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Executivo Sander van Stiphout, que presta consultoria para arenas como Fonte Nova (BA), das Dunas (RN) e do Grêmio (RS), detalha planos pós-Mundial e diz que rico brasileiro gasta mais que o holandês

Sander van Stiphout, gerente geral da Amstedam ArenA e da ArenA do Brasil
Divulgação
Sander van Stiphout, gerente geral da Amstedam ArenA e da ArenA do Brasil

A venda dos “naming rights”(direito de nome) dos novos estádios brasileiros construídos para Copa do Mundo de 2014 é vista pelos clubes como solução para reforço de caixa e o início do pagamento dos empréstimos. Mas, na avaliação de Sander van Stiphout, gerente-geral da Amsterdam ArenA, empresa que administra o estádio do Ajax, em Amsterdã (Holanda), o montante a ser levantado nos primeiros contratos ficará em no máximo R$ 100 milhões por dez anos de exposição da marca.

O motivo, segundo o executivo, é o incipiente mercado brasileiro de patrocínios para grandes arenas e, por enquanto, seria apenas um sonho chegar perto dos valores obtidos na Europa: o Arsenal assinou em 2004 com a companhia aérea Emirates um contrato de US$ 180 milhões válido por 15 anos, a seguradora alemã Allianz paga US$ 120 milhões por 15 anos na fachada da casa do Bayern de Munique e, mais recentemente, a também empresa de aviação árabe Etihad fechou com o Manchester City por mais de US$ 600 milhões por 10 anos.

No Brasil desde 2005 por meio da empresa Arenas do Brasil, a Amsterdam Arena atua como consultora ao lado de empreiteiras OAS e Odebrecht, responsáveis pelas obras dos estádios da Arena Fonte Nova, em Salvador (BA), da Arena das Dunas, em Natal (RN) e da Arena Grêmio, em Porto Alegre (RS). Tal como acontece na indústria automotiva, onde modelos europeus são reforçados para enfrentar as ruas cheias de buracos, Stiphout diz que a estratégia tem sido adotar a “tropicalização” das técnicas adotadas na Europa tanto na hora de negociar com clientes quanto na formatação de áreas VIPs.

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De acordo com os planos da empresa para a era pós-Copa, a Arena Fonte Nova deve aproveitar sua vocação de entretenimento de Salvador e os grandes públicos do Bahia, enquanto a Arena das Dunas, com ABC e América levando menos de 10 mil pessoas por jogo, terá que se voltar aos negócios, com arquibancadas dando lugar a escritórios.

Leia abaixo a entrevista exclusiva ao iG:

iG - Como vocês vão usar a experiência à frente da Amsterdam Arena nos estádios brasileiros de Natal, de Porto Alegre e de Salvador?
Sander van Stiphout - Desde 2000, temos a Amsterdam ArenA, que é uma empresa de marketing e consultoria e nós temos clientes por todo o mundo. Estamos atuando no Brasil desde 2005, conhecendo pessoas, aprendendo como elas trabalham e saber que nem tudo o que funciona na Holanda funciona no Brasil.

iG - Poderia dar um exemplo?
Sander van Stiphout -
Chamamos isso de “tropicalização”. As áreas VIPs que temos na Europa são dominadas por empresas. É algo muito formal. No Brasil, são para tanto para famílias quanto para empresas.

iG - E amigos dos amigos dos amigos...
Sander van Stiphout -
Sim, e crianças. É diferente, mas é assim que as coisas são e as pessoas esperam serviços de alto nível, porque ricos no Brasil têm muito mais dinheiro que os ricos da Holanda. É uma loucura. Pelo poder de compra que possuem, eles esperam um nível de serviços fantástico e personalizado. E isso é o mais difícil para nos acostumarmos porque aqui [na Holanda] se eu disser “Você quer uma cerveja?”, você pega a cerveja. No Brasil, se pergunto “Você quer uma cerveja?”, respondem: “Ah... cerveja... sim... sim... e isso e aquilo” e querem continuar conversando [esperando para serem servidos].

iG - Como você imagina o crescimento do mercado brasileiro de patrocínios?
Sander van Stiphout - O que vejo agora é um aumento dramático, principalmente para jogadores como o Neymar. Veremos também um grande aumento no patrocínio de estádios porque muitas empresas não querem estar envolvidas com os clubes pelas razões porque eles não são bem-organizados, por exemplo.

iG - Há algum jogador na Europa que acumule dezenas de marcas na carteira de patrocinadores como o Neymar?
Sander van Stiphout - Talvez Cristiano Ronaldo. Mas o que eles fazem é escolher quatro ou cinco do tipo ouro. E não 12 com anúncios por todo canto, comercial aqui, outdoor ali. Isso não é mais valorizado.

iG - E sobre os estádios, quantos milhões os clubes conseguirão agora que a Globo abriu negociações para citar nomes de patrocinadores?
Sander van Stiphout - Vai trazer muito dinheiro, mas o mercado não está tão maduro ainda como nos Estados Unidos e na Alemanha . Os casos da Allianz Arena (Bayern de Munique) e do Emirates Stadium (Arsenal) são exceções. Talvez o Corinthians consiga alguma coisa melhor, mas para todos os clubes é impossível.

iG - Então cifras como R$ 400 milhões são sonho?
Sander van Stiphout - Não acredito nesses números. Acho que uns R$ 100 milhões para um contrato de 10 anos.

iG - Parte do sucesso da Amsterdam ArenA está ligado ao Ajax, time de grande tradição. Em Natal, uma das cidades-sede da Copa, os times estão na segunda divisão. Como isso será resolvido?
Sander van Stiphout - Cada estádio tem de ser analisado cuidadosamente. Por exemplo, na Arena do Grêmio, em Porto Alegre. Temos um clube grande, com bastante dinheiro. Ocasionalmente podemos ter receita com shows e esse estádio vai fazer dinheiro. Em Salvador, teremos o Bahia e talvez o Vitória. O Bahia atrai grande público, mas o poder aquisitivo não é muito grande. Salvador é muita música, diversão. É futebol, é entretenimento. Mais entretenimento do que planejamos para o Grêmio. Em Natal, os times estão na segunda e na terceira divisão, o público é 3 mil pessoas. Um drama. Então, estamos procurando novas maneiras de ganhar dinheiro e vamos reduzir a capacidade de público do estádio após a Copa do Mundo. Atrás dos gols, todas as arquibancadas do segundo andar serão retiradas de modo que a área ganhe livre acesso. Vamos basicamente construir salas comerciais em ambos os lados. No primeiro ano, também serão removidas as arquibancadas móveis e isso vai abrir um grande espaço para escritórios e outros negócios. Mas o mercado ditará o que vai ser feito. Se tiver interesse em salas comerciais, terá salas comerciais. Se repartições públicas quiserem se instalar ali, poderão pagar aluguel. O modelo de negócios é diferente. Continuamos como estádio de futebol, mas serão os negócios do dia-a-dia que pagarão as contas. E não o futebol.

Veja fotos das obras e das projeções dos estádios Arena das Dunas e Arena Fonte Nova


iG - Quem vai custear essa mudança?
Sander van Stiphout - A construção completa do estádio está dentro do orçamento da Copa, do BNDES, etc. Após a Copa, vamos ter de demolir as arquibancadas que já foram planejadas para serem usadas apenas temporariamente. Não vamos construir nada até o momento em que alguém diga “Sim, gostaria do meu escritório ali”.

iG - Como é lidar com presidentes de clubes que, no fim das contas, se destacam por ter péssima reputação?
Sander van Stiphout - Trabalhamos com clubes no passado, mas agora estamos com as construtoras. Em Natal, com a Odebrecht. Em Salvador e em Porto Alegre, com a OAS. Mas um clube como o Grêmio tem uma boa administração, o Bahia tem espaço para melhorar. O profissionalismo está ali, mas sempre há espaço para ir além. Até agora tem sido bem ok, porque estamos envolvidos com as PPPs (Parcerias Público-Privadas) em Natal e em Salvador. E existe um contrato muito rígido entre os clubes e a Odebrecht ou a OAS. Não é do tipo “decido amanhã”. Mas sabemos que vamos encontrar problemas como “Este é meu filho... não tenho ingressos para ele...”. Isso acontece a todo instante.

iG - A pouco tempo da Copa do Mundo, os preços de ingressos no Brasil tem aumentado para o padrão europeu, mas estádios não oferecem qualquer conforto. Como você imagina a situação pós-2014?
Sander van Stiphout -
Teremos com certeza mais níveis de preços de ingressos. Muitos dos novos estádios não vão viver completamente lotados. Se você analisar o Corinthians [que na Libertadores chegou a cobrar R$ 500 por ingressos] no Pacaembu é diferente. Claro que sempre vai haver alguns jogos em que o preço vai subir. Agora, olhe o Bahia em Salvador: é um estádio para 50 mil lugares! Jogos menores não vão vender todos os ingressos. Os novos estádios vão ter mais níveis de arquibancadas, mais tipos de ingressos e serão mais bem adaptados ao mercado e darão maior retorno para o torcedor. Com os estádios de agora, temos poucos assentos com maior comodidade e então o preço é maior. E as pessoas estão dispostas a pagar mais, mesmo sem ter nada em troca.

iG - Qual o preço do ingresso médio na Amsterdam ArenA?
Sander van Stiphout - Não é tão caro. Para um jogo do campeonato holandês varia entre 60 e 70 euros. É um pouco maior que no PSV (Em Eindhoven, os ingressos partem de 35 euros). A questão é que nossos ingressos mais caros são bem mais caros.

* Viagem a convite da Embaixada do Reino dos Países Baixos


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