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Da indústria alimentícia à automotiva, passando por fabricantes de geladeira e brinquedos, a onda é conquistar os modernos com design do tempo da vovó

Pegar uma Itubaína na geladeira antiga da vovó e sentar na sala para brincar de Genius pode parecer uma descrição dos anos 80. O cenário, porém, é perfeitamente possível nos dias de hoje para quem estiver disposto a colocar a mão no bolso. Uma garrafinha de 355 ml do refrigerante pode ser comprada em redes de supermercado e bares por cerca de R$ 2, uma geladeira com design retrô custa em média R$ 8 mil e para brincar de Genius é preciso gastar pelo menos R$ 140.

“São produtos classe A que apesar do design vintage são modernos por dentro e têm bastante tecnologia”, diz Mario Fioretti, gerente-geral de design e inovação da Whirlpool Latin America, dona das marcas Brastemp e Consul. A Brastemp ganhou uma linha retrô de frigobar, geladeira e fogão. “Nossos consumidores querem mais do que uma caixa branca quadrada para refrigerar alimentos”, diz Fioretti. “Eles querem produtos que reflitam sua personalidade”.

Os produtos vintage fazem sucesso há alguns anos em mercados internacionais, mas chegaram ao Brasil recentemente. “Nós costumamos monitorar tendências no comportamento dos consumidores e percebemos que na indústria de bens de consumo brasileira a tendência retrô seria bem sucedida”, diz ele.

Veja alguns produtos da onda retrô:

Apesar de gostar da aparência antiga, o consumidor, no entanto, pede tecnologia. Maior fabricante de brinquedos do Brasil, a Estrela costuma relançar produtos atualizados. “Para nós, o relançamento de brinquedos clássicos é uma pratica comum”, diz Aires Leal Fernandes, diretor de marketing da empresa. “Na maioria das vezes, porém, fazemos modificações, porque as crianças estão muito informadas e ligadas em tecnologia”.

Com a proposta de repaginar os clássicos, a Estrela acaba conquistando pais e filhos. “Os adultos compram o brinquedo porque ele desperta sua própria memória afetiva, e a eletrônica que aplicamos agrada as crianças de hoje”, diz Fernandes. Para o ano que vem, a companhia fará uma exceção e relançará um dos campeões de venda da sua história sem nenhuma modificação. “O Genius vai ser vendido com a mesma embalagem dos anos 80, ele era o brinquedo mais pedido por nossos clientes na central de atendimento”.

Repaginar também foi a palavra de ordem para a Itubaína. “O refrigerante já é um produto tradicional, com 58 anos de mercado”, diz Bruno Piccirello, gerente de produtos não alcoólicos da Brasil Kirin, a antiga Schincariol. “Em 2008, pegamos a originalidade e tradição da marca e decidimos dar uma nova roupagem, propor uma nova experiência de consumo”.

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Apesar de o termo retrô e das referências clássicas utilizadas nas embalagens, a linha foi pensada nos consumidores modernos. “Tem um pouco a ver com lembranças da infância e a remissões do passado, mas a apresentação é bastante jovem”, diz Piccirello. A Itubaína cresceu 58% nas vendas nesse ano. A Brasil Kirin pretende expandir a linha principalmente no estado de São Paulo, berço da bebida e onde ela tem um apelo afetivo maior com os consumidores.

No setor alimentício, a rede de lanchonetes fastfood McDonald’s também quer ganhar consumidores pela nostalgia. Neste mês, em todos os restaurantes da rede que servem café da manhã, o cliente que comprar um combinado de bebida quente, acompanhamento e suco ganha uma peça de jogo americano em estilo vintage.

Os produtos “antigos” estão em todos os setores, do alimentício ao automotivo. “O design vintage não é um modismo, é uma segmentação do comportamento dos consumidores”, diz Fioretti. “Há uma necessidade do mercado de se fragmentar e ter mais ofertas, não é só uma tendência”.

Para o professor de Gestão de Marcas e Marketing estratégico da ESPM, Marcos Bedendo, “as empresas investem na estética antiga por uma questão de diferenciação de mercado”.

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Nesse cenário, são favorecidas empresas que já tinham em suas linhas embalagens tradicionais. Algumas  modernizaram suas linhas de produção, mas mantiveram os pacotes originais disponíveis aos consumidores. “A embalagem de madeira está viva até hoje por ser um resgate de nossa história, ela ainda tem muita aceitação”, diz Alexandre Delmanto, superintendente de marketing da Catupiry, sobre a primeira embalagem do queijo criada há 100 anos. “Os consumidores assimilam o produto a própria história de vida deles, lembram-se de momentos felizes, momentos com a família, ela tem um forte apelo emocional”.

A Catupiry vende 3 mil embalagens de madeira por mês. Ela custa cerca de R$ 15, o mesmo que a embalagem de plástico, e é vendida apenas em lojas próprias da companhia. “Normalmente, são consumidores mais velhos que compram o produto, as gerações mais novas preferem o copo de requeijão ou a embalagem de saquinho”, diz Delmanto.

O mesmo acontece com a Aviação Laticínios, a fabricante da manteiga Aviação. “Ainda vendemos nossa primeira embalagem, mas a refrigeração ganhou espaço e hoje, manteigas refrigeradas vendem mais”, diz Ana Luiza Rezende Pimenta, diretora da companhia. “O consumidor mais tradicional, aquele que via a manteiga na casa do avô, prefere a lata”.

Criada há 92 anos, a embalagem em lata, apesar de não ser a mais vendida, ainda é significativa no faturamento da Aviação. “Ela tem aquele charme e a vantagem enorme de poder ficar fora de geladeira no ponto de venda”, diz Ana Luiza. “As pessoas compram muito, principalmente para decoração”. Apesar de o público cativo, a Aviação vai investir em uma repaginação do produto, assim como a Whirpool, Estrela e Brasil Kirin. “Não sabemos como as pessoas vão receber a mudança”, diz ela. “Vai dar uma mudadinha, para melhor com certeza. Vai continuar retrô, mas com alguns detalhes modernos”.

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