete a outros donos de startups tentando vender para seus concorrentes, para que não digam que eles são o único jogo da cidade.

No mínimo, tudo isso significa que a aquisição da Waze provavelmente ganhará uma profunda revisão do governo. A batalha vai começar. Não há certeza de que o Google conseguirá manter a Waze sem restrições, mas o governo enfrenta um desafio.

Se decidir tentar desfazer essa aquisição, o Google empurrará os limites da lei o máximo que conseguir. O futuro da busca em mapas está em jogo, e o Google pode não ser malvado —mas negócios são negócios.

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