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Programadores vendem carro, casa e ficam longe da família para tentar ganhar dinheiro com aplicativos para iPhone ou iPad enquanto a economia dos EUA patina

NYT

Shawn e Stephanie Grimes passaram grande parte dos últimos dois anos realizando o sonho de fazer pesquisa e desenvolvimento para a Apple, a empresa de maior sucesso do mundo.

Mas eles não tinham empregos reais na Apple. Seu trabalho era freelance, e não vinha com renda regular, plano de saúde e plano de aposentadoria. Assim, os Grimes tentaram se preparar desfazendo-se de tudo que pudessem.

Eles venderam um de seus carros, doaram algumas posses a parentes e venderam outras numa venda de garagem, alugaram sua casa de seis quartos e ficaram com a família por um tempo. Eles usaram até mesmo o plano de previdência privada de Shawn.

"Não perdemos o sono por nada disso", disse Shawn Grimes, de 32 anos. "Eu me aposento quando morrer."

O campo escolhido pelo casal é tão novo que nem mesmo existia há alguns anos: programar aplicativos para dispositivos móveis como o iPhone ou iPad. Mesmo com o desemprego seguindo alto e a economia lutando para escapar da sombra da recessão, o setor dos engenheiros de software, incluindo programadores de aplicativos, cresceu 8% em 2010 – chegando a mais de 1 milhão de profissionais, segundo os dados mais recentes do governo sobre a categoria. Hoje, esses engenheiros de software já superam os agricultores, e quase alcançaram os advogados.

A aventura custou a Shawn e Stephanie Grimes US$ 200 mil dólares em economias
Daniel Rosenbaum for The New York Times
A aventura custou a Shawn e Stephanie Grimes US$ 200 mil dólares em economias


Assim como a internet desencadeou a explosão das ponto-com há 15 anos, os aplicativos inspiraram uma nova classe de empreendedores. Esses inovadores transformaram celulares e tablets em ferramentas para descobrir, organizar e controlar o mundo, gerando uma indústria multibilionária praticamente da noite para o dia. O iPhone e iPad possuem cerca de 700 mil aplicativos, de Instagram a Angry Birds.

No entanto, com a economia americana gerando poucas oportunidades nos últimos anos, há um debate sobre quão real e duradouro pode ser esse aumento dos empregos em aplicativos.

Apesar dos rumores de multidões de programadores abrindo empresas milionárias em suas cozinhas, apenas uma pequena minoria de desenvolvedores realmente consegue viver da criação de aplicativos, segundo pesquisas e especialistas. Os Grimes começaram seu empreendimento com altas esperanças, mas seus aplicativos, a maioria para crianças, não foram desenvolvidos com rapidez suficiente, ou não venderam com rapidez suficiente.

E programação não é uma técnica que qualquer um pode aprender. Embora pessoas já empregadas em cargos de tecnologia acrescentem a programação de aplicativos em seus currículos, a profissão oferece poucas opções à maioria dos desempregados, subempregados e funcionários desanimados.

Uma história de sucesso é a de Ethan Nicholas, que ganhou mais de US$ 1 milhão em 2009 após criar um jogo para iPhone. Mas ele diz que o mundo do desenvolvimento de aplicativos experimentou mudanças tectônicas desde então.

"As pessoas podem largar tudo e começar a desenvolver aplicativos? Claro", disse Nicholas, de 34 anos, que largou seu emprego depois que o iShoot, um jogo de artilharia, tornou-se uma sensação. "Elas podem começar a criar bons aplicativos? Geralmente não. Tive sorte com o iShoot, pois naquela época um aplicativo mediano ainda podia fazer sucesso. Mas hoje em dia a concorrência é feroz, e mediano não é mais suficiente."

O crescimento dos aplicativos chega enquanto economistas debatem a natureza mutável do trabalho, que a tecnologia está reformulando num ritmo acelerado. A reviravolta, sob alguns aspectos reminiscente da mecanização da agricultura há um século, iniciou sua fase mais turbulenta com a migração da manufatura de tecnologia a lugares como a China. Agora, empregos em serviços e de colarinho branco, como arquivistas, especialistas em entrada de dados e desenhistas mecânicos estão desaparecendo.

"A tecnologia está sempre destruindo e criando empregos, mas nos últimos anos a destruição parece estar ocorrendo com mais rapidez do que a criação", declarou Erik Brynjolfsson, economista e diretor do Centro de Negócios Digitais do MIT.

Mesmo assim, a transição digital vem criando grandes riquezas e oportunidades. Quatro das empresas mais valiosas dos Estados Unidos – Apple, Google, Microsoft e IBM – têm raízes na tecnologia. E foi a Apple, mais do que qualquer outra, que desencadeou a revolução dos aplicativos com o 

iPhone e o iPad. Desde que a Apple permitiu que os programadores freelance do mundo todo criassem aplicativos, há quatro anos, a empresa lhes pagou mais de US$ 6,5 bilhões em direitos autorais.

No ano passado, estatísticos federais mudaram o título e a composição de uma subcategoria empregatícia para refletir o novo destaque dos aplicativos. E a indústria da tecnologia começou a fazer declarações sobre como os aplicativos estão contribuindo para a economia geral.

Um estudo encomendado pelo grupo TechNet descobri que a "economia de aplicativos" – incluindo Apple, Facebook, Android (Google) e outras plataformas – era responsável, direta e indiretamente, por 446 mil empregos. O estudo usou uma metodologia que pesquisava anúncios de empregos online.

Usando a mesma metodologia, em novembro a Apple afirmou que seu mercado de aplicativos havia gerado 291.250 empregos para a economia americana, tão variados quanto desenvolvedores e motoristas da UPS. Esse número cresceu 39% em menos de um ano. Durante esse período, o número de desenvolvedores americanos pagando a taxa anual de US$ 99 para se registrar na Apple aumentou 10%, atingindo 275 mil. Alguns desses desenvolvedores registrados possuem empregos em tempo integral em outro setor, e programam aplicativos em seu tempo livre.

A Apple se tornou cada vez mais assertiva ao promover os benefícios econômicos dos aplicativos, enquanto sua própria riqueza e proeminência aumentavam e suas práticas de negócios passaram a ser investigadas. A empresa divulgou uma declaração para este artigo, dizendo estar "incrivelmente orgulhosa das oportunidades que a App Store oferece aos desenvolvedores de todos os tamanhos", mas se recusou a responder perguntas.

No encontro anual da empresa, nesta primavera do hemisfério norte, o presidente Tim Cook apontou que, há apenas alguns anos, o termo "aplicativo móvel" nem mesmo existia no vocabulário das pessoas. "Hoje temos esse segmento de empregos enorme, inteiramente novo, que não existia antes", afirmou ele. "A Apple se transformou numa plataforma de empregos."

Segundo Michael Mandel, economista que conduziu o estudo da TechNet, é problemático dividir os dados de empregos como fez a Apple. "A pessoa que cria um aplicativo para a Apple num dia é a mesma que criará para o Android no dia seguinte", explicou ele. "Não se pode somar os números de todos os estudos para obter um número total de empregos."

Além disso, para muitos dos desenvolvedores que não trabalham em empresas tradicionais, o termo "emprego" é um equívoco. A Streaming Color Studios, uma empresa de games, realizou uma pesquisa com desenvolvedores de jogos no ano passado. Os 252 participantes, mesmo não sendo uma amostra cientificamente válida e restringindo-se a um segmento do mercado de aplicativos, indicaram o que muitas pessoas já suspeitavam: o mundo dos aplicativos é uma ecologia inclinada acentuadamente na direção de uns poucos vencedores.

Um quarto dos participantes declarou ter recebido menos de US$ 200 em receita da Apple. Um quarto havia ganhado mais de US$ 30 mil, e 4% haviam recebido mais de US$ 1 milhão.

Alguns aplicativos conseguiram um sucesso estrondoso, como o Instagram, aplicativo de compartilhamento de fotos que foi comprado pelo Facebook, em abril, por US$ 1 bilhão. Quando os desenvolvedores de aplicativos sonham, eles sonham com triunfos como esse.

A maioria dos desenvolvedores, no entanto, ganha dinheiro quando alguém compra ou atualiza seu aplicativo na loja online da Apple, o único lugar onde o consumidor pode comprar um aplicativo para iPhone ou iPad.

A Apple fica com 30% de cada venda. Embora seu relatório de criação de empregos alardeie os US$ 6,5 bilhões que a empresa pagou em direitos autorais, ele não cita que metade desse dinheiro vai para desenvolvedores de fora dos Estados Unidos. O bolo, embora cresça rapidamente, é menor do que parece.

"Meu palpite é que muito poucos desenvolvedores conseguem viver de seus aplicativos", afirmou Jeff Scott, dono do site 148Apps, que analisa aplicativos da Apple e acompanha de perto as novidades do setor.

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