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Ao iG, diretor do Centro de Desenvolvimento Econômico de Harvard diz que País avançou, mas ainda busca modelo econômico

A continuidade do crescimento econômico do Brasil em bases sólidas e sustentáveis no longo prazo passa pela forte disciplina com as contas públicas, de acordo com o economista Ricardo Hausmann, diretor do Centro de Desenvolvimento Econômico da Kennedy School na Universidade de Harvard e um dos maiores especialistas do mundo em desenvolvimento econômico.

Hausmann: avanço da inflação gera preocupação especial para o Brasil
Foto: Milton Bellintani/Divulgação
Hausmann: avanço da inflação gera preocupação especial para o Brasil
Para ele, o Brasil ainda tem uma das menores taxas de investimento público entre os países em desenvolvimento e, obviamente, isso prejudica a manutenção de um crescimento econômico vigoroso como o que foi registrado em 2010. “O Brasil fez grandes avanços, mas também está à procura de um novo modelo econômico depois da crise mundial em 2008. E no caso brasileiro, a disciplina fiscal é a chave para fortalecer a economia”, disse Hausmann em entrevista exclusiva o iG , nesta quinta-feira, no World Economic Forum on Latin America, que acontece no Rio de Janeiro.

Para Hausmann, os preços das commodities em alta também estão prejudicando o processo industrial, uma área da economia intensiva em investimentos no Brasil. “Isso é um outro ponto que deve ser observado para evitar um sucateamento no setor de produção local”, afirmou.

Sobre o intensivo fluxo de capitais com destino aos países emergentes, o professor Hausmann enfatiza que a disciplina fiscal rígida é a melhor forma de evitar desarranjos na economia local. “Com controle fiscal, diminui a pressão pelo aumento de juros. E as altas taxas do Brasil são um grande atrativo para o capital estrangeiro”, disse.

Segundo ele, o avanço da inflação no mundo desde o fim de 2010 tem preocupado, mas o caso específico do Brasil é diferente. “No resto do mundo a inflação é reflexo dos avanços de preços de alimentos e energia”, disse. “No Brasil, a inflação está muito ligada ao avanço dos preços de serviços, que sobem acima dos preços de alimentos e energia. Esse é um preço que se paga pelo rápido crescimento dos últimos anos e que deverá ser corrigido.”

Com relação ao grupo das principais economias emergentes, os Brics, Hausmann avalia que o bloco de nações tem sido mais útil à China que aos demais membros. “O Brasil deveria investir mais nas relações com os Estados Unidos e se consolidar como um líder mais influente no continente”, argumentou. “Essa seria uma forma de aproveitar todas as oportunidades de desenvolvimento econômico na América Latina e que podem trazer muitos avanços para o desenvolvimento econômico do Brasil.”

Para Hausmann, a economia mundial estaria em pior situação se não fosse a força da economia chinesa, mas, segundo ele, algumas decisões de política econômica no país asiático como a manutenção de uma taxa de câmbio fixa com o objetivo de incentivar as exportações chinesas poderá ter um alto custo para o mundo todo num futuro próximo. “Algumas decisões da China geram desequilíbrios em outras partes do mundo que são insustentáveis no longo prazo. Num mundo globalizado é preciso buscar um maior equilíbrio nas relações comerciais”, disse.