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Ato por mais transparência no principal centro financeiro do mundo foi organizado pelo artista Zefrey Throwell

Era uma manhã de segunda-feira como qualquer outra em Wall Street. Antes da maioria dos financistas chegarem para trabalhar, veio um exército de ajudantes: office boys, personal trainers ou assistentes que fazem a rua do dinheiro funcionar sem problemas. Eles marchavam ao longo das calçadas, com pressa de começar a sua jornada de trabalho.

Aqui e ali, no entanto, algumas pessoas diminuíam o passo, como o operador da bolsa brandindo em seu celular na calma antes da abertura do mercado. Ele fez uma pausa para soltar sua gravata. Desabotoar a camisa. Tirar as calças.

"Ele está nu! Senhor, tem piedade", disse uma mulher, parando para se embasbacar, julgar em voz alta e então fotografar.

Manifestantes tiram a roupa durante protesto em Wall Street, em frente à Bolsa de Nova York
Michael Nagle/The New York Times
Manifestantes tiram a roupa durante protesto em Wall Street, em frente à Bolsa de Nova York

Segundos depois das sete horas na segunda-feira, calças caíram e saias foram levantadas ao longo de toda a Wall Street. A nudez coletiva fazia parte de uma performance artística, a "Ocularpation: Wall Street," do artista Zefrey Throwell. Ele a concebeu como um comentário sobre o trabalho e a economia, no entanto, isso não foi percebido pelos policiais estacionados perto da Bolsa de Valores de Nova York.

Lá, três pessoas – dois homens e uma mulher (pouco) vestidos como um corretor da bolsa, um zelador e uma caminhadora de cães – foram presos e levados para uma delegacia próxima, onde receberam uma intimação por conduta desordeira e foram libertados mais tarde. Às 07h05, os outros 46 homens e mulheres que faziam parte do projeto simplesmente haviam colocado suas roupas e seguido em frente com o seu dia. Throwell, que também participou – ele estava vestido como um vendedor de cachorro-quente antes de despir-se – pronunciou a obra um sucesso e foi para a delegacia para cuidar de seus colegas.

"É como um acontecimento Fluxus – é algo que faz cair o queixo porque acontece neste momento e isso nunca vai acontecer novamente", disse Argot Murelius, uma escritora de arte de 43 anos de idade, que participou, com sua lingerie de renda preta aparecendo por baixo de seu agasalho rosa (Seu papel na peça: prostituta).

Para Throwell, 35, o projeto esteve em gestação por um bom tempo. Ele explicou o projeto num café no Bryant Park, na semana passada. Foi "uma tentativa de ensino", disse ele, "para dar mais transparência a Wall Street, uma rua que é tão misteriosa."Contando com o medo comum de aparecer nu em público, ele esperava criar "um pesadelo freudiano absurdo" de nudez: "Wall Street, exposta", explicou.

A ideia surgiu depois de conversas com sua mãe, Jan Elliott, que se aposentou como conselheira do ensino médio em Corvallis, Oregon, apenas para ver o seu ninho desaparecer na crise financeira de 2008, ela foi forçada a voltar ao trabalho para sobreviver. Na mesma época, Throwell ganhava a vida em um cubículo pela primeira vez, como despachante aduaneiro, em São Francisco: "Um dos trabalhos mais kafkanianos que eu já tive", disse ele, "era como entrar no vazio por oito horas. Era horrível. Eu nunca tinha sido escravizado pelo trabalho antes”.

Em uma versão anterior de "Ocularpation”, criada para apenas um homem, Throwell se sentou nu atrás de uma mesa no distrito financeiro de São Francisco por 10 minutos, parte de uma série de obras que questionam a cultura de consumo e os negócios. As autoridades nem sequer olharam. Ele se mudou para Nova York em 2008, onde seus projetos levaram à prisão mais de uma vez, ele disse – mas isso não é surpreendente para um artista que considera tem como inspiração o absurdo comediante Andy Kaufman.

Manifestante nú protesta em rua de Nova York: pedido de mais transparência no principal centro financeiro do mundo
Michael Nagle/The New York Times
Manifestante nú protesta em rua de Nova York: pedido de mais transparência no principal centro financeiro do mundo
Throwell, um admirador do grupo Improv Everywhere, também encenou uma olimpíada do trabalhador de escritório no centro de Manhattan, com eventos como o mergulho de 50 metros (realizada em uma fonte). Em "New York City Paints Better Than Me" (A Cidade de Nova York Pinta Melhor do que Eu, em tradução literal), ele vestiu um macacão branco e se arrastou pelas ruas, tornando-se uma tela para o lixo e lodo das ruas da cidade.

Throwell estudou pintura, mas se sustenta como fotógrafo e cineasta, ele também cuida do Engineer’s Office, uma galeria muito pequena numa sala antes desativada no porão do Rockefeller Center. "Nada está à venda", disse ele, "e tudo é jogado fora por um zelador de tempo em tempo."

Embora Throwell queira avançar os limites de forma criativa, ele disse que não busca desprezar as leis com o seu trabalho.

"Eu vejo minha arte como algo paralegal, que opera juntamente com a lei, em muitos casos", disse ele. "Não é necessariamente ilegal dar 100 buzinas de ar às pessoas e conduzir uma sinfonia na rua e usar o edifício como o ressonador. É mais paralegal, uma área cinzenta."

Para "Ocularpation" Throwell recebeu o uso de um espaço de trabalho no número 14 da Wall Street por meio de um programa patrocinado pelo Conselho Cultural da cidade. Além da residência, "o Conselho não forneceu quaisquer subsídios financeiros ou apoio para a produção de 'Ocularpation: Wall Street", disse um porta-voz do conselho. Estar lá permitiu que Throwell buscasse entender a área – sua pesquisa não científica revelou uma força de trabalho em desacordo com o que as pessoas poderiam esperar.

"Crianças em Calcutá e crianças em Tulsa estão falando sobre Wall Street, mas elas nunca estiveram lá, e não sabem que há uma loja da Tiffany’s", disse ele, ou "que não há mais lojas de sanduíche do que os bancos, que há mais academias em funcionamento lá do que negociação de ações”.

Ele disse acreditar que desmistificar a rua seria o primeiro passo em educar as pessoas sobre a realidade do sistema financeiro, ao mesmo tempo que serviria como uma crítica.

Encontrar pessoas não foi um problema. Throwell primeiro entrou em contato com artistas de Nova York e "e eu achei uma organização que eu amo muito agora, chamada Jovens Naturistas e Nudistas de Nova York", disse ele. "Eles são um grupo divertido." (Perguntado por que ele escolheu essa época para o projeto, ele respondeu: "Porque está quente.")

Roger Gindi, 59, membro do grupo, fez o papel de um zelador em "Ocularpation". Vestindo apenas uma faixa amarela, ele cuidadosamente esfregou parte da rua.

"Eu gosto deste tipo de arte participativa", disse Gindi, um veterano de várias fotos nuas no trabalho de Spencer Tunick, produtor da Broadway quando está vestido.

Embora Throwell esperasse que o público iria ligar os trabalhadores nus de Wall Street com a economia, a maioria não chegou a tanto. Diante de uma mulher tirando o sutiã e a calcinha enquanto ela falava em um fone de ouvido sobre a encomenda de uma caixa de champanhe para seu chefe, ou de um homem, com tudo pendurado, fazendo uma aula de aeróbica invisível na calçada, os transeuntes simplesmente sacavam seus telefones com câmera.

"É um comercial", disse alguém. "Algum tipo de peça," uma outra pessoa se aventurou. "A coisa mais louca que eu já vi aqui", ofereceu um terceiro.

"É uma declaração?", perguntou Aileen Carson, uma assessora de saúde que parou para apreciar a cena. "O que eles estão tentando dizer?" Seja o que fosse, ela gostou. "Eles tiveram a ousadia de fazê-lo, o que eu admiro", disse ela, observando os corpos. "Parece que eles estão livres."

Korey Smith, um vendedor de jornais da estação de metrô de Wall Street, assistiu ao processo apenas como um nova-iorquino pode.

"Tem havido uma grande quantidade de nudez neste verão", observou. "Esse é o tema deste ano. Eu nem estou chocado."

Uma pessoa que entendeu o objetivo do trabalho, já que ajudou a inspirá-lo, foi a mãe de Throwell, cujo apoio materno teve um certo limite.

"Meu filho é muito criativo", disse Elliott por telefone. "Estou só um pouco mais pudica".

Ela não estava presente em Wall Street na manhã de segunda-feira.

"Ela não necessariamente concorda com isso", disse Throwell. "Mas ela disse que aprecia o pensamento."

* Por Melena Ryzik