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Por trás da paralisação dos bombeiros, transporte público e outras categorias está o aquecimento da Economia

Nas últimas semanas os movimentos grevistas se espalharam por todo o País. Na avaliação de especialistas em relações do trabalho, essas manifestações têm se propagado com mais força este ano devido ao bom desempenho da economia e também ganharam impulso com o processo de recomposição do salário mínimo, com ganhos reais acima da inflação, ocorrido nos últimos anos. Nesse momento, várias categorias que não têm seus salários atrelados a evolução do mínimo pressionam os patrões para alcançar melhorias.

Trabalhadores da iniciativa privada, como os metalúrgicos da Volkswagen no Paraná, empregados do setor público, como professores no Ceará, Minas Gerais e Rio de Janeir o , e até mesmo os membros do Corpo de Bombeiros , também no Rio, são algumas das categorias que cruzaram os braços recentemente por melhores salários.

Estes movimentos, aliados à escassez de mão de obra em diversos setores, têm fortalecido a articulação dos trabalhadores que buscam agora manter o padrão de compra após o avanço da inflação no início do ano. “A economia está em processo de recuperação da atividade desde 2005 e o salário mínimo vem obtendo ganhos reais que chegam até a 2% acima da inflação”, avaliou o professor do Instituto de Economia da Unicamp, Claudio Dedecca. “Enquanto isso, a maioria dos aumentos coletivos em várias categorias profissionais ficou entre 0% e 1%. Com a economia mais forte é natural que os trabalhadores procurem recompor as perdas e obter uma melhora no ganho real”, disse Dedecca.

Os especialistas destacam ainda que os reajustes salariais que vierem a ocorrer este ano não devem pressionar de forma significativa os preços no varejo, comprometendo os planos do governo para fazer a inflação em 12 meses convergir para a o centro da meta de 4,5%. Em maio, o índice oficial medido pelo IPCA recuou para 0,47%, após alta de 0,77% em abril. Esse foi quarto recuo seguido no indicador que acumula alta de 6,55% em doze meses, mas com tendência de recuo nas próximas medições.

O coordenador nacional de Relações Sindicais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), José Silvestre, explica que os reajustes salariais pressionam a inflação quando crescem acima da produtividade. “Por enquanto não há essa evidência”, disse. Segundo o Dieese, 2010 foi o melhor ano da história para as negociações salariais no País e os ganhos ficaram bem abaixo do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB). “No ano passado, o ganho real médio nas principais categorias foi de 1,8%. Isso representa um quarto do crescimento da produtividade com base nos dados do PIB do ano passado, que foi de 7,5%”, disse Silvestre.

Dedecca, da Unicamp corrobora esta tese. Para ele as pressões de preços no varejo vividas recentemente estão mais atreladas a fatores externos, como a evolução dos preços das commodities no mercado internacional, do que a uma possível evolução recente da massa salarial. “Essas pressões não estão concentradas nas bases de produtividade da indústria nem no setor bancário, onde existe um grande contingente de trabalhadores organizados em sindicatos fortes”, afirmou. “Essas e outras categorias profissionais que estão pressionando agora por aumentos reais de salários não estão na raiz do problema inflacionário”, acrescentou.

Manifestação dos bombeiros em frente  à Assembléia Legislativa do Rio: busa por salários melhores
Márcia Foletto / Agência O Globo
Manifestação dos bombeiros em frente à Assembléia Legislativa do Rio: busa por salários melhores

Paralisações em todo o País

Na quarta-feira, os professores da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro entraram em greve por tempo indeterminado. Os grevistas querem reajuste salarial de 26%, a incorporação imediata da gratificação do Programa Nova Escola e o descongelamento do plano de cargos dos funcionários administrativos das escolas estaduais.

Ainda no segmento da educação cerca de cinco mil professores de universidades estaduais na Bahia estão parados há cerca de dois meses. Em Minas Gerais, aproximadamente cinco mil profissionais votaram a favor da greve, em assembléia realizada na quarta-feira. A categoria reivindica uma remuneração de R$ 1.597 por 24 horas semanais de trabalho. A paralisação também é por tempo indeterminado. Em Fortaleza, no Ceará, os professores da rede municipal de ensino estão em greve desde 26 de abril por melhores salários.

Na região metropolitana de Curitiba, no município de São José dos Pinhais, onde fica a fábrica da Volkswagen, os cerca de três mil funcionários da montadora estão em greve há 36 dias. Essa é a maior paralisação da história da empresa. A categoria exige uma Participação nos Lucros e Resultados (PLR) de R$ 12 mil, com valor mínimo de R$ 6 mil na primeira parcela. A montadora ofereceu inicialmente uma parcela de R$ 4,6 mil, depois subiu para R$ 5,2 mil.

Há duas semanas, em São Paulo, os trabalhadores da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos ( CPTM ) paralisaram algumas linhas de trens da capital e os motorista e cobradores de ônibus da região do ABC paralisaram as operaçãoes, o que gerou um caos para quem dependia de transporte público.

Na greve dos bombeiros, também no Rio, a invasão de um quartel da corporação e o enfrentamento com a polícia no fim de semana passado foi o ponto extremo de uma negociação com o governo do Estado. Melhoria salarial é a reivindicação, a mesma de praticamente todas as outras categorias em greve.

Bom senso nas negociações

Para os analistas, o cenário econômico ajuda a explicar todas essas greves, mas é necessário cautela e bom senso por parte de patrões e empregados. A situação pode ficar mais agitada no segundo semestre, principalmente no mês de setembro, quando categorias numerosas e bem organizadas entram em negociação, como é o caso dos bancários, dos petroleiros e dos metalúrgicos. A projeção de um crescimento do PIB de 4,5% em 2011, abaixo dos 7,5% de 2010, e a inflação são condições que afetam os dois lados impactando os salários e a lucratividade das empresas.

Para Silvestre, do Dieese, que acompanha as negociações salariais entre trabalhadores e empregadores desde 2004, os empregados se sentem seguros quando há forte ritmo de geração de vagas no País e aumentam a pressão por melhorias. “Economia em crescimento significa uma segurança maior para o trabalhador por que há maiores oportunidades e uma competitividade entre empresas para reter os mais qualificados”, afirmou. “Isso tem reflexos em melhores condições de trabalho e elevação da remuneração”, acrescentou.

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