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Pacote com juros menores do BB, BNDES e Caixa pode obrigar banco privado cortar spread para ajudar governo a corrigir alta no IOF

Em meio ao embate entre o governo federal e os bancos privados sobre a redução do spread (a diferença entre os juros pagos aos clientes e o cobrado pelas instituições financeiras para emprestar o dinheiro de seus poupadores), o Planalto tomou um atalho para ampliar o crédito rápido que as empresas precisam para cobrir despesas de caixa de curto prazo, o chamado capital de giro.

O resultado foi uma turbinada de R$44,8 bilhões nas linhas de giro operadas pelo Banco do Brasil (BB), Caixa Econômica Federal (CEF) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O montante foi anunciado separadamente no intervalo de uma semana (veja o gráfico abaixo), em ação coordenada pelo ministro Guido Mantega (Fazenda) para mostrar às empresas que o governo está atento à enxugada no crédito das instituições privadas. "O custo de capital de giro é talvez o mais alto para as empresas", reconheceu o ministro nesta terça-feira. "Esperamos que os bancos privados também ampliem financiamento para capital de giro", indicou Mantega.

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GIRO MAIOR
Em semana de pressão do Planalto para bancos privados baixarem juros, estatais turbinam linhas de capital de giro destinado ao caixa das empresas. Veja o aporte de crédito por banco em R$ bilhões

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Fonte: BB, BNDES e CEF

A ação dos bancos representa um aumento de 14% sobre os R$ 315 bilhões concendidos pelo sistema financeiro do país em capital de giro em 2011, conforme o Banco Central. A oferta maior deve elevar também o peso estatal na projeção de crédito para 2012. Em fevereiro, 43,8% de todo o dinheiro emprestrado no Brasil saiu de bancos públicos.

Do ponto de vista negativo, na avaliação do economista Douglas Uemura, da LCA Consultoria, a levação do capital de giro pode ser acompanhada pelo crescimento da inadimplência por parte das empresas.

Segundo ele, em 2008 apenas 1% do dinheiro tomado pelas companhias para facilitar o fluxo de caixa não era pago. Em 2012, a taxa de inadimplência atingiu 4%. "É um nível historiamente alto. A inadimplência subiu durante a crise de 2008 e, desde junho de 2009, está acima de 3%. Houve uma piora na qualidade do crédito [repassado às empresas], com uma concessão de pouca qualidade para um número maior de maus pagadores", diz.

A maior disposição de recursos foi anunciada por BB, BNDES e CEF com uma redução expressiva nas taxas de juros. A Caixa Econômica, por exemplo, reduziu em 68% a sua taxa para empréstimos de giro, que passaram a ter alíquota mensal de 0,94%.

Cortes como esse são vistos como uma tentantiva do governo de pressionar os bancos privados a também reduzirem suas taxas. "Pode ser um passo em falso dos bancos públicos", avalia Uemura. "Os bancos privados podem acompanhar de longe essa redução para não perder mercado, mas não vão competir com os públicos por causa da inadimplência alta", afirma o economista sênior da LCA.

Leia também: Banco do Brasil coloca mais R$ 43 bi em linhas de crédito

JUROS MENOR
Junto com o crédito maior, taxas ficam menores para pressionar os bancos privados baixarem spread
3 de abril BNDES Corta em 1,5% as taxas do Progeren, programa de crédito para capital de giro
Novas taxas ficam entre 9% e 11,5% ao ano
4 de abril Banco do Brasil Diminui alíquota em 15%
Juro mensal passa a ser 0,96%
9 de abril Caixa Econômica Reduz em 68,7% as taxas do Giro CAIXA Fácil
Taxa fica em 0,94% ao mês
Fonte: BB, BNDES, CEF

Compensar IOF
O corte nas taxas de empréstimo para empresas é aponta também como uma forma de o Planalto compensar as empresas por ter dificultado a captação de recursos no exterior após promover aumentos sucessivos no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) - ação realizada para diminuir os efeitos da entrada de moeda estrangeira sobre o câmbio.

Para Alberto Borges Matias, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEARP/USP), a desvalorização cambial e a cobrança de IOF encareceu a captação fora do país e, com isso, o acesso às linhas públicas de capital de giro se torna essencial."Com as taxas de bancos privados mais altas, acaba sendo melhor recorrer aos públicos”, compara.

O economista, que também é presidente do Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inepad), considera que as empresas brasileiras, principalmente as menores, com mais dificuldade em captar no exterior, devem ficar animadas com o reforço de crédito das instituições públicas.

As pequenas e médias são o foco de Banco do Brasil e Caixa, que juntos colocam R$ 34,8 bilhões em linhas para esse nicho empresarial. “Queremos melhorar o relacionamento com as micro, pequenas e médias empresas”, afirma o presidente da Caxia, Jorge Hereda, após reforçar em R$ 8 bilhões o giro e indicar a meta de atingir 680 mil companhias com repasse de até R$ 1 milhão para cada uma.

O maior beneficiado poderá ser o setor de comércio, cujo fluxo de caixa é vital para abastecer estoques e oferecer pagamento com prazo maior aos consumidores. "O capital de giro é importante principalmente para o pequeno comerciante, que com dinheiro mais barato pode comprar com 30 dias e vender com 120, por exemplo", observa o presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), Roque Pellizzaro.

Para as grandes empresas, o BNDES elevou o estoque de crédito da linha Progeren. O programa de capital de giro da instituição passou de R$ 5 bilhões para R$ 15 bilhões. "O crédito ficou mais apertado por causa do aumento no IOF, mas deve aliviar um pouco com a redução dos juros pelos bancos públicos e os cortes na Selic", observa Uemura, da LCA Consultoria.

Redução tributária e no compulsório ajudaria mais
Apesar da redução nos juros via bancos controlados pelo governo federal, o peso da carga tributária pode fazer os resultados da investida coordenada pelo Ministério da Fazenda não render os resultados desejados. A interpretação é do economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini.

Segundo ele, com uma fatia de 25% de participação na composição do spread, impostos e tributos dificultam uma maior facilitação de crédito no país a preços mais baratos. "É uma parcela que o governo poderia diminuir. Não adianta acionar os bancos públicos se o governo não reduzir o peso dele no custo do crédito", critica Agostini. "A cada real que o governo coloca no crédito, ele ganha uma parte em retorno tributário", diz.

O economista da Austin indica a redução do depósito compulsório (reserva que o bancos têm de fazer no BC para garantir suas operações financeiras) como a ferramenta mais eficaz para puxar o spread bancário do setor privado para baixo. Hoje, a margem do compulsório à vista (dinheiro em caixa nos bancos) é de 43% e 20% no a prazo (captações por meio de títulos, como CBD). "Não existe no mundo uma tarifa de compulsório igual a do Brasil", comenta Agostini.

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