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Para autor do mais respeitado dicionário de termos econômicos do País, variação do dólar não impacta inflação no curto prazo

A recente variação cambial no Brasil com o dólar se valorizando em relação ao real nas últimas semanas, não deverá trazer impactos significativos para a inflação no curto prazo, de acordo com a avaliação feita pelo economista Paulo Sandroni, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV).

Para que um efeito seja sentido na alta dos preços, principalmente de produtos importados, seria preciso um cenário mais duradouro de desvalorização do real, de acordo com Sandroni, que também é autor do mais respeitado dicionário de termos econômicos do País e idealizador de vários jogos que auxiliam as pessoas a compreenderem os recentes fenômenos econômicos.

Paulo Sandroni: mudança na política monetária, com corte de juros, foi arriscada, mas acertada
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Paulo Sandroni: mudança na política monetária, com corte de juros, foi arriscada, mas acertada
“A variação cambial não deve ter um impacto na inflação e nem devem exercer uma influência de forma consistente na pressão sobre os preços. O câmbio deve se situar por volta do patamar de R$ 1,80”, disse o professor.

De acordo com Sandroni, as recentes flutuações no câmbio estão, neste momento, diretamente ligadas com a crise financeira e ao aumento da incerteza sobre seus desdobramentos.

“Com a situação da economia dos Estados Unidos em com a questão da dívida nos países da região do euro, inclusive com riscos de abalos para o sistema bancário, a busca por liquidez cresce em ativos como o dólar e o euro, embora sejam ativos emitidos por países endividados”, disse Sandroni. “Esse movimento não segue uma lógica muito clara. Isso acontece quase que como um espasmo”, acrescentou.

Segundo Sandroni, uma flutuação mais intensa na cotação de várias moedas em todo o mundo não é um fenômeno recente. “Isso existe desde que os Estados Unidos abandonaram o padrão câmbio-ouro, no início dos anos 70”, disse.

O professor explica ainda que o movimento atual teve em sua raíz os desequilíbrios provocados pela crise na economia americana, iniciada em 2008, os problemas fiscais e o alto endividamento de países europeus, além da forte intervenção feita pela China na cotação do yuan, a moeda do país.

“Muitos países, até mesmo os que adotam o câmbio flutuante, têm feito intervenções para desvalorizar suas moedas, ou para retardar uma maior valorização em relação ao dólar”, disse o professor da FGV. “Essa é uma tentativa de ganhar competitividade com exportações em um momento onde muitas economias estão estagnadas ou com baixo crescimento.”

Juros e competitividade

A desvalorização do real, segundo Sandroni, ocorreu em função do comportamento do mercado financeiro interno e externo, mas de acordo com ele, é muito importante esse movimento para ajudar os setores ligados à indústria a ampliar a produção e retomar a competitividade.

“Para o setor industrial, a taxa de câmbio ideal neste momento seria de R$ 2,00 por dólar. E mesmo assim, essa cotação não exerceria um forte impacto inflacionário.”

Segundo o professor da FGV, as empresas não correm riscos com possíveis impactos da flutuação do câmbio em seus balanços financeiros, como os ocorridos com após as turbulências de 2008. “As companhias estão mais atentas, escaldadas, e tomaram medidas contra uma variação mais forte no câmbio”, disse.

Para Sandroni, em função do cenário de crise existe uma preocupação da equipe econômica e do Banco Central em fazer com que os juros não matem o crescimento do País. “A mudança na política monetária, com a redução da taxa de juros, é uma decisão de alto risco, mas acertada para o momento”, disse. “O problema é o País se acostumar com uma inflação em um patamar mais alto”, acrescentou.

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