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Aproximadamente 7 milhões de chineses vão se formar este ano, mas recente enfraquecimento da economia faz chance de os graduados arranjarem emprego despencar

NYT

Sete milhões de estudantes irão se formar em universidades e instituições de ensino superior de toda a China nas próximas semanas, um recorde para o país. Porém, suas chances de encontrar emprego são pequenas e esse é mais um dos sinais do enfraquecimento da economia chinesa.

As empresas afirmam que estão repletas de currículos, mas têm poucas vagas a oferecer, pois o crescimento econômico deixou de ser tão intenso. Microblogs chineses parecidos com o Twitter estão cheios de reclamações de jovens graduados com poucas perspectivas.

Aproximadamente 7 milhões de chineses vão se formar este ano, mas sem grandes perspectivas de emprego devido ao enfraquecimento da economia chinesa
NYT/The New York Times
Aproximadamente 7 milhões de chineses vão se formar este ano, mas sem grandes perspectivas de emprego devido ao enfraquecimento da economia chinesa

O governo chinês está preocupado e diz que o problema poderia afetar a estabilidade social, ordenando que escolas, agências governamentais e empresas contratem mais graduados, mesmo que em regime temporário, para ajudar a diminuir a falta de emprego. "A única coisa que me preocupa mais do que uma pessoa sem formação e desempregada é uma pessoa educada e sem emprego", afirmou Shang-Jin Wei, economista da Columbia Business School.

Lu Mai, secretário-geral da Fundação para o Desenvolvimento da Pesquisa na China, organização de elite do governo, reconheceu em um pronunciamento recente que menos da metade dos graduados daquele ano já tinha conseguido um emprego.

Estudantes de graduação de praticamente todas as universidades da China, com exceção das de elite, afirmam que poucos de seus conhecidos já estão empregados – e que os poucos contratados no inverno estavam perdendo os empregos desde o enfraquecimento da economia nas últimas semanas.

"Muitas empresas não estão mais crescendo e alguns dos meus colegas foram contratados e mandados embora no mesmo mês, quando as empresas perceberam que não poderiam pagar seus salários", afirmou Yan Shuang, graduanda do curso de trabalho e recursos humanos do Instituto de Tecnologia de Pequim.

Yan disse que haviam lhe prometido uma vaga em uma empresa de roupas esportivas no inverno. Porém, a empresa cancelou temporariamente todas as contratações desde o enfraquecimento da economia, em março.

A China quadruplicou o número de estudantes matriculados em universidades e faculdades ao longo da última década. Porém, a economia do país ainda se baseia na manufatura, abrindo vagas principalmente para trabalhadores braçais. O primeiro-ministro Li Keqiang realizou pessoalmente a reunião de gabinete no dia 16 de maio, onde foi definida a diretiva para que escolas, agências governamentais e empresas estatais contratassem mais graduados, uma estratégia que tem sido utilizada com cada vez mais frequência nos últimos anos para absorver jovens desempregados e bem formados.

"Qualquer país com uma classe média cada vez maior e um número crescente de universitários desempregados está com problemas", afirmou Gerard A. Postiglione, diretor do Centro Wah Ching de Pesquisa em Educação na China, da Universidade de Hong Kong.

Uma pesquisa nacional lançada no inverno do ano passado revelou que, na faixa etária de 21 a 25 anos, 16% dos homens e mulheres com diploma universitário estavam desempregados.

Liu Xiao Li durante uma entrevista de emprego em uma feira na Minzu University of China, em Beijin job fair at Minzu University of China em Pequim
NYT/The New York Times
Liu Xiao Li durante uma entrevista de emprego em uma feira na Minzu University of China, em Beijin job fair at Minzu University of China em Pequim

Porém, o desemprego atinge apenas 4% das pessoas que concluíram o ensino fundamental, um sinal de que as empresas continuam contratando principalmente pessoas para trabalhar no chão das fábricas. Os salários dos trabalhadores vindos de áreas rurais para zonas urbanas aumentaram 70% nos últimos quatro anos; os salários dos jovens com empregos no setor executivo se mantiveram constantes ou chegaram até mesmo a cair.

Economistas estimam há muito tempo que a economia chinesa precisa crescer entre 7% e 8% ao ano para evitar o desemprego desenfreado. Porém, esse crescimento se tornou menos certo nos últimos anos, à medida que o mercado de trabalho se dividiu.

Um crescimento relativamente lento ainda cria empregos suficientes para todos os funcionários de chão de fábrica no país. Porém, é preciso haver um crescimento muito mais rápido para empregar todos os universitários que estão se formando.

O Fundo Monetário Internacional prevê que a economia chinesa cresça 7,75% este ano – menos do que o crescimento de 10% a 14% que ocorria até 2008, mas ainda muito mais que no Ocidente. O principal problema para a China reside no crescimento absoluto no número de graduados; três milhões de universitários se formam por ano nos Estados Unidos, ao passo que a China aumentou o número de graduados em mais de cinco milhões em apenas uma década.

Uma resposta apoiada pelo Conselho de Estado é a recomendação de que mais graduados aceitem empregos em pequenas empresas privadas. Porém a geração que cresceu sob a "política do filho único" mostrou ser bastante avessa ao risco e não gosta de abrir novas empresas, nem de trabalhar para elas. "Eu não trabalharia para empresas privadas, não é seguro – só aceito trabalhar para as estatais", afirmou Yan.

Muitos graduados que veem poucas oportunidades de trabalho estão se matriculando em cursos de pós-graduação, cada vez mais comuns no país. Yang Yi, que estuda economia aplicada no Instituto de Tecnologia de Pequim, afirmou que depois de procurar empregos e não encontrar, estava se preparando para iniciar um mestrado.

"Espero que a economia já tenha melhorado quando eu me formar, daqui a dois anos", afirmou. "Fazer o mestrado é sempre melhor do que trabalhar em empresas pequenas que podem não durar muito tempo."

Estudantes fazem filma para uma entrevista de emprego durante uma feira na Minzu University of China, em Pequim
NYT/The New York Times
Estudantes fazem filma para uma entrevista de emprego durante uma feira na Minzu University of China, em Pequim

Os estudantes chineses costumam buscar cursos de graduação considerados menos exigentes do ponto de vista acadêmico, mas que deem mais chances em carreiras no setor bancário. Faculdades de administração e economia se espalharam, em parte porque esses cursos são baratos para muitas das novas faculdades privadas do país. Cursos de engenharia e outras ciências crescem a um ritmo mais lento por conta da exigência de laboratórios caros.

Assim como no Ocidente nos últimos anos, os serviços financeiros são um campo extremamente popular entre os universitários, que enviam enxurradas de currículos para bancos, firmas de corretagem e outros negócios do setor. Estatísticas do Ministério de Recursos Humanos mostram que o salário médio no setor bancário é de 14.500 dólares ao ano, o dobro do salário da área de educação e saúde.

Os formandos das melhores universidades ainda têm boas chances de conseguir empregos, especialmente se não forem ambiciosos demais. Lin Yinbi, graduando em comércio e economia na prestigiada Universidade Renmin, em Pequim, afirmou que tinha ofertas de emprego de uma empresa de aquecimento e uma rede de supermercados, mas que ainda procurava um emprego bem pago em algum banco. "A questão é: que tipo de emprego?", disse. "Ele é na minha área? Paga bem? Oferece espaço para crescer?", completou Lin.

Wang Zhian, um comentarista famoso na China, cujo microblog possui mais de 200.000 seguidores, gerou desconforto este ano ao recomendar que estudantes universitários aceitassem empregos em empresas de mudanças.

"O mais importante para os graduandos é encontrar um meio de vida e, se isso significa trabalhar fazendo carreto, que seja", afirmou. "Não dá para ser sustentado pelos pais para sempre."

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