Tamanho do texto

Magnata Wang Jianlin está assumindo a AMC Entertainment, segunda maior cadeia de cinemas dos EUA, para integrá-la a uma nova marca "made in China", a Wanda Group

Pequim – Os estúdios de Hollywood, que enfrentam profundos desafios no mercado de cinema norte-americano, vêm desenvolvendo um interesse maior pela China.

A Walt Disney Company e a Marvel Studios estão produzindo "Homem de Ferro 3" na China, a News Corporation comprou recentemente uma parte do Bona Film Group, em Pequim, e um acordo com autoridades chinesas permitirá que mais empresas americanas distribuam mais filmes – e colham uma fatia maior da bilheteria – na China, o maior mercado do mundo.

Mas pelo menos um empresário bilionário está apostando que o mercado de filmes nos Estados Unidos ainda é o segredo para o sucesso internacional. E ele é chinês.

Wang, de 57 anos, é considerado um dos mais bem sucedidos empresários do mercado imobiliário na China
New York Times
Wang, de 57 anos, é considerado um dos mais bem sucedidos empresários do mercado imobiliário na China

O magnata Wang Jianlin está assumindo a AMC Entertainment, a segunda maior cadeia de cinemas americana, atrás da Regal Entertainment. E ele prometeu integrá-la a uma nova marca global "made in China", chamada Wanda Group.

Wang, de 57 anos, é considerado um dos mais bem sucedidos empresários do mercado imobiliário na China. Seu império de US$ 17 bilhões inclui enormes empreendimentos imobiliários comerciais, hotéis cinco estrelas, resorts turísticos, uma produtora de cinema e televisão e a maior rede de cinemas da Ásia.

Leia ainda:  Novos bilionários fazem da China o maior mercado de carros de luxo do mundo

Agora, ao investir US$ 2,6 bilhões para adquirir a AMC, o Wanda Group está ampliando seu alcance global. O acordo, anunciado em 20 de maio, ainda está sujeito à aprovação dos órgãos reguladores americanos, embora não haja indícios de quaisquer problemas. A compra significa uma nova era para Wang e para o desenvolvimento da China. As empresas daqui estão se afastando da produção de baixo custo e voltando-se para o estrangeiro em busca de recursos naturais e marcas globais de consumo – parte de um esforço para aprimorar a economia da nação. 

"Já estamos em negociações", afirmou ele.

A Wanda é uma empresa privada num país dominado por empreendimentos públicos. Mas o negócio da AMC está intimamente alinhado às prioridades do governo da China, que incluem estimular empresas chinesas a "tornarem-se globais", forçar uma reformulação na mídia chinesa e colocar maior ênfase sobre os gastos do consumidor.

Investimento de US$ 2,6 bilhões para adquirir a AMC significa uma nova era para a Wanda, empresa de Wang
New York Times
Investimento de US$ 2,6 bilhões para adquirir a AMC significa uma nova era para a Wanda, empresa de Wang

 Numa entrevista em seu espaçoso escritório em Pequim, Wang, presidente da Wanda, declarou estar ponderando sobre seu próximo destino internacional: a Europa.

Veja também:  Bilionário chinês é condenado a 14 anos de prisão

Os legisladores de Pequim também querem fortalecer as funcionalidades de "poder leve" da China, para estender sua influência cultural internacionalmente – e a indústria de filmes é considerada uma das melhores áreas para isso.

Segundo analistas, porém, ainda é discutível se a Wanda, empresa de apenas 24 anos com pouca experiência internacional, conseguirá alcançar o sucesso numa aquisição desse porte e criar uma propriedade global e uma marca de entretenimento.

"A China possui ótimos empreendedores", afirmou Duncan Clark, presidente da BDA China, firma de consultoria de investimentos localizada em Pequim. "Mas a dúvida é a seguinte: como eles tornarão essas empresas internacionais? Será que eles estão dispostos a aprender e se adaptar?"

Ex-oficial do exército, Wang transformou um pequeno negócio imobiliário numa marca nacional
NYT
Ex-oficial do exército, Wang transformou um pequeno negócio imobiliário numa marca nacional

Um dos maiores experimentos nessa área está sendo realizado por Wang, um ex-oficial do exército que transformou um pequeno negócio imobiliário numa marca nacional. A Wanda, que começou em Dalian, uma cidade do nordeste, e mudou sua sede para o Wanda Plaza, em Pequim, é um colosso com 17 milhões de metros quadrados de terras em incorporação ou operação.

Leia mais:  Conheça os dez maiores bilionários da China

Em 1988, Wang – que entrou para o exército aos 15 anos, após o ensino médio – conta ter abandonado um emprego de funcionário público em Dalian e emprestado US$ 80 mil para abrir uma empresa – que hoje ele descreve como um "elefante correndo".

Wang Yongping, fundador da Associação Imobiliária Comercial da China, descreveu o presidente da Wanda como geralmente um passo à frente dos outros barões imobiliários chineses.

"Ele sempre tem uma visão", disse Yongping. "Quando todos estavam trabalhando com residências, ele passou a focar em propriedades comerciais. Quando todos estavam atrás de propriedades comerciais, ele estava de olho em cultura e turismo – as indústrias que o governo vem enfatizando e cultivando."

O fato de poucas empresas chinesas terem conseguido estabelecer marcas globais não preocupa o presidente da Wanda. E comprar participação numa empresa focada numa experiência fundamentalmente americana – ir ao cinema – não pareceu muito assustador para um homem que sobreviveu à Revolução Cultural, um período de loucura social e política na China.

Veja mais:  "Sou muito ocupado para pensar em luxo", diz mais rico da China

"Para definir metas e executar uma estratégia, a Wanda é sofisticada", explicou Wang, o presidente. "Temos bons sistemas e departamentos. Se um alvo não é atingido, uma luz amarela se apaga."

Mas Wang diz que geralmente acerta seus alvos. A empresa demonstrou um crescimento de 30% no ano passado, mesmo num mercado em baixa. E ele promete que, até 2015, o Wanda Group terá uma receita total de cerca de US$ 30 bilhões.

O que levanta a questão: por que investir no mercado americano de cinema num momento de crise, quando as bilheterias estão fracas e os produtores americanos começam a se voltar-se para a China?

Alguns analistas sugeriram que a aquisição da AMC por Wang seria uma ação política, um esforço para bajular líderes chineses – que pressionam a nação para aumentar sua influência através da exportação de produtos culturais. Outros alegam que Wang está ansioso por se estabelecer como o primeiro chefe corporativo global da China.

"Para ele, essa compra é como uma mensagem", afirmou um executivo familiarizado com as conversas entre Wanda e AMC, mas sem autorização para discuti-las. "Ele está saindo da China, e esta é uma área pela qual ele tem grande interesse. Ele enfatizou que deseja aprender como os cinemas são operados nos EUA. Não se trata apenas de dinheiro."

Para concretizar a compra, porém, a Wanda precisou de muito capital: mais de US$ 3 bilhões em dinheiro, incluindo US$ 500 milhões que deverão ser investidos na AMC na América do Norte. Financiar uma transação dessa magnitude num ambiente de crédito difícil, e com o mercado imobiliário na China em meio a uma recessão, foi uma façanha e tanto. No fim, grande parte do dinheiro veio dos grandes bancos estatais chineses.

Para assegurar a realização do negócio, Wang prometeu manter a gestão da AMC com incentivos econômicos em longo prazo e investir fortemente na renovação de antigos cinemas americanos, num esforço para impulsionar a receita.

Indagado se a AMC exibiria filmes considerados ofensivos pelo governo chinês, como um enredo tratando das rebeliões no Tibete, Wang garantiu que não interferirá nas decisões de sua equipe de gestão nos Estados Unidos.

Ele também descartou as especulações de que seus vínculos com Bo Xilai, antigo líder do Politburo que também começou a carreira em Dalian, pudesse prejudicar o Wanda Group.

"Nós nos conhecíamos e tínhamos bastante familiaridade um com o outro", declarou ele. "Mas era apenas uma relação de trabalho. Não havia um relacionamento pessoal."

Segundo ele, o governo não pediu para investigar o grupo.

Ao longo da entrevista, Wang – que se expressou de maneira calma e tranquila, ocasionalmente girando os polegares – disse estar focando em alvos e executando estratégias, com rapidez.

Comprar um estúdio de filmes em Hollywood não está em seus planos, mas ele não descarta nenhuma ideia. Os alvos mais prováveis, explicou ele, seriam hotéis e shoppings nos Estados Unidos.

"Não temos a estratégia de nos tornarmos globais no mercado imobiliário", disse ele. "Mas para nos globalizarmos e irmos para fora, gostaríamos de comprar hotéis e empresas de gestão de hotéis. Também gostamos de lojas de departamentos."

(Por David Barboza)


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.