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Técnicas ganham espaço no mundo à medida que prédios antigos se tornam obsoletos

NYT

Há muitas maneiras de demolir um prédio, e algumas delas são espetaculares: explodi-lo de dentro para fora, para que ele desabe sobre si mesmo, ou arrebentá-lo com uma bola de demolição de duas toneladas.

Em Tóquio, porém, uma cidade apinhada, repleta de arranha-céus antiquados, com complicadas restrições de reciclagem e ambientais, as empresas japonesas estão aperfeiçoando o que poderia ser chamado de demolição silenciosa. Alguns edifícios altos são derrubados de cima para baixo, por meio do trabalho oculto de um andaime móvel, outros de baixo para cima, com a estrutura inteira sendo solta lentamente.

Às vezes, as técnicas parecem desafiar a gravidade —ou pelo menos o senso comum—, pois, embora os edifícios pareçam intactos, eles estão na verdade encolhendo lentamente. Os métodos, que buscam um local de trabalho mais limpo e mais silencioso, podem eventualmente vir a ganhar espaço em Nova York e outras cidades à medida que arranha-céus antigos vão se tornando obsoletos e a melhor solução passa a ser derrubá-los e reconstrui-los.

O último arranha-céu de Tóquio a ser demolido com esse método silencioso é o Hotel Akasaka Prince, uma torre de 40 andares com uma distinta fachada dentada com vista para uma das áreas comerciais movimentadas da cidade.

O Akasaka Prince Hotel, em Tóquio (Japão), no início do processo de demolição
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O Akasaka Prince Hotel, em Tóquio (Japão), no início do processo de demolição

Desde o ano passado, suas entranhas de aço e concreto foram sendo separadas, andar por andar, começando por perto do topo, por tesouras hidráulicas e outros equipamentos pesados. O edifício tem diminuído em cerca de dois andares a cada 10 dias; a partir deste mês, ele não vai mais estar lá, vindo a ser substituído por duas torres novas.

Hideki Ichihara, gerente da Taisei Corp., que desenvolveu o sistema que está sendo usado para derrubar o hotel, disse em entrevista que a técnica tem vantagens em termos ambientais e permite a separação mais eficiente do metal, do concreto e de outros materiais recicláveis. Outra vantagem é visual: a construção que está sendo desmontada parece normal pelo máximo de tempo possível. "Queremos que as pessoas não percebam de fato o trabalho de demolição", disse ele.

Ichihara concedeu a entrevista nas entranhas do hotel no fim de um dia de inverno enquanto, cerca de 250 metros acima, os trabalhadores demoliam dois andares, removendo o exterior de alumínio e vidro, cortando as vigas de aço e pulverizando as lajes de concreto. A obra, porém, era invisível aos transeuntes —os quatro últimos andares foram envoltos em um andaime dependurado no teto intacto, coberto de painéis que imitavam a fachada.

Quando os dois andares se forem, o telhado e o andaime coberto descerão lentamente, graças a macacos controlados por computador em cada uma das 15 colunas temporárias. Em seguida, as colunas serão rebaixadas para novas posições, e os trabalhadores começarão a desmontar os dois andares seguintes.

A cobertura ajuda a impedir que se espalhem o ruído e a poeira, de modo que eles se mostram bem mais discretos do que no caso de métodos mais convencionais de demolição de edifícios altos, que dependem de erguer um andaime até o alto do prédio e por volta da estrutura, mas deixar a parte superior exposta. "Todo o trabalho se dá dentro da área coberta", disse Ichihara. "O nível de ruído é vinte decibéis mais baixo do que percebemos na demolição convencional, e há 90% menos poeira sendo liberada na área."

À parte da utilização da cobertura, no entanto, o sistema da Taisei é semelhante ao de outros métodos em que a estrutura é desmontada do topo para baixo. Outra empresa japonesa, a Kajima Corp., desenvolveu uma abordagem da base para o topo, cortando as colunas de aço de um edifício ao nível do chão, elevando e soltando toda a estrutura à medida que cada andar é removido. Uma vez que todas as obras de demolição são realizadas no chão ou perto dele, não há necessidade de colocar equipamentos pesados nem trabalhadores no topo do edifício.

"A ideia é manter o edifício o mais intacto possível", disse Ryo Mizutani, funcionário da Kajima, que em janeiro concluiu a demolição de um edifício de escritórios de 24 andares, o Resona Maruha, perto dos Jardins Imperiais. Macacos hidráulicos enormes levantaram as 40 colunas do prédio, e os trabalhadores cortaram passo a passo 75 centímetros de cada coluna, de modo que a estrutura fosse lentamente reduzida.

O edifício Resona Maruha foi concluído em 1978; a torre do Akasaka Prince, em 1982. Normalmente, um edifício de 30 ou 40 anos com a devida manutenção ainda teria muitos anos de vida. O Empire State Building, em Nova York (EUA), por exemplo, tem 82 e está muito bem após um grande trabalho de renovação.

Mas os edifícios de Tóquio foram vítimas dos caprichos do imobiliário comercial de Tóquio, onde os altos valores de propriedades, as mudanças de padrões de projeto e de outros fatores conspiraram para criar um grande mercado para a demolição.

"Há muitas maneiras de fazer uma reforma", disse Tsuyoshi Seike, professor associado do Instituto de Estudos Ambientais da Universidade de Tóquio. "No entanto, com edifícios no meio de Tóquio, eles acham que é melhor demolir". Cerca de uma dúzia de arranha-céus foram derrubados até agora, disse Seike.

A franca expansão da economia do Japão na década de 1970 deu origem a dezenas de torres de escritórios enfadonhas e nada originais em Tóquio. Agora, muitos desses edifícios estão obsoletos, com um pé-direito relativamente baixo (as leis que regem a altura dos prédios foram flexibilizadas em 1990), tendo se tornado ainda mais apertados por terem que acomodar a infraestrutura da tecnologia da informação.

O Akasaka Prince, uma peça icônica e brilhante projetada por um dos arquitetos mais famosos do Japão, o modernista Kenzo Tange, também tinha tetos baixos, mas sucumbiu às pressões econômicas provocadas pelo afluxo de mais hotéis de luxo dirigidos por empresas estrangeiras. (O novo complexo a ser construído no local vai incluir espaços de escritórios e varejo, residências e, nos pisos superiores de uma torre de 180 metros, um hotel com suítes de luxo.)

A situação de Tóquio pode ser única, mas Nova York e outras cidades podem mais cedo ou mais tarde enfrentar a necessidade de demolir alguns arranha-céus. Um estudo recente da Terrapin Bright Green, uma empresa de consultoria de Nova York, sugeriu que muitas torres de escritórios em Manhattan precisam ser reformadas ou demolidas.

Estas estruturas foram construídas a partir do final dos anos 1950 ao início dos anos 1970 e têm tetos baixos, pouco espaçamento entre as colunas, o que limita as plantas dos andares, e sistemas de resfriamento e aquecimento ineficientes.

Bill Browning, sócio da Terrapin, disse que alguns desses edifícios, construídos na era da energia barata, tinham fachadas de vidro único, e que as estruturas não tinham como sustentar o peso adicional de um vidro de isolamento para torná-las mais eficientes em termos energéticos. Outros prédios podem até ser reformados, mas levaria décadas para que o investimento compensasse.

Nesses casos, disse Browning, pode fazer mais sentido econômico derrubar o prédio e construir uma nova torre que teria mais espaço para cobrar valores mais elevados de aluguel utilizando a mesma quantidade de energia, ou ainda menos.

Embora haja provavelmente centenas de edifícios que estão antiquados, disse Browning, apenas alguns poucos entre eles podem realmente ser demolidos. "Acho que tem alguns em torno do centro da cidade e alguns na Baixa Manhattan", disse ele.

Ainda assim, isso representaria uma mudança para a cidade, onde o maior projeto de demolição já realizado ocorreu em 1908, trazendo abaixo o edifício Singer Building na Baixa Manhattan.

Com mais de 180 metros de altura, o edifício, no entanto, tinha relativamente pouco espaço utilizável nos andares e foi derrubado há 45 anos. Desde então, apenas alguns edifícios com mais de 90 metros foram demolidos, incluindo o prédio do Deutsche Bank, de 170 metros, que foi danificado na destruição das torres do World Trade Center.

Não está claro se os empreiteiros de demolição nos Estados Unidos vão adotar um dos métodos japoneses; mesmo em Tóquio, muitos prédios são demolidos de formas mais convencionais. (Com as novas técnicas, elaborar o projeto pode ser mais caro, mas a demolição muitas vezes leva menos tempo do que com os métodos convencionais).

Herb Duane, um consultor de demolição semi-aposentado que escreve frequentemente sobre o tema, disse que a técnica de baixo para cima da Kajima pode ser problemática em uma cidade como Nova York, onde os edifícios são mais pesados.

Bill Moore, ex-presidente da Associação Nacional de Demolição e diretor de marketing de Brandemburg Industrial Services, uma empresa de demolição, disse que um empreiteiro italiano tinha tentado seduzir empresas americanas a adotar um sistema de extração gradativa das partes mais altas dos prédios, semelhante ao da Taisei, sem muito sucesso. "Nossas leis ambientais não são tão rigorosas", disse Moore, e é possível conter a poeira de maneira eficaz borrifando água.

Uma coisa é clara, disse Moore: a implosão pelo uso de explosivos colocados de maneira precisa não seria utilizada, assim como bolas de demolição. Ambos os métodos são amplamente proibidos em Nova York, por causa de preocupações quanto à segurança e ao meio-ambiente, embora neste mês autoridades tenham permitido a primeira implosão em mais de uma década, de um antigo prédio de apartamentos da Guarda Costeira na Governors Island, que fica basicamente isolada.

Em geral, embora o método da implosão renda ótimos vídeos do YouTube, ele se mostra adequado para menos de 2% dos projetos, disse Duane. Às vezes ele também não funciona, como no mês passado em Brisbane, na Austrália, quando um silo de concreto teve de ser delicadamente cutucado por uma escavadeira após cargas explosivas o deixarem precariamente inclinado.

As implosões também são proibidas em Tóquio, que é ainda mais apinhada do que Nova York. Mas o que mais impulsionou as novas técnicas de demolição na cidade, disse Seike, da Universidade de Tóquio, foi uma lei de reciclagem que entrou em vigor em 2002.

Além de metais valiosos como aço, alumínio e cobre, a lei exige que a madeira e os resíduos de concreto sejam reciclados, mesmo se os empreiteiros da demolição pagarem por isso. "As pessoas começaram a levar a sério a reciclagem", disse Seike, "e as coisas mudaram drasticamente no setor da demolição".

Para garantir maior eficácia, os materiais recicláveis devem ser separados no local, disse ele. Com a criação de ambientes de trabalho controlados, ambos os métodos japoneses possibilitam a separação no local.

No Akasaka Prince, disse Ichihara, essa classificação começa pelo topo do prédio, e o concreto e o aço são derrubados por guindastes separados. Com o método de demolição de baixo para cima da Kajima, disse Mizutani, todos os detritos vão para o nível do chão, permitindo uma separação eficiente.

Segundo Mizutani, o método da sua empresa tem outra vantagem: os materiais perigosos, como o amianto, não têm de ser removidos do local separadamente antes da demolição estrutural começar. Em vez disso, como os materiais são retirados de cada andar, eles podem ser deixados lá até que atinjam o nível do chão, e ser carregados a uma distância segura.

No entanto, o método da Kajima tem uma grande desvantagem: em Tóquio, cidade que corre risco de abalos sísmicos, um prédio que é separado de suas fundações pode facilmente cair quando o chão treme.

A solução da empresa é a construção de estruturas de concreto temporárias, de cerca de três andares de altura, dentro de partes da estrutura de aço do edifício. Dispositivos de travamento que se ativariam rapidamente em caso de terremoto manteriam a armação presa às estruturas de concreto, mantendo, provavelmente, o edifício estável.