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A soma dos programas de socorro ao sistema financeiro anunciados em 2008 e dos planos de relançamento econômico para combater a recessão que se anuncia profunda levará a Europa a viver em 2009 e 2010 uma explosão de déficits públicos. De acordo com análise feita a pedido do Estado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os 16 países da zona euro enfrentarão, no mínimo, um déficit de 3,7% do Produto Interno Bruto (PIB) - devendo ultrapassar 4%.

O resultado, da ordem de 450 bilhões a 500 bilhões, implode o Pacto de Estabilidade e de Crescimento, um dos pilares da União Europeia. O pacto fixa em 3% o déficit máximo na zona euro.

O aumento dos gastos públicos foi a estratégia escolhida pela Europa para substituir os investimentos privados, que despencaram após a falência do banco Lehman Brothers, em setembro. Desde 13 de outubro, grandes economias do bloco, como Reino Unido, França e Alemanha, intervieram no sistema financeiro nacionalizando bancos - a primeira medida a resultar na elevação dos déficits.

Seguiram-se, então, os planos de relançamento econômico. Com os 50 bilhões anunciados por Berlim na semana passada, só as seis maiores economias do bloco - Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Espanha e Holanda - investirão 253 bilhões em 2009 e 2010 em programas de infraestrutura e em medidas de renúncia fiscal.

Na Alemanha, estimativas do Escritório Federal de Estatísticas indicam que o déficit do país, que em 2008 foi de 0,1%, atingirá no mínimo 2% em 2009. No ano seguinte, o índice mais do que dobra. "Para 2009, espero que consigamos limitar mais ou menos as novas dívidas a 3% do PIB. Já em 2010, estaremos bem acima de 4%", reconheceu o ministro das Finanças, Peer Steinbrück, em entrevista ao Financial Times. Na França, o problema é ainda mais grave: o Ministério da Economia parte de um rombo de 3% em 2008, que deve chegar, pelos cálculos oficiais, a 3,9%, ou 79 bilhões, este ano.

Dentre as cinco maiores potências, o caso mais grave é o do Reino Unido. Projeções do Escritório Nacional de Estatísticas indicam que o déficit na temporada fiscal 2008-2009, que se encerra em abril, deve alcançar £ 63,3 bilhões ( 70,1 bilhões), pouco menos do que o dobro do previsto. Em 2009-2010, a perspectiva é de um buraco de £ 90,1 bilhões ( 99,7 bilhões) - ou 6% do PIB. Estimativas informais, porém, chegam a 8%. Apesar do rombo já ser alto, o governo britânico deve anunciar hoje um novo pacote.

Na quarta economia do bloco, a da Itália, a estimativa é de que o déficit público em 2008 tenha ficado em 2,5%. Para este ano, o governo sustenta a perspectiva de 2,9%, mas poucos acreditam que fique em menos de 3%. Completando o rol dos cinco gigantes, a Espanha, duramente atingida pela crise do setor imobiliário, também refaz as contas. Segundo Pedro Solbes, vice-presidente Econômico do governo, o "panorama complicado de 2009" deve elevar o déficit dos 3,4% de 2008 a 5,8% do PIB em 2009. O Programa de Estabilidade do Conselho Econômico espanhol prevê o início da reorganização das contas já em 2010, quando o déficit deve retornar a 3,9%.

Segundo a OCDE, o Plano de Relançamento Econômico da UE elevou os gastos públicos no bloco em 1,5%, porcentual que se somou aos 2,2% de déficit já previsto para a zona euro. "No mínimo, ficaremos em 3,7% de déficit em 2009. Mas, diante da conjuntura, vamos passar facilmente os 4% neste ano", diz Peter Hoeller, um dos autores do estudo Zona Euro, divulgado em Paris.

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