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Preços de imóveis usados na capital argentina batem recorde de alta. Desconfiada dos bancos, população prefere imóveis e dólares

O prédio antiquíssimo está instalado na chamada “esquina imobiliária” de Buenos Aires, entre as ruas Callao e Heras, no chique bairro da Recoleta. O piso do lobby é de mármore e o elevador, bem preservado, ainda tem estrutura vazada e se abre com porta pantográfica. No quarto andar do tradicional endereço está a companhia de imóveis Toribio Achával. Fundada em 1955, tem como clientes Nike, General Motors e Nestlé e é difícil andar pela capital da Argentina sem ver placas de vende-se ou aluga-se com sua marca.

Imóvel em Palermo, bairro com a maior valorização do ano passado
Getty Images
Imóvel em Palermo, bairro com a maior valorização do ano passado
A sala de reuniões tem pássaros empalhados e paredes forradas de madeira, com enormes janelas. A tradicional empresa vem se beneficiando de um bom momento para uma situação que é muito própria da cultura Argentina. Com o crescimento econômico e o dinheiro vindo do agronegócio, os clientes não buscam bancos para aplicar seus recursos: buscam imóveis ou dólares. Há dez anos, a Toribio Achával tinha 50 empregados. Hoje, são 180.

Na Argentina, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (Cepal) classificou como notável a alta nas vendas agropecuárias, de 44% no primeiro semestre de 2010 (segundo últimos dados disponíveis). “Em muitas corretoras, os principais clientes são pessoas do interior do país, que estão ganhando mais com as colheitas e investindo esse dinheiro em imóveis”, diz German Gomez Picasso, um dos sócios do Reporte Inmobiliário, que concentra todas as informações sobre negociações de imóveis no país.

Sergio Bernasconi, gerente de consultoria da Toríbio Achával, conta que argentinos tem tradição de não confiar em bancos. Versão facilmente corroborada por um passeio e algumas conversas em Buenos Aires: é fácil ouvir histórias de pessoas que trocam seus pesos por dólares e os escondem nos cantos mais inusitados das casas. Há quem enterre o dinheiro no quintal, ou quem guarde as economias de uma vida toda no aquecedor. Há inclusive bancos especializados em trocar as notas que, por acidente, são queimadas quando chega o inverno e a esposa desavisada liga o aquecedor onde o marido escondeu as economias da família.

“É paradigmático. O argentino investe em imóveis ou em dólares”, diz Bernasconi. Em 2010, foi registrado um novo recorde no valor dos imóveis usados residenciais na cidade de Buenos Aires. O aumento nos preços acontece de maneira ininterrupta desde 2003, marcando oito anos seguidos de alta.

Argentinos não confiam em bancos, conta Bernasconi
Aline Cury Zampieri/iG
Argentinos não confiam em bancos, conta Bernasconi
Os preços dos apartamentos usados em Buenos Aires também estão 40% mais altos, em dólares, do que na década de 1990. Levantamento do Reporte Inmobiliário mostra que os preços de vendas de apartamentos usados chegaram a subir até 23% em dólares em 2010, na comparação com o ano anterior.

A alta média foi de 8%, sendo que o bairro de maior valorização foi Palermo, que está na moda e se desenvolve rapidamente. Durante 2010, o preço médio do metro quadrado nos bairros portenhos teve alta de 7,74%. Mas os aumentos tiveram variações segundo bairros, e chegaram a mais de 20%. Também cresceu a janela entre o metro quadrado mais barato e o mais caro, passando de 42,9% em 2009 para 53,2%.

No Brasil, locomotiva do crescimento dos vizinhos do Mercosul, os preços dos imóveis subiram ainda mais. De acordo com o índice FipeZap, no acumulado dos 12 últimos meses, os valores dos imóveis na cidade de São Paulo tiveram alta de 24%, enquanto, no Rio de Janeiro, a valorização foi de 40,5%. Em Belo Horizonte, o indicador saltou 16,6%.

“A atividade imobiliária em Buenos Aires está fortemente ligada a investimento”, diz German Gomez Picasso, um dos sócios do Reporte Inmobiliário. “A mesma coisa não acontece nos imóveis de médio e médio baixo padrão, que não possuem crédito hipotecário.” Segundo ele, quem tem dinheiro sobrando vai direto ao setor imobiliário. “O argentino sempre cota tudo em dólares. Hoje em dia, se eu tenho um imóvel, tenho dólar.”

Para ele, essa preferência pelo colchão recheado de dólares ou pela casa investimento tem dois motivos básicos: crises financeiras recorrentes e um componente cultural. “Depois dos corralitos em 2001 e 2002, quem ainda colocava dinheiro em banco desistiu.” Os corralitos foram congelamentos de retirada de dinheiro dos bancos, a exemplo do plano Collor. A questão cultural vem da imigração. Para Picasso, a forte colonização italiana e espanhola traçou o perfil aplicador argentino. “São culturas com forte sentido de propriedade.”

Na semana em que se completam 20 anos da assinatura do Tratado de Assunção, que consolidou a criação do Mercosul, o iG convida o leitor a descobrir como paraguaios, uruguaios e argentinos estão saboreando o melhor momento econômico das últimas décadas. Na primeira série de reportagens do projeto Expedições iG, você entenderá como o controle da inflação, a democracia e o crescimento contínuo do Brasil estão mudando a vida de pessoas e empresas dos nossos mais próximos vizinhos.

Veja as principais reportagens da série:

O Brasil cresce e muda a vida de pessoas e empresas do Mercosul
Soja se consolida entre vizinhos e ajuda Mercosul a crescer
Transferência de renda ajuda Mercosul a driblar a crise