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Como resultado dos elevados déficits fiscais, os países desenvolvidos devem enfrentar uma pequena versão da estagnação vivida pelo Japão nos últimos anos, acredita o economista-chefe do HSBC, Stephen King. Evitamos a Grande Depressão 2, mas acabaremos nesse ambiente de estagnação e deflação, afirmou, nesta entrevista exclusiva à Agência Estado, na sede do banco, em Londres.

Os déficits na Europa preocupam muito?

Sim. A causa da crise original foi o excesso de dívidas. O que aconteceu é que as dívidas foram redistribuídas das famílias e dos bancos para os governos. Há um ou dois anos, a crise estava associada aos problemas dos bancos e, agora, à falta de confiança nos títulos soberanos. O que acontecerá daqui para frente dependerá de decisões políticas, assim como da realidade econômica.

Consequentemente, isso acaba gerando volatilidade e nervosismo nos mercados.

O que é possível fazer para resolver o problema?


Há opções para lidar com déficits. A primeira é a religiosa: rezar pela recuperação forte. A arrecadação sobe e os gastos públicos passam a não representar tanto em relação ao PIB. O problema é que a deterioração fiscal começou antes da crise. Então, só funciona parcialmente porque ainda haverá déficits.

E a outra opção?

É a austeridade. Os economistas acham fácil, mas os políticos, não. Medidas sérias de austeridade só veem após crises fortes porque é complicado convencer a população, a não ser que ela seja forçada. Na Grécia, há esse processo em curso. A terceira opção é seguir o Japão. O país produziu um milagre na economia, com forte endividamento público, mas sem estragos na moeda nem no mercado de títulos. Ao contrário, a moeda é forte e os juros são baixos. É exatamente o que você não espera. Mas o governo só consegue tomar tanto empréstimo porque o setor privado tem muita aversão ao risco e só quer pagar suas dívidas. Isso abre espaço para o governo emitir mais. Mas o custo é a estagnação por muitos anos. Acho que ninguém escolheria esse caminho, se fosse possível evitá-lo.

E o caminho da inflação?

É a quarta opção. Os bancos centrais passariam a comprar todos os títulos possíveis, imprimindo dinheiro. A moeda cairia e surgiria inflação. Para as finanças públicas, isso tende a funcionar porque, se a inflação avança e os juros são mantidos baixos, o PIB nominal sobe rapidamente. Isso significa que a dívida pública cai em relação ao PIB nominal. A inflação age para permitir ao governo um default interno. O problema é que, além do risco de hiperinflação, a população na Europa tem idade mais elevada. Para as pessoas que trabalharam e economizaram para a aposentadoria, o pior que pode acontecer é a inflação, que destrói o valor da poupança. É difícil para os governos adotarem essa política; socialmente, não funciona. A quinta opção é a desvalorização cambial, uma forma de dividir o problema com os credores externos. Pode funcionar muito bem, mas apenas para países que tomam empréstimos na sua própria moeda. A Argentina não poderia fazer isso porque toma dívida em dólares, não em pesos.

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