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Não durou a trégua no mercado cambial doméstico e o dólar voltou a fechar valorizado em relação ao real hoje, após o respiro de sexta-feira passada. A reação positiva dos investidores ao socorro do Tesouro dos Estados Unidos às gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac chegou a amparar um recuo nas cotações nos primeiros negócios, mas a ampliação das perdas do euro em relação à divisa norte-americana prevaleceu e as operações domésticas seguiram o fortalecimento do dólar visto no exterior.

Operadores também citaram fluxo negativo de recursos, ou seja, saída de dólares do País.

No fechamento dos negócios no mercado interbancário, o dólar comercial registrou alta de 1,11%, a R$ 1,736 - o maior valor desde 1º de abril deste ano, quando estava em R$ 1,745. Durante a sessão de hoje, variou de R$ 1,703 (queda de 0,82%) a R$ 1,741 (alta de 1,40%). Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), o dólar à vista subiu 1,02% a R$ 1,7355. O volume financeiro total à vista somava US$ 2,8 bilhões por volta das 16h30.

O Tesouro norte-americano anunciou ontem que assumiu o controle da Fannie Mae e Freddie Mac e pode destinar até US$ 100 bilhões a cada uma a fim de conter a crise no sistema financeiro do país. As duas empresas são cruciais no mercado imobiliário dos EUA, já que juntas são responsáveis pela metade de todas as hipotecas americanas e foram fortemente atingidas pela crise no setor. A intervenção foi planejada em conjunto pelo Departamento do Tesouro dos EUA e pela Agência Federal de Financiamento de Habitação. A agência vai atuar como "conservadora" das duas empresas, tomando o controle de suas operações diárias.

A notícia animou os investidores nas primeiras horas do dia, mas a euforia não se sustentou. Por volta das 16h30, o euro era negociado a US$ 1,4124, de US$ 1,4237 na sexta-feira e US$ 1,4211 na manhã de hoje. Na mínima, chegou a US$ 1,4054. Em Wall Street, o fôlego também amenizou e o índice Dow Jones subia 2,12%, aos 11.459,4 pontos, por volta das 16h45, após ter alcançado 11.570,7 pontos no maior patamar até o momento, em alta de 3,12%. No Brasil, no mesmo horário, o Ibovespa recuava 1,72%, aos 51.044,2 pontos, mas chegou a subir 3,40%, aos 53.706,2 pontos, mais cedo.

De acordo com o vice-presidente da área de câmbio do banco WestLB no Brasil, Alexandre Ferreira, a notícia de intervenção nas agências nos EUA é favorável ao dólar, porque, embora não resolva todos os problemas, dá uma folga maior e afasta uma incerteza grande na economia dos EUA. Isso gerou alguma redução da aversão a risco, o que colaborou com o real mais cedo. Mas, como reforçou o especialista, o pacote ajuda o dólar. Prova disso foi que o euro desabou ante o dólar no exterior ao longo do dia. "O que foi acompanhado pelas operações locais", observou, acrescentando que o movimento local, mais do que uma fraqueza do real, é um alinhamento ao fortalecimento do dólar no ambiente internacional.

O noticiário local hoje, porém, atuou como coadjuvante. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior informou que o superávit da balança comercial da primeira semana de setembro foi de US$ 295 milhões. O superávit acumulado no ano, de US$ 17,202 bilhões, é 39,98% menor que o acumulado de janeiro a setembro (até a primeira semana) de 2007, quando foi de US$ 28,665 bilhões.

Também nesta segunda-feira, a Pesquisa Focus do Banco Central mostrou nova alta nas projeções do mercado financeiro para o dólar em 2008. A estimativa para a taxa de câmbio no fim do ano passou de R$ 1,63 para R$ 1,65. Há um mês, o número esperado estava em R$ 1,60. Para o câmbio no fim de 2009, a projeção também subiu, de R$ 1,73 para R$ 1,75. Um mês atrás, estava em R$ 1,71.

A valorização externa do dólar, porém, não afastou o BC do mercado. A instituição realizou leilão de compra no mercado à vista de câmbio, por volta do meio-dia, com taxa de corte igual a R$ 1,728. De acordo com operadores, foram aceitas três propostas de três bancos, entre as cinco ofertas divulgadas por cinco instituições financeiras, que variaram de R$ 1,7220 a R$ 1,7292. Os outros 12 bancos que participaram da operação não informaram suas taxas. Mas se não afastou o BC, o apetite no leilão diminuiu. A estimativa é de que o BC tenha comprado apenas cerca de US$ 3 milhões.

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