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SÃO PAULO - O câmbio local não acompanhou a virada de humor no mercado externo, que contou com alta do euro e da libra e valorização nas bolsas e commodities. Com isso, o dólar comercial fechou a R$ 1,80 pela primeira vez desde o final de fevereiro.

Depois de fazer máxima a R$ 1,814, a moeda terminou a jornada valendo R$ 1,798 na compra e R$ 1,80 na venda, ainda assim leve valorização de 0,05%.

Na roda de " pronto " da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar subiu 0,19%, para também fechar a R$ 1,80. O volume caiu subiu 46%, para US$ 58,75 milhões. Já no interbancário, os negócios somaram US$ 2,5 bilhões, mesma faixa da semana passada.

Fazendo uma análise diferente do comportamento do câmbio, a NGO Corretora aponta que os eventos externos, como crise da dívida na Grécia e discussões sobre um possível embate entre Estados Unidos e China em função da flutuação do yuan são apenas fonte eventual de apreciação do dólar.

O ponto em questão, segundo o diretor-executivo da NGO Corretora, Sidnei Moura Nehme, é a mudança na forma de atuação do Banco Central no mercado de câmbio, que levou os bancos a ficar com posições vendidas em moeda americana, o que tecnicamente é uma grande fonte de valorização do real.

Segundo dados apresentados hoje pelo BC, os bancos, que fecharam fevereiro comprados no mercado à vista em US$ 2,070 bilhões, viraram a mão agora e março e no acumulado do mês até o dia 18 já carregaram posições vendidas de US$ 3,35 bilhões. Até o dia 12 essa posição era de US$ 1,0 bilhão.

O que levou os bancos a trocar de lado foram as crescentes atuações do Banco Central no mercado à vista. Mesmo em ambiente de fluxo cambial negativo, o BC seguiu ampliando os montantes tomados nos seus leilões diários.

As compras, que somavam US$ 1,52 bilhão até o dia 12, se ampliaram para US$ 2,27 bilhões no acumulado do mês até o dia 18. Vale lembrar que em todo o mês de fevereiro, as compras somaram US$ 350 milhões.

Considerando o mesmo período, o fluxo cambial que estava negativo em US$ 1,54 bilhão até o dia 12, tinha se ampliado para US$ 2,66 bilhões até o dia 18.

Tendo em vista essa forma de atuação do BC, Nehme, aponta que não há como considerar sustentável a alta que se presencia no dólar. Segundo o economista, entende-se que tal puxada no preço decorre da estratégia dos bancos em elevar o valor da moeda americana ao máximo possível no curtíssimo prazo para depois valorizar fortemente o real até, possivelmente a linha de R$ 1,75 e, dessa forma, garantir expressivo ganho de variação cambial.

"Os bancos têm grande atração por captar reais valendo-se de posições vendidas, e, o BC tem interesse, embora não declarado, em apreciar o real para utilizá-lo como antídoto ao aquecimento da inflação", explicou Nehme.

O especialista também aponta que além deste cenário no mercado de câmbio à vista, onde os bancos intensificam o crescimento das suas posições vendidas, as instituições também estão elevando suas posições líquidas vendidas no mercado futuro de dólar. "Evidentemente, sabem o que estão fazendo e operam com a certeza de que proximamente apreciarão o real."
(Eduardo Campos | Valor)

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