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Economistas consultados pelo iG dizem que riscos de crises cambial e fiscal estão descartados nos próximos anos

Em entrevista exclusiva ao iG , o deputado Ciro Gomes disse que o Brasil está diante do risco de duas crises para o curto prazo: uma fiscal e uma cambial. “Em 2011 ou 2012, o Brasil vai enfrentar uma crise fiscal, uma crise cambial. Como estamos numa fase econômica aparentemente boa, a discussão fica escondida. Mas precisa ser feita”, disse Ciro. Apesar do alerta, economistas consultados pelo iG acham que o cenário não é tão pessimista.

“A afirmação de Ciro não faz o menor sentido”, respondeu o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. “A qualidade da política fiscal caiu muito nos últimos anos, mas nada sinaliza uma crise. Esta somente pode ser entendida como um risco de insolvência fiscal. Felizmente, estamos longe disso.”

A opinião de Mailson é reforçada por Antonio Correa de Lacerda, professor da PUC-SP. Para ele, a situação fiscal está “absolutamente sob controle”. Em comparação com outros países, o déficit nominal brasileiro de 1,5% do PIB indica que o País saiu bem da crise, segundo Lacerda. “Na área das contas externas, de fato, a situação do déficit é crescente, mas isso é plenamente reversível. Desde que o novo governo tome as medidas necessárias, o Brasil tem todas as condições de reverter essa situação”, completou.

Para Lacerda, o próximo governo precisará mudar a política cambial, a política monetária – com redução dos juros – e implantar políticas de competitividade para qualificar a exportação brasileira. Segundo Mailson da Nóbrega, o novo governo não estará focado na crise fiscal. “A tarefa do próximo governo não será a de livrar o Brasil dessa suposta crise, mas a de obter a aprovação de reformas para reduzir a rigidez orçamentária, livrar o País da preocupante tendência de expansão dos gastos correntes do período recente e dar sustentação financeira de longo prazo à Previdência Social.”

O economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating, Alex Agostini, afirma que o País não corre risco de crise em 2011 ou 2012, como prevê Ciro Gomes. “Crise é a consolidação de um processo de deterioração de um fato, que passa de conjuntural para crônico. E não temos problemas crônicos”, afirma.

Agostini relembra 2002, quando o País vivia uma déficit de transações correntes sistemático. Quando tem déficit, o país tem de ter uma contrapartida para financiar esse saldo negativo em moeda estrangeira. “Nossas reservas internacionais, na época, eram de US$ 37 bilhões. A dívida mobiliária pública era quase 60% atrelada ao câmbio. Além disso, tinha prazos de vencimentos menores. De lá para cá, o Brasil conseguiu reduzir a parcela da dívida mobiliária em moeda estrangeira e alongou os prazos. As reservas internacionais, por sua vez, estão em US$ 240 bilhões”, compara o economista. “O Brasil aprendeu com o passado e melhorou muito. Não devemos mais ao FMI. Ao contrário, somos credores”, afirma.

André Loes, economista-chefe do banco HSBC Brasil, afirma que a expressão crise cambial "é ultrapassada no Brasil". Pelo seu raciocínio, ela se refere a um sistema de câmbio administrado em que o país, em caso de crise, precisa gastar reservas para manter a taxa câmbial em determinado patamar. "Quando o cãmbio é flutuante, pode-se ter déficit em conta corrente", diz ele. Esse déficit, diz o economista, demonstra deficiências na produção, que provocam a elevação das importações para fazer frente ao crescimento da economia. "Esse problema tem de ser sanado com aumento da capacidade instalada, com investimentos. Assim, no futuro, haverá crescimento sem necessidade de elevar importação." Para Loes, a produção insufiente expõe deficiências, não uma crise cambial.

Candidatos

Na avaliação dos economistas consultados pelo iG , tanto José Serra quanto Dilma Rousseff – os dois candidatos que lideram as pesquisas eleitorais neste ano – têm condições de enfrentar as supostas crises alertadas por Ciro, caso elas aconteçam.

Somente Mailson não escondeu sua preferência. “É difícil fazer julgamentos, mas tudo indica que Serra está mais preparado para reverter a tendência de piora da qualidade fiscal. Ele tem mais experiência do que Dilma nessas questões.”

Para Correa de Lacerda, os dois candidatos têm sólida formação econômica. “O Brasil tem sorte, porque tem dois candidatos tecnicamente preparados para enfrentar esse problema.” Já Alex Agostini minimiza a diferença entre os candidatos. “Quem administra as contas não é o presidente, são os técnicos”, finaliza.

(Com reportagem de Daniela Barbosa, Klinger Portella e Nelson Rocco)

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