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Embora a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa de juros em 8,75% ao ano já fosse esperada pelo mercado, representantes da indústria e do comércio criticaram o conservadorismo do Banco Central (BC). Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, a manutenção da taxa Selic está em total descompasso com a situação da indústria.

"A decisão não se justifica, pois a inflação está controlada e o crédito à pessoa jurídica ainda está comprometido. Essa situação requer novo corte nos juros", disse Monteiro Neto em nota. Ele argumenta que a indústria ainda sofre os efeitos da crise internacional.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, observou que o grande empecilho hoje para o corte de juros é o elevado spread bancário, já que a inflação prevista para 2010 está abaixo do centro da meta e as taxas de juros reais no mundo estão próximas a zero.

O presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, Abram Szajman, também criticou a manutenção da Selic e cobrou equilíbrio entre as políticas fiscal, avaliada como "expansionista", e monetária, tida como "conservadora ao extremo". Ele observou que a Selic em alta além de desestimular os investimentos incentiva a entrada de capital especulativo, valorizando o real.

O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, considerou a decisão "desastrosa". "Mais uma vez, os membros do Copom se curvam aos especuladores em detrimento do setor produtivo."
Para os economistas, decisão do Copom é "mais do mesmo." Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Santander, não percebeu mudanças na nota do Copom em relação à reunião de setembro. "O BC falou exatamente a mesma coisa. Tem até o mesmo número de caracteres, 619. A única diferença é a data." Para ele, o BC deve continuar a ver as coisas do mesmo jeito, apesar de o mercado estar mais nervoso.

Segundo Schwartsman, na reunião anterior já existia uma trajetória de recuperação da economia. Para o BC, este clima foi suficiente para decidir pela manutenção da Selic. "A impressão que tenho é que a decisão deve derrubar os juros no mercado futuro, com vencimento em janeiro de 2011.

Na avaliação do economista do JPMorgan, Julio Callegari,o comunicado do Copom sugere que a taxa Selic permanecerá inalterada ainda em dezembro, mas não firma compromissos com a estabilidade nas reuniões seguintes. Ele observou que o Copom reconhece no comunicado que a atividade está em recuperação, como o mercado já antevê. Mas, como seu compromisso é com a meta de inflação, a Selic fica inalterada por ora.

"O comunicado indica que a Selic não sobe na reunião de dezembro. Mas, aí, o BC vai ter de avaliar", afirmou. "Acho que o Copom vai ter de mudar esse discurso logo, por causa da recuperação da economia", avaliou Callegari.

Para o ex-diretor do Banco Central, Carlos Thadeu de Freitas Gomes, a decisão do Copom desarmou a crise de quem trabalhava com a expectativa de alta da taxa Selic até o fim do ano. Mas Freitas alerta: "É preciso esperar para ver o que a ata do Copom trará, se vai sinalizar algum tipo de preocupação que não apareceu hoje (ontem) na nota".

A LCA Consultores observou em seu relatório que a decisão do Copom "pode ter frustrado uma parcela dos analistas que via a possibilidade de a autoridade monetária dar início a uma mudança de retórica que visasse preparar os mercados para uma elevação de juros em horizonte não muito distante". Assim como Schwartsman, do Santander, os economistas da LCA acreditam que as cotações de juros nos mercados futuros poderão recuar devido à decisão do Copom.

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