Tamanho do texto

Para professor Márcio Garcia, estratégias comerciais e câmbio artificial contribuíram para deteriorar a situação das principais economias

As estratégias comerciais adotadas pela China nos últimos anos, que tem com um dos principais pilares a desvalorização do yuan em relação ao dólar, contribuíram para agravar os problemas econômicos e a crise financeira nos Estados Unidos e em países da zona do euro, segundo o professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Márcio Garcia.

Esses países ainda tentam se recuperar dos abalos financeiros após a quebra do banco americano Lehman Brothers , em setembro de 2008. Mas, desde então, os problemas de alto endividamento, cujo exemplo mais latente é a Grécia , aliado a um impasse político para se adotar medidas que possam solucionar a questão e uma difícil disputa comercial com os chineses em vários segmentos têm dificultado ainda mais uma recuperação da credibilidade no sistema financeiro mundial.

Especialista em operações cambiais e monetárias e em finanças internacionais, com PhD pela Stanford University, Garcia afirma que o mundo vive atualmente em duas velocidades, num contexto de desaceleração das economias centrais onde os emergentes puxam o crescimento, com a China tendo um peso grande nesse movimento. “O problema é que a China luta com uma inflação na faixa de 6% e busca desacelerar o crescimento pela contenção do crédito”, disse o professor da PUC-RJ em entrevista ao iG .

Na avaliação de Garcia, o Brasil está melhor que os países desenvolvidos nesta crise, mas pode ser que ocorra uma piora no quadro, com possíveis efeitos para a economia local . “Pode sair muita coisa ruim ainda. Na Europa, por exemplo, não se sabe o que está na contabilidade dos bancos”, disse. “Dependendo da profundidade da crise pode ser que tenha algum impacto sobre a massa salarial ou pelo lado da inflação , que pode comer parte da renda do trabalhador”, acrescentou.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

iG: Como o senhor avalia o cenário atual de crise?

Márcio Garcia: Com muita preocupação. Pode sair muita coisa ruim ainda. Na Europa, não se sabe o que está na contabilidade dos bancos. A economia hoje é muito irrigada por fluxos de crédito e todo o sistema está estruturado dessa forma. Se esses fluxos caírem é a mesma coisa que ficar sem computador e internet, a produtividade cai. Portanto é necessário ter um fluxo estável de dinheiro para crédito, investimentos e capital de giro. A diferença entre 2008 e o momento atual é que naquele período as medidas deram algum resultado e no atual momento ainda não houve uma reação.

iG: É possível para o Brasil tirar proveito da crise?

Garcia: Uma crise nunca é bom, mas o Brasil está melhor que os demais países. E poderia estar melhor se não tivesse a crise. Na minha opinião não foi uma decisão acertada estimular a política fiscal e ampliar os gastos. A inflação poderia ter sido menor, sem essas medidas adotadas em 2009 e 2010. O efeitos da crise aqui foram bem mais fracos. Agora, com o corte na taxa de juros, o Banco Central tomou uma medida mais arriscada.

iG: Os emergentes, incluindo o Brasil e a China, são apontados como fonte de crescimento para a economia mundial, mas lutam para manter a inflação sob controle e moderar o consumo ao mesmo tempo que buscam evitar uma desaceleração. É possível conciliar esses objetivos?

Garcia: Estamos vivendo um movimento em duas velocidades, como diz o FMI. Essa velocidade dupla reflete o centro, que são as economias maduras com fraco desempenho, e o ritmo de crescimento mundial sendo puxado pela periferia, que são os emergentes, principalmente a China. O problema é que a China luta com uma inflação na faixa de 6% e busca desacelerar o crescimento pela contenção do crédito. Para que o crescimento chinês permaneça alto, no médio prazo, o país precisa reduzir a dependência dos investimentos e das exportações e focar mais no consumo interno. Mas isso passa pela apreciação da taxa de câmbio, que é um tema difícil para as autoridades chinesas.

iG: O Banco Central reduziu a taxa de juros acreditando em uma política de gastos públicos menos expansionista. O aumento de participação da iniciativa privada em infraestrutura pode ser a solução e uma oportunidade para investidores nacionais e internacionais mitigarem os efeitos da crise?

Garcia: O gasto agregado está em um nível razoável. Mas precisamos de menos consumo e mais recursos para investimentos. Agora se resolveu passar a gestão de alguns aeroportos para a iniciativa privada. Mas para o setor privado entrar com mais peso nos investimentos, principalmente em infraestrutura, o governo deve ter apenas um papel regulador e isso precisa ficar bem claro. Para a iniciativa privada investir em projetos de 30 anos por exemplo é preciso regras claras.

iG: A crise pode atrapalhar o desempenho do mercado de trabalho e a evolução da renda que ajudou a diminuir as diferenças sociais e manteve a economia em rota de crescimento nos últimos anos?

Garcia: Dependendo da profundidade da crise pode ser que tenha algum impacto sobre a massa salarial. Mas também tem um aspecto que é o impacto pelo lado da inflação, que pode comer parte da renda do trabalhador. O Brasil ainda é um país com economia fechada e ser fechado é ruim. Mas na hora da crise tem um lado bom. Se houver contração mais acentuada da economia, aqui o efeito será menor.

iG: A turbulência se arrasta mais por um probelma de confiança política?

Garcia: Os problemas são graves, mas em grande parte são problemas políticos. Tomar decisões na Europa com votos favoráveis de todos os mebros da zona do euro é algo complicado. Nos Estados Unidos, com a proximidade das eleições presidencias, as dispustas partidárias se acirram e bloqueiam o consenso. Na Europa, falta um líder que banque o projeto econômico construído desde o fim da 2ª Guerra. Não se pode deixar os bancos quebrarem. Tem que ter uma sinalização de que as dívidas serão honradas. Sem crescimento, mais insolvente ficam os países.

iG: As guerras promovidas pelos EUA pós 11 de setembro e a falta de fiscalização sobre os orçamentos dos países da zona do euro foram determinantes para a crise?

Garcia: O endividamento público crescente nos últimos anos é um grande problema para os Estados Unidos sim. Mas a questão da Europa é diferente. A união monetária teve um alto custo de financiamento para equiparar os países membros da zona do euro. O crédito é uma boa ferramenta se for bem utilizada. Quando ocorrem excessos, pode haver o surgimento de bolhas e isso tem um alto custo para o ambiente econômico.

iG: As políticas comerciais adotadas pela China e a desvalorização do yuan contribuíram de alguma forma para amplificar os problemas econômicos nos EUA e na Europa?

Garcia: Sim, claro. Parte da solução para que o mundo retome o crescimento está em a China deixar apreciar sua taxa real de câmbio. Isto permitirá que o crescimento chinês baseie-se mais na elevação do consumo do que na ampliação do investimento e das exportações, como hoje.

iG: Como conciliar um ajuste fiscal convincente, mas que não condene o crescimento por um longo período tanto na Europa como nos EUA?

Garcia: As grandes ameaças têm a ver com problemas também de longo prazo, como aposentadoria. Aumentar a idade de aposentadoria seria uma ótima ideia. Aliás, tanto na Grécia, quanto aqui.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.