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SÃO PAULO - Depois de ganhar 6,5% na semana passada, o dólar comercial registrou a maior queda percentual diária desde o final de 2008. Em forte baixa desde o começo dos negócios, a moeda caiu 3,99%, para fechar a R$ 1,775 na compra e R$ 1,777 na venda.

SÃO PAULO - Depois de ganhar 6,5% na semana passada, o dólar comercial registrou a maior queda percentual diária desde o final de 2008. Em forte baixa desde o começo dos negócios, a moeda caiu 3,99%, para fechar a R$ 1,775 na compra e R$ 1,777 na venda. O dólar não caía tanto desde 24 de novembro de 2008, quando afundou 5,41%. Na roda de "pronto" da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar recuou 3,87%, para também fechar a R$ 1,777 O volume foi de US$ 82,5 milhões, 20% maior que o observado na sexta-feira Já no interbancário, o giro estimado ficou em US$ 1,7 bilhão. Segundo o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, o mercado voltou à realidade com o anúncio do plano de socorro de 750 bilhões de euros que serão utilizados de garantia de empréstimos na zona do euro. Segundo o gerente, era sabido que existia um certo exagero nos preços da semana passada em função da irracionalidade que tomou contar do mercado. Ainda mais depois do tombo intradia que as bolsas e outros ativos registraram na quinta-feira. "Tinha certo despropósito na taxa, pois não se sabia o que viria a acontecer no caso de um default grego. Hoje, o mercado voltou à realidade", diz o especialista. Ainda de acordo com Galhardo, o plano anunciado na Europa conteve a preocupação de contágio da crise grega no restante da Europa. A preocupação que fica, agora, é que essas economias mal saíram de uma recessão e já terão que fazer rígidos controles fiscais. Segundo o gerente de operações da Terra Futuros, Arnaldo Puccinelli, o acordo europeu é bom, mas não dá para se animar muito, já que o que se vê pela frente é menor crescimento na Europa. A questão, segundo o especialista, é que as restrições fiscais, que são contrapartida do plano, indicam que os países não terão chance de recuperação, pois estarão comprometidos nos próximos anos em pagar o serviço da dívida. "Por enquanto, não podemos falar em solução. Temos que avaliar o impacto futuro das decisões tomadas", pondera Puccinelli. Com outra abordagem, o sócio da consultoria Wagner Investimentos, Milton Wagner, nota que o programa de socorro ao euro anunciado na zona do euro afastou o mercado de pontos de inflexão críticos, que poderiam levar a forte valorização do dólar e uma derrocada na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Tomando como base um modelo quantitativo que consegue captar o posicionamento dos grandes agentes de mercado, Wagner aponta que os ativos brasileiros se afastaram do ponto de reversão de tendência de logo prazo. Portanto, teoricamente, o viés segue de alta para a Bovespa e de queda para o dólar. No entanto, pondera o especialista, no curto prazo o mercado ainda está desconfiado com a eficácia do plano europeu. "Uma coisa é tomar medidas outra é executar", diz Wagner, lembrado que a implementação de ações na Europa não é uma coisa tão simples. O mercado transpareceu isso, segundo Wagner, por meio do comportamento da relação dólar/euro e pelo VIX, índice que mede a volatilidade das opções de ações nos EUA é vista como um termômetro da aversão ao risco. No caso do euro, Wagner mostra que a reação ao plano foi pouco duradoura, a taxa subiu acima de US$ 1,30 no começo do dia, mas já voltou a rondar a linha de US$ 1,27 observada na sexta-feira. Segundo especialista isso se deve, também, ao fato do programa de ajuda resultar em emissão de moeda, o que significa maior oferta de moeda. Já o VIX, embora tenha recuado bastante, segue oscilando acima da linha de 30%, o que é considerado bastante elevado.Essa posição de alívio imediato, mas de duração pouco definida, também foi expressada por outros economistas. Os especialistas do Wells Economic Group, a forte resposta dos líderes europeus deve levar a crise a acabar pelo menos por ora. "Embora estejamos otimistas quanto ao sucesso do plano no curto prazo, existem algumas preocupações em mente", disse a instituição em relatório assinado pelo economista global, Jay Bryson. Segundo o Wells Fargo, as preocupações se concentram no longo prazo. O primeiro ponto levantado é a necessidade de aprovação de acordos bilaterais pelos parlamentos dos países envolvidos. "Se um governo não aprovar será que todo o plano não poderia ser questionado?", pondera o economista. Fora isso, a instituição lembra que permanece a preocupação com o futuro econômico da região. O aperto fiscal irá pesar negativamente sobre o crescimento de alguns países nos próximos anos. E, além disso, a moeda comum que une Grécia, Portugal e Espanha a seus vizinhos, representa uma dificuldade para as exportações desses países. Ainda mais se considerarmos que grande parte do comércio é intragrupo. "Outro colapso como o do Lehman Brothers parece ter sido evitado, pelo menos por ora. No entanto, o caminho segue longo para algumas endividadas nações europeias", conclui o relatório. (Eduardo Campos | Valor)

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