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Setor de transporte tem assistido a várias aquisições, mas a Braspress resiste ao assédio

Desafios:
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Desafios: "estradas ruins, frotas antigas e falta de mão de obra são trinômio da desgraça", diz Helou

No quadro pendurado na recepção da Braspress, Urubatan Helou, fundador da companhia, aparece olhando de soslaio. Mas a expressão intimidadora que impacta visitantes e funcionários na entrada da empresa se desfaz logo nos primeiros minutos de conversa. De fala rápida, o empresário, dono da maior transportadora de encomendas do país, não faz rodeios para expressar sua opinião, mas também tem ouvidos bem atentos e pacientes para escutar seu interlocutor.

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É com esta mesma paciência e interesse que ele tem ouvido as propostas de compra feitas a sua empresa, cujo faturamento deve ultrapassar R$ 900 milhões este ano. Helou admite estar aberto a possíveis compradores, mas avisa: “Se alguém tiver interesse em fazer negócio, que venha, mas de sacola cheia, porque somos a joia da coroa.” A seguir acompanhe os principais momentos da entrevista.

Brasil Econômico: Quais são os principais desafios do seu segmento?

Urubatan Helou: Começa pela elevada carga tributária que o nosso setor atravessa. O custo dos pedágios e a ausência de mão de obra também são entraves muito fortes. A renovação da frota é outro ponto. O Brasil tem uma frota com idade média de 21 anos. Isto de alguma forma tem que se resolver. Este envelhecimento da frota aliado a estradas mal conservadas, além da falta de mão de obra formam o trinômio da desgraça. É por isso que temos enfrentado tantos acidentes e entraves logísticos.

Brasil Econômico: Recentemente, o grupo lançou a Braspress Logística para cuidar da armazenagem e manuseio das encomendas. Há intenção de criar algum outro negócio mesmo que não seja ligado ao segmento de transporte?

Urubatan Helou: Não temos interesse de focar em outra atividade econômica. A nossa experiência está na área de transportes. O que queremos é continuar investindo na qualidade dos serviços prestados, ampliando nosso número de filiais. No passado, criamos uma companhia aérea de transporte de passageiros, a Air Minas, mas a experiência foi desastrosa. Perdemos R$ 50 milhões neste negócio. Era uma companhia regional, que operava a partir do aeroporto da Pampulha para todo o interior de Minas Gerais e também para os estados de São Paulo e Mato Grosso. Chegamos a conclusão que deveríamos nos concentrar em transporte de carga porque esta é nossa vocação.

Brasil Econômico: As únicas aquisições da Braspress aconteceram nas décadas de 1970 e 1980. Está nos planos do grupo comprar outras empresas?

Urubatan Helou: Fazer aquisições é interessante. Temos olhado o mercado, mas nosso setor é extremamente fragmentado e ainda estamos à procura de uma empresa que possa gerar sinergia com as nossas operações. Até o momento não encontramos nenhuma companhia com este perfil e que esteja interessada em vender suas operações.

Brasil Econômico: Tem algum perfil de empresa que o sr. considera ideal para comprar?

Urubatan Helou: Temos interesse em qualquer transportadora que tiver um perfil de carga similar ao nosso, independente de seu porte. O que não queremos é alguma transportadora que possa atuar como um modelo de carga diferente do nosso. Não queremos entrar em outro mercado.

Brasil Econômico: E quanto a Braspress ser comprada por alguma companhia. O sr. avalia esta possibilidade?

Urubatan Helou: O dinheiro do mundo começa a ser canalizado no Brasil e a Braspress é a joia da coroa. Não tenho problema de sentar com nenhum player internacional para discutir a venda do controle acionário da nossa companhia. Mas se ela um dia for vendida será necessário considerar todas as expectativas de mercado favoráveis ao território brasileiro. Portanto, quem quiser comprar a joia da coroa terá que pagar por isto.

Brasil Econômico: No momento há alguma negociação em andamento?

Urubatan Helou: Estamos organizando os compradores por ordem alfabética (risos). Ele aparecem todos os dias. São fundos de private equity, empresas estrangeiras... Mas nenhum fez uma proposta firme de negócios. Às vezes nós recebemos o possível comprador por uma questão de educação. A nossa empresa tem gerado caixa. Nossas margens são boas, todos os investimentos que fazemos na companhia são com recursos próprios. Se alguém tiver interesse de fazer negócio que venha. Mas que venha com a sacola cheia porque se trata da joia da coroa.

Brasil Econômico: E se um dia a venda acontecer? O sr. sairia totalmente do negócio ou ficaria com uma parte das ações? Pensaria em abrir outra empresa?

Urubatan Helou: Se vendêssemos a Braspress estaríamos impedidos de continuar no segmento. Eu fundei a empresa há 35 anos com um sócio que tem 20% do controle acionário. Eu tenho 80% da companhia. Foi uma sociedade dadivosa e nunca tivemos nenhum tipo de briga, sempre fomos muito fraternos. Não sei se teríamos vocação para convivermos com outros sócios. Se um dia a venda acontecer, nós sairíamos totalmente do grupo.

Brasil Econômico: E enquanto isso, quais são os planos para a sucessão da empresa?

Urubatan Helou: Este é um dos aspectos que colidem com interesses de venda. A sucessão na nossa empresa está pronta. Uma sucessora é a Juliana Petri, filha do meu sócio. Atualmente ela cuida de toda a área de automação e robótica da empresa. O outro sucessor é o meu filho Tayguara Helou, que está na empresa há algum tempo e domina quase 100% das nossas atividades. Temos a resistência de ambos quando o assunto é uma possível venda da empresa. Eles estão muito motivados com a continuação do negócio.

Brasil Econômico: Atualmente quem o sr. considera o principal concorrente da Braspress?

Urubatan Helou: Em termos de operação nacional nossos principais concorrentes são empresas como a TNT, a Rapidão Cometa e a Jamef. Mas o grande concorrente de uma empresa como a nossa é o operador local. Aquele que só transporta encomendas de Ribeirão Preto para São Paulo, por exemplo. Queremos nos espelhar na agilidade dele. Nós não focamos no nosso concorrente nacional, pois ele tem as mesmas dificuldades nossas.

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