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Desde os anos 40 não era tão difícil para os jovens americanos concluir etapas básicas, como pagar faculdade, encontrar emprego, comprar casa e economizar

Os jovens normalmente são os mais atingidos em épocas de crise econômica. Nos Estados Unidos não é diferente. Enquanto o desemprego no país estacionou em 8%, entre os jovens de 18 a 24 anos o índice chega a 20%. Um quinto dos jovens que gostariam de entrar no mercado de trabalho, possivelmente com o seu primeiro emprego, está em casa. Pior, mesmo aqueles que encontram trabalho, raramente iniciam uma carreira propriamente dita com o primeiro ou segundo emprego.

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“Esses jovens ficarão marcados para sempre e serão chamadas de ‘geração perdida’, afinal suas carreiras e suas vidas seriam radicalmente diferentes, não fosse a crise econômica”, disse ao iG Richard Freeman, economista da Universidade de Harvard.

Ryan Villarina e Christy Hermandes: faculdades mais baratas e distribuindo folhetos por US$ 10 por hora
Carolina Cimenti/especial para o iG
Ryan Villarina e Christy Hermandes: faculdades mais baratas e distribuindo folhetos por US$ 10 por hora
Uma pesquisa recente do Centro de Pesquisa Pew afirma que, Desde os anos 40, nunca foi tão difícil para um jovem americano concluir etapas básicas, como pagar a sua faculdade, encontrar um emprego, comprar uma casa e guardar economias para o futuro. “Apenas 54% dos jovens entre 18 e 24 anos estão empregados atualmente nos EUA, o menor número desde 1948. Além disso, a diferença entre o índice de desemprego entre jovens e adultos nunca foi maior em toda a história do país”, aponta a pesquisa.

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Outro ponto negativo para o futuro da economia é o fato da diferença de anos de estudo entre ricos e pobres americanos estar crescendo. Pesquisa da Universidade de Michigan demonstra que a cada 100 estudantes ricos que se formam na faculdade, apenas 50 estudantes de classe média ou pobres conseguem terminá-la.

O economista e prêmio Nobel Joseph Stiglitz, da Columbia University, diz que a maioria dos jovens formados em universidades nos EUA já está falida, antes mesmo de começar a trabalhar. “Pessoas com formação mais completa acabam tendo mais oportunidades na vida. Mas se você precisa pegar empréstimos para pagar a sua educação, o seu futuro não será fácil. As estatísticas demonstram que as chances de você conseguir um emprego que permita que você pague este empréstimo são muito baixas. Segundo as leis americanas, mesmo que você sofra uma falência, você ainda tem a obrigação de pagar pelas dívidas ligadas à sua educação. A maior parte dos jovens americanos, então, já começam a vida profissional com dívidas altíssimas e sem grandes oportunidades”, disse Stiglitz.

É exatamente esse cenário que Ryan Villarina está tentando evitar. Aos 23 anos, ele largou a faculdade de psicologia, na Califórnia, para estudar moda em Nova York. Ele foi aceito em uma das escolas de design mais respeitadas do mundo, a Parsons, porém, depois de adiar por dois semestres, simplesmente desistiu de se matricular. “O curso dura 4 anos e custa U$ 40 mil por ano. Eu consegui uma bolsa de estudos que pagaria U$ 13 mil por ano. Mas mesmo assim, eu ainda teria que pegar mais de U$ 100 mil emprestados, além dos gastos para viver. É impossível. Desisti antes mesmo de tentar. Até porque ter curso superior não é garantia nenhuma de achar emprego”, contou Ryan ao iG.

Christy Hermandes, de 21 anos, conseguiu se formar em consultoria de moda. Ela optou por uma escola menos conhecida e menos cara, mas mesmo assim precisou pegar U$ 36 mil emprestados para paga-la. Ryan e Christy concederam essa entrevista enquanto trabalhavam distribuindo panfletos de um salão de beleza nas ruas de Nova York, um emprego temporário que paga cerca de U$ 10 por hora. “A minha universidade tem escritório de colocação, para ajudar a nos colocar no mercado de trabalho na nossa área. Eu tentei por seis meses, preenchi centenas de fichas e cadastros, mas nada apareceu. Então tive que pegar esse emprego, que pelo menos tem um pouco a ver com moda e beleza”, se consola Christy, que ainda tem U$ 18 mil em dívidas estudantis.

Bumi Oienuga trabalha de acompanhante porque a mãe é enfermeira: na turma de 76 alunos de contabilidade, nenhum arrumou emprego, nem mesmo estágio não remunerado
Carolina Cimenti/especial para o iG
Bumi Oienuga trabalha de acompanhante porque a mãe é enfermeira: na turma de 76 alunos de contabilidade, nenhum arrumou emprego, nem mesmo estágio não remunerado
Bumi Oienuga, de 23 anos, está no último ano do curso de contabilidade. Ele trabalhou por um tempo como acompanhante particular de idosos e deficientes, emprego que só conseguiu porque sua mãe é enfermeira e o colocou em contato com essas pessoas. Porém na área de contabilidade, Bumi não vê grandes possibilidades. “Na minha turma de 76 alunos, ninguém conseguiu estágio ou emprego na área, nem mesmo estágio não remunerado”, diz. Ele explica que se não encontrar emprego até se formar, em agosto, pensa em voltar a trabalhar com idosos e talvez até mesmo voltar à universidade para estudar enfermaria. “Eu quero ser contador, mas se não posso, tenho que me adaptar”, afirma.

Geração perdida foi uma expressão criada pela escritora Gertrude Stein, nos anos 1920, em referencia aos jovens franceses que viviam a crise econômica pós-Primeira Guerra Mundial. Também foram chamados assim os jovens japoneses nos anos 1990, durante a estagnação econômica do país. Mas países ricos em recessão e com altos índices de desemprego entre os jovens, como Espanha, Grécia, Portugal, Itália e até mesmo os Estados Unidos, estão trazendo à tona a expressão de Stein, que tende a ficar cada vez mais contemporânea.

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