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De janeiro a outubro valor subiu de US$ 14 bi em 2010 para mais de US$ 30 bi este ano; investidores ampliam aposta no mercado brasileiro com foco em pré-sal, Copa e Olimpíada

A crise aguda de endividamento nos países da União Europeia tem ampliado o volume de recursos vindos daquela região em direção ao Brasil, na forma de Investimento Estrangeiro Direto (IED), em busca de melhores opções de retorno e proteção contra a turbulência financeira que afeta o bloco econômico.

Entenda a Crise Econômica Mundial

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Levantamento elaborado pelo iG , com base em dados do Banco Central, mostra que no período de janeiro a outubro de 2011 houve um crescimento de 120% nos recursos investidos no Brasil pelo grupo de 17 países que utilizam o euro como moeda única. Nos dez primeiros meses do ano foram computados pelo BC um total de US$30,869 bilhões em Investimentos Estrangeiros Diretos realizados pelos países do bloco. No mesmo período, em 2010, esse volume totalizou US$ 14,008 bilhões.

Fugindo da crise na Europa

Evolução do Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil dos países que adotam o euro

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Fonte: Banco Central *Dado consolidado no período de janeiro a outubro

A forte entrada de recursos externos no País, principalmente da Europa, está ligada diretamente ao bom desempenho da economia brasileira, que, apesar da recente desaceleração , ainda cresce mais que as chamadas economias maduras como a zona do euro , os Estados Unidos e o Japão .

Parte desse movimento de fortes investimentos no Brasil também está relacionado com as obras de infraestrutura para o País realizar a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016 no Rio de Janeiro.

Entre os destaques, a lista de países que mais investiram este ano no Brasil tem a Holanda na liderança com investimentos totais de US$ 15,8 bilhões este ano até outubro, uma alta de 324% na comparação com o mesmo período de 2010.

Obras do futuro estádio do Corinthians, que receberá a abertura da Copa em 2014: investimento estrangeiro cresce com foco em oportunidades geradas pelo mundial de futebol
Divulgação Odebrecht
Obras do futuro estádio do Corinthians, que receberá a abertura da Copa em 2014: investimento estrangeiro cresce com foco em oportunidades geradas pelo mundial de futebol

Na segunda posição está a Espanha , com US$ 7,5 bilhões em investimentos no Brasil em dez meses, com um aumento de 761% em relação ao período de janeiro a outubro do ano passado. Esse movimento é explicado em grande parte pelo fato de o país ser um dos mais afetados pela crise e amargar a maior taxa de desemprego da Europa, que atinge 20,7% da população em idade produtiva . Com isso, as empresas daquele país procuram regiões com maior potencial de crescimento e farto mercado consumidor.

Em termos percentuais, as maiores variações de 2010 para 2011, observando o período de janeiro a outubro, foram verificadas nos investimentos diretos feitos pela Finlândia (5.400%), Irlanda (1.944%), Chipre (870%), Espanha (761%) e Bélgica (691%).

Esse aumento do investimento da zona do euro no Brasil, segundo o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) Maurício Santoro, é um sinal de que a atual crise será longa. “As empresas daquela região precisam seguir com seus planos de expansão e crescimento de receitas e lucros. Se não conseguem crescer em seus mercados de origem procuram alternativas”, disse.

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“Muitas empresas europeias apostam na força do mercado doméstico do Brasil. Essa estratégia de investimento é um movimento de empresas e não de governos, muito em função das oportunidades com o pré-sal , a Copa do Mundo, as Olimpíadas, além das obras de infraestrutura e de habitação dentro do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC)”, acrescentou.

O Banco Central não divulga os dados conjuntos por país de origem e a área de destino dos investimentos no Brasil para não comprometer o sigilo de estratégias de negócios de grandes empresas multinacionais com alto volume de recursos aplicados no País.

Mas setores como energia elétrica, comércio varejista, produção de alimentos, metalurgia, petróleo e gás, farmacêutico, educação, serviços financeiros e bancários, tecnologia, transportes, infraestrutura aeroportuária e telecomunicações estão no foco dos investidores estrangeiros.

Plataforma da Petrobras na região do pré-sal: setores de energia e petróleo estão no radar dos investidores estrangeiros
Selmy Yassuda
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Para Antonio Corrêa de Lacerda, professor doutor de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), essa ampliação dos investimentos da zona do euro no Brasil embute uma contradição, em termos, porque em tempos de crise o natural seria uma redução e não o aumento desse movimento. “Mas essa turbulência na Europa é uma crise de governos e não das empresas. O investimento cresce porque as companhias precisam reagir, já que a Europa apresenta pouca perspectiva”, disse.

“Investir nos Estados Unidos parece fora de questão no momento. Na China, muitas empresas já estão posicionadas e com uma exposição significativa. Então é natural que os investimentos acabem indo para regiões com perspectivas positivas de crescimento como o Brasil”, acrescentou.

O Brasil é a sétima economia do mundo, tem sinais de desaceleração, mas deve crescer este ano cerca de 3% sobre uma base forte de 7,5% , que foi o PIB em 2010.

“Para 2012, as perspectivas apontam para um crescimento também na faixa de 3%, que é maior que o avanço das economias maduras. Isso significa que a economia brasileira pode registrar uma expansão entre 13% e 14% no acumulado em três anos. A Europa vai demorar muito, talvez mais de dez anos, para oferecer uma possibilidade parecida com essa”, disse Lacerda.

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De acordo com os dados do Banco Central, no ano, de janeiro a outubro, ingressaram no País US$ 56,001 bilhões em IED, o maior resultado da série histórica em 64 anos. Esse desempenho é 90,8% maior frente ao mesmo período do ano passado, quando o investimento estrangeiro totalizou US$ 29,345 bilhões.

O investimento realizado pelos estrangeiros no Brasil é importante para que o País possa equilibrar suas contas financiando o déficit com o setor externo verificado nos últimos anos. O País financia este déficit com a entrada de dólares que ingressam na forma de investimentos estrangeiros em setores produtivos.

Mas o outro lado dessa mesma moeda é que a elevação na entrada de dólares no Brasil derruba a cotação da divisa e valoriza o real, aprofundando ainda mais o rombo nas contas externas com o aumento das importações, a elevação gastos de turistas brasileiros no exterior e a remessa de lucros de empresas estrangeiras instaladas no Brasil para as suas matrizes fora do País.