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Em Aalsmeer, perto de Amsterdã, cooperativa FloraHolland comanda um gigantesco leilão de flores e plantas e responde por 60% das exportações mundiais

O preço começa alto, próximo de 100 euros, e cai rapidamente até perto de zero. Enquanto isso, o comprador, geralmente tenso, aperta o botão que trava o ponto vermelho que freneticamente anda pelo círculo no painel eletrônico. Obedecer aos instintos significa pagar caro. Esperar demais é aceitar o jogo e correr o risco de voltar para casa de mãos vazias. Pronto, está feita a oferta.

Aalsmeer, a 14 km de Amsterdã, é o ponto de encontro de quem produz e quem compra flores que serão exportadas ou vendidas na própria Holanda. Diariamente, 22 milhões de unidades passam pelo leilão da FloraHolland, cooperativa de mais de um século de história fincada no quarto maior prédio comercial do mundo, com 990 mil metros quadrados – colosso equivalente a 120 campos de futebol como o do Maracanã.

Cerca de 85% das 12 bilhões de unidades comercializadas anualmente vão para o exterior, o que posiciona a empresa como dona de 60% do comércio internacional de flores e plantas. No último ranking, a Alemanha aparece no topo, seguida por Reino Unido, França, Itália e Bélgica que, segundo dados preliminares de 2012, perdeu a posição para a Rússia.

Os preparativos para montar o quebra-cabeça da cadeia de distribuição começam no dia anterior ao leilão, com a chegada das flores provenientes de oito mil produtores para empacotamento e registro. Muitas “dormem” em câmaras refrigeradas até por volta das seis horas da manhã, quando são inspecionadas e recebem o sinal verde para desfilar num sistema de trilhos que chega à sala do leilão.

“Nosso objetivo é entregar os produtos ao comprador uma hora e meia depois que ele apertar o botão”, diz Lex van Horssen, porta-voz da FloraHolland. Para dar conta do ritmo de 120 mil transações diárias, operadores de dezenas de pequenos electro trekkers (tipo de empilhadeira elétrica) começam um frenético vaivém para separar os carrinhos que comportam cerca de 30 vasos. Dependendo do apetite de quem compra – até mesmo num escritório remoto –, forma-se um trem que pode pesar até três toneladas.

“Um controlador está sempre em contato com os produtores para decidir qual deve ser o preço mínimo”, diz Carola de Vries, responsável pela logística. Quanto mais compradores houver mais cara fica a flor. “Nos feriados bancários há sempre um aumento da procura por certos tipos de flores como crisântemos, que aumentam rapidamente de preço”, afirma.

Culpa da especulação? Jenneke Feddes, chefe da cadeia de distribuição internacional, descarta de imediato. “A negociação é baseada na confiança”, diz sobre o leilão, que apesar de acontecer num ambiente muito parecido com o de uma bolsa de valores, conta com a presença de todas as partes envolvidas: produtor, comprador e as flores, que passam rapidamente sobre trilhos. “Não é como no mercado financeiro tradicional onde o lucro é o primeiro objetivo”.

Rosas são as flores mais negociadas no leilão da FloraHolland, em Aalsmeer
Christopher Furlong/Staff
Rosas são as flores mais negociadas no leilão da FloraHolland, em Aalsmeer

Mas nada na FloraHolland se compara às rosas, que tomam conta dos carrinhos principalmente em fevereiro, por conta do Dia dos Namorados. Elas estão no topo do “Hall da Fama” de Aalsmeer e vendem o triplo de crisântemos, que ficam na vice-liderança, pouco à frente das tulipas, símbolo do país. Tamanho é o volume, que a empresa prospecta produtores no Quênia, a sete mil quilômetros de distância, que se unem à cadeia com o trunfo de oferecer espaço e leis trabalhistas mais flexíveis, segundo Feddes.

Ainda assim, a executiva explica que o maior desafio não está no trato com o produtor, uma vez que a maior parte da produção é interna, mas sim no intrincado processo de distribuição. Para antecipar imprevistos, um sistema de rastreamento permite descobrir qual espécie é levada em cada uma das milhões de caixas transportadas diariamente. “Pelo computador, um produtor pode destinar 80% para o leilão e 20% para vendas diretas e, durante o transporte aéreo, ele muda de opinião e diz uhumm... quero 90% para o leilão e 10% para vendas diretas e todos ficam sabendo”, exemplifica.

A partir do momento que entram nos caminhões, por volta das 10 horas, o processo já está fora das mãos da cooperativa e o silêncio volta aos galpões. “Exportadores conseguem entregar as flores no mesmo dia na maioria dos países da Europa Ocidental, como França e Reino Unido. Em Moscou, na Rússia, provavelmente um pouco depois”, explica van Horssen.

* Viagem a convite da Embaixada do Reino dos Países Baixos

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