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Diante da dura realidade do mercado imobiliário, ações de confisco de imóveis que levavam alguns meses no início da crise agora duram anos, dando tempo para que as pessoas organizem as finanças

Forçados pela dura realidade do mercado imobiliário, as financiadoras estão mais propensas a permitir que os proprietários inadimplentes permaneçam em suas casas - uma mudança de atitude e de estratégia que está ajudando a salvar alguns bairros e também a desacelerar o processo de execução de hipotecas que vem devastando os Estados Unidos.

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Algumas financiadoras estão dispostas a fazer acordos com os proprietários para que permaneçam na residência, se oferecendo para pagar o seguro da casa, por exemplo, enquanto o morador paga as contas. Outras simplesmente estão fingindo que não veem o que está acontecendo, discretamente adiando as datas de execução da hipoteca, sabendo que os custos disso provavelmente ultrapassam o valor cada vez mais baixo das propriedades.

Essa evolução talvez seja inevitável, segundo especialistas. Em todo o país, mais de 644.458 propriedades estavam à beira de se tornarem bens dos bancos no fim de janeiro, mas ainda mais - cerca de 710.725 – estavam à caminho de serem tomadas por falta de pagamento, de acordo com a RealtyTrac, uma imobiliária e empresa de análise de execução de hipotecas.

Bairro de casas em Orlando,EUA: credores estão mais tolerantes com inadimplência
Edward Linsmier/The New York Times
Bairro de casas em Orlando,EUA: credores estão mais tolerantes com inadimplência
Além disso, os Estados e municípios tornaram-se mais agressivos nos últimos meses na tentativa de forçar os bancos a manter as propriedades hipotecadas, que acabaram se tornando um fardo em bairros de costa a costa. No mês passado, legisladores da Flórida e de tribunais em Nova York consideraram exigir novas negociações das hipotecas de uma maneira mais rápida e eficiente.

"Sob circunstâncias normais, os bancos seriam capazes de cobrir o custo dos impostos e da manutenção das propriedades, mas estes são tempos de desespero e os bancos estão recorrendo a medidas desesperadas em alguns casos", disse Daren Blomquist, vice-presidente da RealtyTrac, empresa de análise imobiliária. "É um fator importante hoje em dia, porque os valores das propriedades diminuíram e se os bancos as revenderem eles não conseguirão cobrir os custos, isso sem considerarmos se é que conseguirão vendê-las."

Quando a bolha imobiliária estourou há quase seis anos atrás, milhões de americanos foram forçados a desocupar suas casas com apenas alguns meses de inadimplência, em um sistema que funcionava como uma fábrica de despejo, muitas vezes resultando em propriedades vandalizadas e relações amargas entre bancos e proprietários.

Desde então, o tempo médio levado para completar uma execução de hipoteca quase triplicou em todo o país, de quatro meses em 2007 para cerca de um ano no fim de 2011, de acordo com a RealtyTrac, com a desaceleração mais evidente em alguns dos Estados mais atingidos, incluindo a Califórnia, Flórida e Illinois. Proprietários de imóveis na Florida que se declaram inadimplentes podem agora esperar cerca de dois anos no limbo legal, uma das grandes vantagens disso é poder permanecer em casa sem ter que pagar nenhum centavo por isso.

Michelle Murray-Clark: funcionária de um supermercado há um mês, depois de três anos desempregada, ela tem se beneficiado do ritmo mais moroso das ações de despejo
Edward Linsmier/The New York Times
Michelle Murray-Clark: funcionária de um supermercado há um mês, depois de três anos desempregada, ela tem se beneficiado do ritmo mais moroso das ações de despejo

Como resultado, a relação entre muitos devedores e credores vem melhorando.

Michelle Murray-Clark é uma das muitas pessoas que se beneficiaram. Funcionária de um supermercado há um mês, depois de três anos desempregada, Murray-Clark não pagou sequer uma prestação de sua hipoteca nos últimos 40 meses.

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A American Home Mortgage Servicing, um empresa processadora de empréstimos, não tomou medidas para despejá-la e está trabalhando em uma terceira tentativa de modificação de seu empréstimo.

A empresa também está pagando o seguro de sua casa localizada perto do centro de Orlando. Eles mantém contato com eles semanalmente.

"Nossa filosofia é que é melhor manter as pessoas em suas casas - melhor para o consumidor, para os investidores e para nós", disse Philippa Brown, vice-presidente de comunicações corporativas da American Home Mortgage Servicing. "Nossa função é trabalhar com os imóveis que estão enfrentando dificuldades e encontrar caminhos para que consigam manter os donos em suas casas. Estamos abertos a novas maneiras de lidar com a situação."

"Às vezes eu acordo de mau humor", disse Murray-Clark, de 52 anos. "A companhia de hipoteca me liga e me diz : 'Nós vamos trabalhar com você', então eu paro de empacotar minhas coisas. Então eles dizem: 'Desculpe, não funcionou, e eu começo a arrumar minhas coisas novamente. Então eles dizem:' Vamos tentar mais uma vez! ' E eu paro de empacotar novamente."

"Eu sei que estou vivendo em minha casa dentro destas circunstâncias por um bom tempo", disse.

Mas todos os dias, ela se faz novas perguntas: será que deveria guardar seu primeiro salário para pagar a mudança ou fazer reparos no telhado? Se a última tentativa da modificação do empréstimo for aprovada, como será que ela vai pagar por todos os juros acumulados e pelas multas?

"É uma situação muito tensa, porque eu não sei o que vai acontecer", disse.

Judith Fox, professora de Direito que dirige o Projeto de Justiça Econômica do Centro de Direito de Notre Dame, em South Bend, Indiana, mudou o conselho que dá aos seus clientes inadimplentes. "Há três ou quatro anos atrás eu sempre dizia aos meus clientes: 'Você tem três ou quatro meses para se organizar", disse ela. "Agora eu digo para as pessoas, mesmo que tenham sofrido uma execução de hipoteca, 'basta ficar aonde estão, pois pode demorar anos antes que lhes aconteça alguma coisa."

(Por Susan Saulny )

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