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Os 450 hectares do milharal que sobe e desce as colinas formando um imenso tapete verde nas margens do rio Turvo, entre Itapetininga e Capão Bonito, no sudoeste do Estado de São Paulo, podem ser a última lavoura da vida dos irmãos João Coan, de 61 anos, e Ari Coan, de 59. Há 40 anos eles enfrentam intempéries, pragas e as agruras do mercado para produzir grãos na fazenda Sobrado Velho, adquirida à custa de calos e suor.

Nos últimos quatro anos, tiveram de consumir as reservas para manter a produção. "Vamos parar antes que nosso patrimônio vá embora", diz o experiente João.

As últimas safras de milho, feijão e trigo foram a gota dágua. Ele conta que em 2007, com o trigo a R$ 800 a tonelada, os produtores foram incentivados a plantar, mas o governo, preocupado com a alta no preço do pãozinho, tirou o imposto das importações. "Veio trigo da Rússia, do Canadá, de toda parte e o produtor brasileiro se lascou, mas o preço do pãozinho continua igual." Este ano, os Coan plantaram 400 hectares e desta vez foi a chuva que chegou na hora da colheita. "Vendemos trigo a R$ 200 a tonelada, menos da metade do custo de produção. Perdemos R$ 1 mil por alqueire." O excesso de chuva prejudicou também o feijão, mas pior que a quebra na produção foi o preço ruim. "O governo garante um preço de R$ 80 a saca, mas não compra, alegando que não tem como estocar. Estamos vendendo a R$ 50." A baixa cotação do dólar e a grande oferta mundial afetaram o mercado do milho. Os Coan venderam a R$ 17 a saca, quando o mínimo para dar sustentabilidade à lavoura seria R$ 20. "O preço do adubo baixou, mas as sementes continuam muito caras", reclama Ari. Os Coan são produtores que usam técnicas modernas de plantio. No sequeiro, colhem 450 sacas de milho e 170 de soja por alqueire.

Planejavam instalar pivôs centrais de irrigação em grande parte da área. Mostram o projeto que, pronto, custaria R$ 2 milhões. "Como estávamos pagando o secador, que instalamos com recurso próprio, decidimos segurar o negócio. Foi a nossa sorte, pois a coisa entortou."
Os Coan já decidiram arrendar as terras da fazenda para uma empresa de sementes. Eles culpam o governo por terem sido obrigados a "pendurar a botina antes da hora", como diz João. "Hoje tem mais valor o carro, a geladeira e a televisão do que o alimento na mesa", diz, numa crítica à política do governo de reduzir o imposto desses produtos. "O produtor não quer esmola, só um pouco mais de segurança", acrescenta Ari. "Todos os governos protegem a agricultura, menos o nosso."
Ele olha com tristeza as nuvens de chuva que se formam no horizonte e os pés de milho vigorosos, trazendo a expectativa de uma grande produção. "Que adianta? A gente trabalha que nem burro e não sobra nada."

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