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“Nossa função não é educar o espectador, e sim atender à demanda”, diz Marcelo Bertini, presidente da rede

A melhora no poder de compra do brasileiro, reflexo da ascensão da classe C, já provoca uma mudança de postura das grandes redes de cinema do país. Esse novo público prefere assistir a filmes dublados e para atender tal demanda, a Rede Cinemark diminuiu de forma significativa o número de versões legendados na programação nos últimos dois anos.

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A mudança é nítida na unidade do metrô Tatuapé, localizada na zona leste de São Paulo. Dos 11 títulos em cartaz, apenas dois têm a opção de áudio original. Marcelo Bertini, presidente do Cinemark, afirmou ao BRASIL ECONÔMICO que grande parte dos novos clientes prefere os filmes dublados e essa tendência deve se acentuar.

“Não gosto de trabalhar muito com maioria, mas em termos gerais, o percentual de filmes dublados tende a crescer. A princípio, a nossa função como exibidor não é educar o espectador em alguma língua e sim atender à demanda dos novos clientes”, diz o executivo.

A expectativa para os próximos meses é que o Vale-Cultura — medida que deve entrar em vigor em julho e vai oferecer R$ 50 por mês aos trabalhadores formais que recebem até cinco salários mínimos para gastar com atividades culturais — deve atrair mais clientes para a Rede, que em 2012 atendeu 40 milhões de expectadores.

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“Esperamos que o projeto motive pessoas que nunca tiveram acesso aos segmentos contemplados (como a compra de livros e de ingressos para o cinema e teatro) a frequentarem atividades culturais. O cinema vai acabar se beneficiando com isso”, avalia.

No entanto, Bertini descarta a possibilidade de o benefício diminuir o percentual de meia- entrada. “Hoje, 65% da nossa receita é proveniente da meia- entrada. Pelo menos durante o período de implementação, não esperamos que o Vale-Cultura mexa nesse quadro”, afirma. A previsão da ministra da Cultura, Marta Suplicy, é que a medida injete R$ 11 bilhões na cadeia produtiva cultural do país nos próximos anos.

Planos de expansão

Há cerca de quatro anos, a Rede Cinemark divulgou um projeto no qual estava prevista a expansão das salas principalmente para as cidades do interior do país, onde existe mercado potencial. No entanto, os planos foram em parte adiados. Somente no ano passado, das oito inaugurações previstas, apenas três se concretizaram.

De acordo com Bertini, o principal entrave é que o avanço está atrelado a inauguração de shoppings centers no interior. “Os circuitos exibidores acompanham essa tendência, uma vez que o governo recentemente também tem apoiado o investimento das empresas que decidem correr risco ao apostar no interior do país. No entanto, uma série de atrasos por parte desse fluxo de abertura de shoppings acabou adiando algumas das nossas inaugurações”, diz.

A previsão da empresa é que em 2013 se concretiza a abertura de 12 complexos em diferentes localidades (veja no quadro ao lado).

Ainda não há previsão para a implementação de salas com a tecnologia 4D no Brasil
Divulgação
Ainda não há previsão para a implementação de salas com a tecnologia 4D no Brasil

Rumos do mercado

Na avaliação de Bertini, tanto o processo de interiorização quanto a substituição da tecnologia de projeção (analógica) 35 mm para a digital deve dinamizar toda a indústria cinematográfica brasileira nos próximos anos. No entanto, a concorrência não é vista pelo executivo como uma ameaça.

Um estudo de mercado encomendado pela empresa mostra que o crescimento da indústria nos últimos três anos foi muito disperso. Enquanto os exibidores tradicionais estão expandindo as operações, outros grupos menores surgem para atender uma parte da demanda do interior do país.

“Para nós, a concorrência se dá de modo saudável e de forma específica. Em cada região temos um player concorrente; é um mercado que cresce de forma dispersa e saudável”, avalia.

Para o ano de 2013, o Cinemark deve continuar dando atenção especial para a oferta de conteúdos alternativos nas salas. “O projeto das óperas já existe há três anos e tem tido uma aceitação excepcional do público.” Em relação a implementação de salas com a tecnologia 4D no Brasil, Bertini se mostra cético. “Ainda não temos nada oficial para este ano. No maior mercado do mundo, dos Estados Unidos, nenhuma das principais redes tem salas 4D. Este é um conceito recente, que está em teste e exige um investimento importante. Primeiro temos que entender se a novidade se sustenta ao longo dos anos.”