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Segundo o instituto, 96% das 700 negociações coletivas analisadas tiveram reajustes que recuperaram o poder de compra dos salários

A recomposição da renda dos trabalhadores no Brasil apresentou o melhor resultado histórico em 16 anos, de acordo com dados divulgados nesta quinta-feira pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Segundo o instituto, no ano passado 96% das 700 negociações coletivas analisadas em todo o País nos setores da indústria, do comércio e de serviços conquistaram reajustes que, no mínimo, recuperaram o poder de compra dos salários.

Segundo o estudo Sistema de Acompanhamento de Salários, elaborado pelo Dieese, considerando somente os reajustes salariais acima da inflação, o ano passado registrou o melhor desempenho de toda a série histórica de estudos sobre remuneração no mercado de trabalho, iniciada em 1996.

Distribuição dos reajustes salariais

Evolução da série histórica de 1996 a 2010

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Fonte: Dieese

No ano passado, houve a maior proporção de reajustes salariais com aumento real, com esse patamar atingindo 89% das negociações. Também em 2010 foi registrado crescimento na magnitude dos aumentos reais dos salários das categorias analisadas. O estudo do Dieese indica que no ano passado 15% das 700 negociações salariais analisadas apresentaram aumentos reais superiores a 3% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2010 o índice de preços teve variação de 6,47%, ante alta de 4,11% em 2009 e 6,48% em 2008.

Quanto aos ganhos superiores a 5% do INPC, 28 negociações em 2010 apresentaram esse resultado, diante de apenas duas negociações em 2008 e dez negociações em 2009.

Na avaliação do Dieese, esse desempenho foi proporcionado pela retomada vigorosa do crescimento econômico brasileiro, observado desde meados de 2009, superando em definitivo os efeitos da crise econômica internacional. “A retomada se deu por força do crescimento do mercado interno, o aumento do salário mínimo, a manutenção do crédito e os estímulos à produção que sustentaram a expansão da economia nacional”, afirmou no estudo o Dieese.

“Em um cenário de crescimento econômico e redução do desemprego, somado à manutenção da inflação em baixos patamares, as entidades sindicais dos trabalhadores encontraram em 2010 um ambiente propício para cobrar uma melhoria na repartição nos ganhos de produtividade das empresas”, destacou o Dieese.

No entanto, o Dieese avalia que ainda é elevada a concentração de reajustes salariais próximos do índice inflacionário: cerca de 74% dos percentuais negociados em 2008, 2009 e 2010 superam a inflação em 0,01% a 3%. Considerando somente as faixas de ganho real de até 2%, foram 56% das negociações em 2010; 63%, em 2009; e 64%, em 2008, sempre na comparação dos resultados das mesmas 700 negociações salariais analisadas.

A análise do Dieese aponta ainda que em 2010 houve queda no número de negociações com reajustes salariais insuficientes para repor a inflação e uma redução na magnitude dessas perdas inflacionárias. Aproximadamente 4% dos reajustes ficaram abaixo do INPC. Desse, total menos de 1% teve perdas superiores a 1%. Em 2008, foram 11%, dos quais quase 2% com perdas acima de 1% e; em 2009, ano em que os efeitos da crise econômica internacional mais foram sentidos na economia, foram quase 9% das negociações, com 3% apresentando perdas superiores a 1%.

No entanto, segundo o Dieese, ainda persistem alguns riscos para 2011 como o aumento das taxas inflacionárias que pode influir de forma negativa nas mesas de negociação em 2011. "Espera-se que a economia continue crescendo, ainda que em taxas menores, como indicam as projeções feitas por diversas instituições, e há de se considerar a expectativa de que as taxas de desemprego continuem declinantes", destacou o instituto.

Setores da economia

A análise da distribuição dos reajustes salariais segundo os setores econômicos revela que o comércio apresentou a maior proporção de negociações com ganhos reais nos salários em 2010, com 96% do total do setor. No entanto, o desempenho da indústria e dos serviços também foi significativo, com 91% e 83% das negociações com aumento real, respectivamente.

Mas foi na indústria que se observou o menor percentual de negociações com reajustes abaixo do INPC em 2010, quase 3% diante dos 4% observados no comércio e 7% no setor de serviços. Para o Dieese, esse desempenho pode estar relacionado, em parte, ao fato de a indústria ter sido o setor mais afetado pela crise no país em 2009. “Assim, com a recuperação econômica em 2010, os trabalhadores ampliaram esforços para reivindicar a compensação das perdas”, apontou o instituto.

Desempenho regional

A evolução dos reajustes salariais nas cinco regiões do País mostrou um perfil semelhante, segundo o Dieese, com todas as áreas registrando aumentos reais em pelo menos 83% das negociações, com destaque para a região Centro-Oeste, com 94%, e a região Sul, com 92%.

As regiões Norte, Nordeste e Sudeste registraram percentuais parecidos de negociações com reajustes superiores à inflação, em torno de 87% cada.

A região Norte registrou a maior incidência de reajustes que apenas igualaram o INPC, cerca de 11%. Quando analisados os reajustes abaixo da inflação cálculada pelo INPC, as regiões Norte e Sudeste foram as que apresentaram os menores percentuais de negociações nessa situação, com cerca de 2%.