Tamanho do texto

Para órgão da ONU, países da zona do euro insistem no erro de não realizarem investimentos domésticos e acabam afetando "todas as regiões do mundo"

Protesto em frente ao Ministério das Finanças, em Madri, contra cortes no orçamento espanhol
AP Photo/Paul White
Protesto em frente ao Ministério das Finanças, em Madri, contra cortes no orçamento espanhol

As medidas de austeridade adotadas por governos de países desenvolvidos para tentar conter a crise econômica mundial não estão dando o resultado esperado e ainda desaceleram a economia mundial e aumentam a desigualdade de renda. É o que afirma o relatório da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), divulgado nesta quarta-feira.

Em seu "Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2012", a Unctad diz que os países desenvolvidos, como os da União Europeia, insistem no erro de não realizarem investimentos domésticos. Segundo a Unctad, essas políticas são responsáveis pelo crescimento econômico vir desacelerando em "todas as regiões do mundo".

O texto afirma que a austeridade fiscal e o arrocho salarial "estão enfraquecendo ainda mais o crescimento nesses países, sem alcançar os resultados esperados de redução de déficits fiscais, criação de empregos e renovação de confiança dos mercados financeiros."

O organismo lembra que em 2010 já alertava que o desafio para a recuperação dessas economias não era o aumento da dívida dos governos, mas a falta de demanda interna nos países mais ricos.

"A demanda é o que impulsiona as economias modernas", afirma o relatório.

Leia mais: Após décadas de estabilidade, jovens sofrem para aprender a lidar com a crise

Medidas anticíclicas

Ao criticar as medidas de austeridade adotadas por governos de países desenvolvidos, a Unctad destaca o melhor desempenho dos países em desenvolvimento, como o Brasil.

A resposta dos países em desenvolvimento à deterioração da economia mundial é a adoçãode políticas anticíclicas, com um aumento da despesa pública, informa o relatório.

O documento cita o Brasil como exemplo desse tipo de política, ao dizer que o governo federal adotou reformas fiscais para aumentar as receitas que financiam suas despesas.

No entanto, as medidas de austeridade prejudicam a demanda nos mercados desenvolvidos e isso reduz as perspectivas de exportação dos mercados em desenvolvimento. Estes últimos "não poderão evitar uma desaceleração de suas economias e estão vulneráveis à contínua deterioração das economias desenvolvidas", garante a Unctad.

O "Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento 2012" prevê um crescimento de 2,3% para a economia mundial, em 2012 - contra os 2,7% registrados no ano passado. Segundo as previsões do organismo da ONU, o Brasil deve crescer 2,0%.

Desigualdade de renda

Grande parte do "Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento 2012" é dedicada à questão da desigualdade de renda no mundo, que vem aumentando, segundo o organismo da ONU.

Para os economistas da Unctad, uma das saídas para retomar o caminho do crescimento econômico é, exatamente, reverter este quadro .

Ao lembrar que famílias de baixa e média renda gastam proporções muito maiores de seus salários em consumo, o relatório volta a citar o Brasil.

"No Brasil, vários programas destinados a erradicar a pobreza extrema e melhorar as oportunidades para populações vulneráveis foram lançados ou fortalecidos", diz o relatório, que também elogiou os esforços feitos pelo governo para diminuir a desigualdade de renda entre homens e mulheres no mercado de trabalho.

A Unctad não poupou os grandes executivos e agentes financeiros, lembrando que a remuneração "extremamente elevada" que ganham é "frequentemente relacionada à tomada excessiva de riscos em busca de lucros de curto prazo e de dividendos para os acionistas".

Do outro lado da moeda, aparecem os trabalhadores assalariados, que, segundo relatório, foram "forçados a se endividar para manter seus padrões de vida."