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Suposta fraude consistiria no desvio de 66% das cotas do fundo Bertin-FIP

Agência Estado

A família Bertin corre o risco de perder em torno de R$ 2,5 bilhões de seu patrimônio se não conseguir provar, na Justiça, que é vítima de uma fraude envolvendo a sua participação no frigorífico JBS.

O suposto golpe consistiria no desvio de aproximadamente 66% das cotas do fundo Bertin-FIP, por meio do qual a família tem participação no JBS, em sociedade com a família Batista. As cotas foram transferidas em 2010 para a Blessed, empresa com sede em Delaware (EUA).

Frigorífico JBS
AP
Frigorífico JBS

Os Bertin dizem que foram enganados. Não teriam autorizado a operação e, agora, querem descobrir quem são os donos da Blessed e anular a transação. Há, no entanto, documentos que comprovariam a transferência, assinados por dois membros da família: os irmãos Natalino e Silmar. A família alega, no entanto, que as assinaturas nos documentos foram falsificadas. Um laudo encomendado por eles ao Instituto Del Picchia, de São Paulo, concluiu serem grandes as possibilidades de que as assinaturas foram forjadas.

Os advogados da família Bertin dizem que avaliam várias hipóteses para o que pode ter ocorrido. Parte do trabalho é investigar “coincidências” que fariam a conexão entre a operação de transferência das cotas e pessoas ligadas ao JBS.

Divergências

A primeira delas: o procurador da Blessed no Brasil é Gilberto Biojone, um executivo com longa carreira no mercado financeiro. Ele passou pelos bancos Comind, Econômico Excell e foi conselheiro da Bovespa. Hoje, Biojone é associado da Selo Consultoria, fundada por um ex-diretor do JBS e que tem como associados dois outros ex-executivos do grupo frigorífico.

Biojone diz que não entende o comportamento dos Bertin: “O Natalino assinou os documentos na minha frente, eu assinei na frente dele, e quase três anos depois vem dizer que a assinatura dele foi falsificada?”. O representante da Blessed afirma não saber a quem representa. “São investidores estrangeiros”, diz.

Outro detalhe que incomoda os advogados da família Bertin é que Alexandre Seguim, diretor jurídico do JBS desde maio de 2011, aparece assinando como testemunha de uma das operações de transferência de cotas. Por meio de sua assessoria de imprensa, Seguim afirmou que assinou como testemunha porque na época, em 2010, trabalhava no escritório de advocacia envolvido na operação de transferência das cotas, o Barbosa, Müssnich & Aragão.

Bertin e JBS se juntaram no fim de 2009. Do lado dos Bertin, as negociações sempre foram conduzidas por Natalino. Joesley encabeçava os negócios pela família Batista. As transferências das cotas do fundo dos Bertin ocorrem em dois momentos, no ano de 2010. “Estamos fazendo um trabalho de pesquisa para resgatar o que aconteceu”, diz Antonio Carlos Velloso Filho, advogado do escritório Sérgio Bermudes, que representa os Bertin. “A negociação foi muito rápida e a família assinou muita coisa a toque de caixa”, completa.

Segundo a versão dos Bertin, o sumiço das cotas só foi percebido no começo do ano, durante o processo de profissionalização do grupo, quando Natalino se afastou. Os novos executivos estavam se preparando para atualizar o valor das cotas quando receberam uma informação do Banco do Brasil de que havia algum problema com o pacote.

As cotas foram dadas como garantia para um empréstimo de R$ 100 milhões ao grupo Bertin. Naquele momento, segundo a instituição, restavam quase 35% das cotas, já que a maioria tinha sido transferida para a Blessed. O gestor do fundo também tinha mudado. Passara a ser a corretora Socopa e não mais a do Citibank, responsável pela gestão desde a criação.

“Foi só nesse momento que nos demos conta do problema. Nunca recebemos um extrato, ou informação do Citi”, afirma Wendel da Silva Caleffi, diretor financeiro do grupo Bertin. Procurado, o Citibank preferiu não comentar.

Briga na Justiça

Os advogados da família Bertin conseguiram na Justiça uma liminar que proíbe a Blessed de transferir as cotas ou receber dividendos que venham a ser distribuídos. O escritório se prepara para entrar com uma ação com o objetivo de reaver as cotas e obter uma indenização.

Procurada, a J&F, holding que controla o JBS, preferiu não se manifestar por entender que o problema é exclusivo da família Bertin e não envolve a empresa, segundo a assessoria. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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