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Países da zona do euro procuram melhorar relações com países da região, como o Brasil, em busca de lições para enfrentar a crise

Reuters

CÁDIZ, Espanha - Em séculos passados, a cidade portuária de Cádiz teve papel destacado no comércio entre a Espanha e as colônias na América Latina, com mercadores e aventureiros trazendo tesouros ao país europeu, vindos das minas e das plantações do império.

Nas décadas mais recentes, os empresários espanhóis e portugueses visitaram a região novamente, como parte de uma onda de investimentos que chegou a ser chamada de "a reconquista".

Em meio a protestos, Portugal tenta expandir relações com o Brasil para enfrentar a crise
AFP
Em meio a protestos, Portugal tenta expandir relações com o Brasil para enfrentar a crise

No entanto, os dirigentes reunidos em Cádiz para a cúpula ibero-americana de sexta-feira e sábado se deparam com relações que mudaram profundamente nos últimos anos. As ex-colônias poderiam ter a chave de salvação da antiga metrópole.

As economias da Espanha e de Portugal praticamente naufragaram em meio à crise na zona do euro. Ambas precisam de ajuda externa para manter-se flutuando e seus cidadãos saem às ruas para protestar contra as medidas de austeridade e a perda de empregos.

Determinar um novo rumo econômico e explorar novas oportunidades de comércio e investimentos nestes tempos difíceis será o principal objetivo desse encontro em Cádiz. "Antes, Espanha e Portugal decidiam a agenda", afirmou Ramón Pacheco Pardo, especialista em estudos sobre Espanha, Portugal e América Latina no King's College, em Londres.

"Agora, a relação tem mais a ver com a economia, com a necessidade. Espanha e Portugal realmente necessitam desses mercados. É também uma oportunidade para sentar-se com países que sabem o que é atravessar uma crise econômica."

A profundidade do desespero dos cidadãos espanhóis e portugueses ficou evidente nos últimos dias. Milhões de pessoas saíram às ruas nos dois países, e em outras partes da Europa, na quarta-feira, contra os cortes de despesas sociais, nas pensões e nos empregos públicos.

Uma mulher se suicidou em Bilbao na semana passada, quando estava prestes a ser despejada de sua casa, fato que abalou o país e deu lugar a uma reavaliação da política dos bancos.

Um em cada quatro trabalhadores espanhóis está sem emprego, em uma crise agravada pelo estouro da bolha imobiliária em 2008. Em Portugal, o desemprego se aproxima dos 16%. No que se tornou uma repetição do padrão histórico, cerca de 20 mil espanhóis emigraram no ano passado para a América Latina.

A Câmara de Comércio da Espanha no Brasil disse ter recebido quase 1.300 currículos no último ano de profissionais interessados em trabalhar no país. "Estão buscando uma oportunidade que não existe na Espanha", disse María Luisa Castelo Marín, diretora-executiva da Câmara de Comércio.

As empresas espanholas também dependem em grande medida de suas operações na América Latina para compensar seus débeis resultados no mercado doméstico.

O grupo de telecomunicações Telefónica informou na semana passada que a América Latina ter revertido um prejuízo em lucro, após a contribuição da América Latina em 49% de sua receita, compensando a contração de seus negócios na Espanha. Também o grupo bancário Santander obtém mais de 50% de seus ganhos na região, particularmente no Brasil.

Brasil em alta

As cúpulas anteriores foram com frequência dominadas por líderes fortes, como Fidel Castro, de Cuba, ou Hugo Chávez, da Venezuela, o que entreteve os participantes, mas não ofereceu nada a mais. Nenhum dos dois estará presente desta vez e, sem dúvida, a figura mais importante da região será a presidente brasileira Dilma Rousseff.

Os investimentos espanhóis acumulados no Brasil chegam a 55 bilhões de euros. Mas as esperanças espanholas de investimentos recíprocos --a economia brasileira superou a espanhola em tamanho-- podem ser precipitadas.

Dilma expressou sua preocupação com um possível colapso da economia na Espanha e Portugal. Ela permanecerá na Espanha depois da cúpula para reunir-se com o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy.

A fabricante de aviões Embraer, uma das maiores do mundo, abriu em junho uma fábrica em Évora, em Portugal, e a siderúrgica CSN adquiriu este ano a espanhola Grupo Alfonso. Mas esses movimentos não indicam necessariamente uma mudança de tendência.

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